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terça-feira, 31 de maio de 2016

Viviane Mosé e a demolição da razão Ocidental

Santo Agostinho de Hipona e Santo Tomás de Aquino

Tenho tanta preguiça de escrever sobre a demolição da ratio ocidentalis (razão do ocidente: sua cultura cristã, sua moral e seus costumes) que, quando ouço uma pessoa razoavelmente bem informada acatar todo o discurso demolidor e reproduzi-lo, já penso: "lá vamos nós outra vez"!

Trata-se de um áudio de Viviane Mosé que ouvi hoje no site da CBN (aqui) fazendo uma análise a respeito das circunstâncias do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro. Gostaria de salientar aqui alguns problemas na sua análise. Tomei algumas notas de sua fala e vou colocando aqui mais ou menos na ordem em que elas aparecem. Seu epíteto é: "Estupro coletivo é um retorno à primitividade que não imaginávamos que fosse ocorrer a essa altura da civilização" (Viviane Mosé). Mas, cara Viviane: defecar na rua em cima de foto de seu