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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A caridade que salva e a falsa caridade

Santa Madre Tereza de Calcutá
Irmãos, Aspirai aos dons mais elevados. Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior. Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada. Se eu gastasse todos os meus bens para sustento dos pobres, se entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse caridade, isso de nada me serviria.

A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; não se alegra com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade. Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. A caridade não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá. Com efeito, o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita.

Mas, quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito. Quando eu era criança, falava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido. Atualmente permanecem estas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade. (1Cor 12,31 - 13,1).

É conhecido este trecho da carta aos Coríntios. Uma das mais belas páginas da Sagrada Escritura que saiu do coração ardente do Apóstolo Paulo em um místico arroubo de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Na Carta ele ocupa o lugar de elogio da mais alta das virtudes, do mais nobre dos dons, depois de ter falado exaustivamente sobre os dons do Espírito. A caridade, disse o Apóstolo, não acabará nunca. Eis que amparados no conceito "caridade", muitos homens pensam que desse modo agradam a Deus e salvam-se. Muitos usam equivocadamente o conceito "amor - caridade/ágape" como se este fosse um conceito isolado de qualquer contexto vital, o que não é verdade. O "amar o próximo como a si mesmo" que muitos apregoam como base comum para o exercício de uma certa religião sem Deus, sem religião definida, sem credo e sem vínculos é, na verdade, a traição da verdadeira caridade. Este pensamento está errado por que parte de um princípio mais kantiano que cristão. A "caridade" é vista então como algo voluntário que a pessoa faz em prol do outro como garantia de sua salvação eterna. Ela não é concebida como um ato primeiro de fé, mas, antes como um agir voluntário do sujeito que assim o decide arbitrária e voluntariamente por si mesmo. O voluntarismo moral kantiano exclui um princípio Absoluto, exclui Deus, e erige como princípio da ação moral apenas a eleição racional do puro dever pelo dever: "age de tal modo que tal agir se transforme em lei universal". Assim, o valor da "caridade" pretensamente praticada por estas pessoas não se assenta em cumprir um preceito divino, mas, no fato de que o sujeito elegeu a "caridade" aleatoriamente como um valor e não como um princípio de vida derivado de Deus-Amor. Como valor eleito segundo a consideração subjetiva do sujeito, a caridade vale o mesmo que a não-caridade, pois, não encontra fundamento em um princípio Absoluto fora do homem. Assim, a suposta caridade que tais homens dizem fazer nada mais é que simples exercício de filantropia causado pela empatia com o semelhante pobre que sofre fome, doença, etc.

O segundo aspecto que quero abordar para desmascarar a falsa "caridade" - ou filantropia - é o seu aspecto mais fundamental, ou seja, o seu princípio. Qual é o princípio da ação caritativa? O que é caridade? Caridade não é somente levar um prato de sopa a quem passa fome ou uma cesta básica a uma família. Isto também é caridade, mas, não só. A caridade é o amor, o ágape. Esta espécie de Amor, o amor agápico ou caridade, é um dos atributos de Deus: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor" (1Jo 4,7-8). O verbo "ágape" designa o atributo do ser de Deus-Amor.

O amor, ou a caridade, não é um conceito abstrato. Vejamos como ensina o Papa Emérito Bento XVI:
Já no Antigo Testamento a novidade bíblica não consistia simplesmente em noções abstratas, mas na ação imprevisível e, de certa forma, inaudita de Deus. Esta ação de Deus ganha agora a sua forma dramática devido ao fato de que, em Jesus Cristo, o próprio Deus vai atrás da «ovelha perdida», a humanidade sofredora e transviada. Quando Jesus fala, nas suas parábolas, do pastor que vai atrás da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pródigo e o abraça, não se trata apenas de palavras, mas constituem a explicação do seu próprio ser e agir (grifo nosso). Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo — o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala João (cf. 19, 37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: «Deus é amor» (1 Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar (Deus Caritas Est, n. 12).
"tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13,1), ou seja, até à morte de Cruz. 
"Ele, que é de condição divina, não considerou o ser igual a Deus algo a que se apegar ciosamente; no entanto, esvaziou-se a si mesmo,  tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz" (Fl 2, 6-8) ou seja, o fato mesmo da encarnação já revela o fato do rebaixamento de si mesmo que o Filho fez ao entrar no mundo que completar-se há na crucificação. Isto é amor em Deus.
O amor divino ainda se manifesta na obra da criação a qual "Deus viu que tudo era bom" (Gn 1,9.18.21).
Esta espécie de amor, sendo um dos atributos divinos, recebe na Revelação outras nuances. O amor divino que é capaz de sacrificar-se pelos homens é também chamado Misericórdia nas parábolas do capítulo 15 do Evangelho de São Lucas citadas acima pelo Papa Emérito, pois, Deus é capaz de se compadecer do homem fraco e pecador e perdoar seu pecado magnanimamente. Ademais, o Antigo testamento já manifesta tal Misericórdia na relação de Deus com o povo escolhido e em Cristo Jesus ela é explicitada em vários contextos: na cura dos leprosos, na cura da mulher com hemorragia, na ressurreição do filho da viúva de Nain, na multiplicação dos pães, na cura do homem com a mão atrofiada, nas parábolas da misericórdia que Jesus conta ao longo de sua vida pública, etc.

O Antigo Testamento já conhecia o preceito "amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19,18), mas, só o ágape divino plenamente revelado em Cristo é capaz de fazer o preceito veterotestamentário passar a um patamar mais elevado de exigência moral humana a atributo do próprio Deus, um modo de reconhecer sua ação no mundo através do testemunho do Filho de Deus encarnado, crucificado, morto e ressuscitado. Na comparação do fundamento do amor cristão com o voluntarismo moral apelidado de "caridade" que os a-religiosos, agnósticos e espíritas usam como disfarce resta evidente que falta fundamento sobrenatural para este segundo sustentar-se.

O terceiro aspecto que gostaria de abordar para desmascarar a falsa "caridade" é o fundamento segundo da caridade. A partir da caridade divina ou do amor divino é que se pode falar, analogamente, da caridade humana. No capítulo 11 da Carta aos Hebreus, o autor inicia abordando o conceito de fé: fé é certeza e garantia. Certeza das coisas que não se veem e garantia dessas mesmas coisas. Fé e esperança equivalem-se. Adiante, afirma o autor, "sem a fé é impossível agradar a Deus, pois, é necessário crer que ele exista e que recompensa a cada um que o procura" (cf. Hb 11,6). Como o fundamento da falsa "caridade" se assenta no voluntarismo moral do sujeito e não em Deus transcendente ou em sua lei, resta que quem age assim atesta que não crê em Deus ou que não quer precisar de Deus para ser "caridoso", como se isso fosse realmente possível. Assim, sua ação pretensamente caritativa não logra o êxito de agradar a Deus nem, tampouco, de ganhar os méritos necessários para a sua salvação uma vez que - conforme nos ensina a Igreja - "ninguém será salvo se, sabendo que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, todavia não aceita submeter-se à Igreja ou recusa obediência ao Romano Pontífice, vigário de Cristo na terra. (...) Ora, o Salvador não apenas ordenou que todas as nações entrassem na Igreja, mas ainda decidiu que a Igreja seria o meio de salvação sem o qual ninguém pode entrar no reino celeste." (Declaração Dominus Iesus n. 14). Ter fé em Deus e estar em sua Igreja são duas coisas que equivalem-se, como é equivalente fazer caridade e ter fé católica. Ainda que reste dúvida sobre os méritos das boas ações, nunca é demais lembrar o princípio católico: "a fé sem obras é morta" (cf. Tg 2,14) e "pela graça [divina] e pela fé [em Deus Trindade] estais salvos" (cf. Ef 2,8). Portanto, sem fé católica as obras são igualmente mortas.

Por último mas, não menos importante, convém considerar o objeto da fé. Em quem ou em quê se deve crer verdadeiramente para que a caridade que se faz ao irmão não seja uma falsa "caridade" ou mera expressão de empatia humana, mas, expressão mesma da fé em Deus e do amor divino e seja, por isso mesmo, caridade? Dizer que se deve crer em Deus é absolutamente redundante neste caso. Gostaria de esmiuçar um pouco em que Deus nós devemos crer.

Não devemos crer em um Jesus que fora tão simplesmente um homem de grande envergadura moral, que fizera o bem a todos e ensinara aos homens o caminho do bem e da caridade porque, assim afirmam os espíritas, tal Jesus fora um espírito de luz mandado à terra para ensinar aos homens o caminho do aperfeiçoamento do espírito com a finalidade de terminar as sucessivas reencarnações impostas - dizem eles - por Deus aos homens a fim de que desse modo cada um expie sua culpa de vidas passadas pela via das reencarnações. Tal Jesus, ainda que bondoso, amoroso, caridoso, é incapaz de qualquer gesto salvífico porque não é Deus. O espiritismo nega a divindade de Jesus. Para ser mais explícito: nega sua consubstancialidade com o Pai. Ele e o Pai não são da mesma substância divina, a despeito do que o próprio Jesus afirma no Evangelho de São João, mas, Jesus seria apenas um homem bom e reto, um espírito superior de luz e nada mais. Este Jesus do espiritismo não redime nenhuma pessoa porque sua morte de cruz é ineficaz e não produz salvação a ninguém. Este Jesus não é digno de fé porque não Revela o Pai e seu amor misericordioso capaz de perdoar o pecador que se arrepende e dar-lhe de imediato o céu (cf. Lc 23,43). Este Jesus não é o mediador da Nova Aliança realizada no seu sangue derramado na cruz (cf. 1Tm 2,5; Hb 12,24; Rm 3,25) e, portanto, não é Deus com o Pai e o Espírito Santo. Assim sendo, sua inócua morte não trouxe salvação a nenhuma pessoa e serviu apenas como exemplo e nada mais. Este Jesus do espiritismo que não é Deus não pode ser fundamento para o ágape (cf. Jo 13,1), para o amor, para a caridade. Portanto, o que os espíritas fazem "em nome de Deus" sob o título de caridade é falsa "caridade" porque se assenta no agir humano do puro dever e não em Deus. A verdadeira caridade é o que Paulo listo no trecho de sua carta aos Coríntios, inspirado no Mestre da Caridade, Jesus! A caridade é amar a todos, inclusive os inimigos, como o próprio Deus nos ama a todos: "Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus, pois que Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tereis?" (cf. Mt 5, 44-46).

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Procissão da bíblia" e "dança litúrgica". O que fazer?

 Segue uma boa catequese litúrgica sobre este tema retirada do site http://fabianomartatobias.com.br/procissao-da-biblia-e-danca-liturgica-o-que-fazer/

Imagem proveniente do site: www.regiaolapa.org.br
 A prática da entrada ou procissão da Bíblia, logo antes da primeira leitura, muitas vezes acompanhada de dança, vem sendo tolerada há muito tempo. Fato é que esse “rito” não existe oficialmente, isto é, nos livros e normas litúrgicas. O motivo pelo qual ainda não foi permitida oficialmente, apesar da intensa prática, é que não tem nenhum sentido litúrgico-teológico e ainda perturba o andamento da celebração.

1. Na liturgia, Cristo está presente na “palavra proferida”, não no livro: “Ele está presente em sua palavra visto que é ele próprio quem fala quando as Escrituras são lidas na Igreja”. Esta presença é sinalizada pelo ambão e pela beleza dos livros litúrgicos, isto é, o lecionário e o evangeliário. Em virtude deste sinal, o livro venerado deve ser o que vai ser lido. O livro das leituras ou a Bíblia não é Palavra de Deus se serve apenas como enfeite.

2. Após a Oração do dia ou coleta, os fiéis imediatamente se sentam e fazem silêncio para ouvir a Palavra de Deus. É a prática de séculos. Quando se introduz um rito não previsto neste momento, gera-se um desconforto na assembleia, quebra-se o ritmo. É um “ruído litúrgico”. O que é previsto é a entrada do evangeliário na procissão de entrada, levado pelo diácono ou, na falta deste, um leitor. É colocado no centro do altar, voltado para o povo, e é levado novamente em procissão na hora do Evangelho, por aquele que proclama. Na falta do evangeliário, entra o lecionário que vai direto ao ambão.

A CNBB, num tópico das “Orientações para a celebração da Palavra de Deus” de 1994, diz: “Convém que as comunidades, conforme as circunstâncias específicas, encontrem, dentro da variedade de gestos possíveis, ritos que permitem valorizar e realçar o Livro da Palavra (Bíblia, Lecionário) e a sua proclamação solene. O Livro, sinal da Palavra de Deus, é trazido em procissão, colocado na Mesa da Palavra, aclamado antes e depois da leitura e venerado. Não é recomendável que o leitor proclame a Palavra usando o folheto” (n. 70). Note-se que não se diz o momento adequado, nem que esta sugestão seja aplicável à Missa. Tinha em vista corrigir o abuso que é “folheto”, correndo o risco de gerar outros (o que, de fato, ocorreu). Pelo zelo e pela obrigação, opte-se pelas normas do Missal Romano, sinal da unidade litúrgica católica.

Sobre a dança, Cardeal Ratzinger escrevera: “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnósticos-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia (…) As danças cultuais das diversas religiões são orientadas de maneiras variadas – invocação, magia analógica, êxtase místico; porém, nenhuma dessas formas corresponde à orientação interior a Liturgia do “sacrifício da Palavra”. É totalmente absurdo – na tentativa de tornar a Liturgia “mais atraente” recorrer a espetáculos de pantomimas de dança” (Introdução ao Espírito da Liturgia, pg. 146). É permitida, assim como as palmas, somente nas culturas onde faz parte do acompanhamento natural do canto, que não é o nosso caso.

Quem incentiva essas práticas (normalmente “equipes de liturgia” que compreendem mal o sentido de criatividade) deveria se colocar antes no lugar da assembleia.

Procissão liturgicamente correta: Procissão do Evangeliário

Em toda missa, o sacerdote se desloca de sua sédia até o altar, onde se curva ao altar e reza a oração de preparação em voz baixa, então segue até o ambão, onde lê o Evangelho, o que já configura uma pequena procissão, mas existe um rito processional mais rico que se faz quando existe a presença do diácono ou, ao menos, quando se tem o Evangeliário.

Se dirigem para a sédia os acólitos com o incenso e as velas e o diácono. O turiferário e o naviculário se ajoelham à frente da sédia, o sacerdote coloca três colheres de incenso no turibulo e o benze. O diácono se aproxima, faz reverencia, se curva e pede a bênção; o celebrate abençoa traçando a cruz, então o diácono se levanta volta a fazer inclinação de corpo. Então, seguem ao altar, onde o diacono toma o livro dos evangelhos e se dirigem ao ambão.

Aqueles que levam as velas colocam-se de um e de outro lado do ambão, aqueles que portam turíbulo e naveta ficam do lado direito do ambão. O diácono então faz a incensação e a leitura conforme o rito próprio.
 
  

Ao fim da leitura, o próprio diácono beija o livro ou leva para o celebrante beijar; ou ainda, beijando-o ou não, leva-o para o celebrante, se for bispo, dar a bênção com o Evangeliário. Nos dois últimos casos, faz-se ao fim da proclamação do evangelho uma pequena procissão, pelo caminho mais curto até a sédia. Lá chegando os acólitos com o incenso e as velas seguem em direção à sacristia, o acólito entrega o evangeliário ao celebrante, aberto se ele for beijar ou fechado se for apenas dar a bênção. Depois do ósculo e/ou da bênção, o diácono sozinho leva o livro a um local conveniente.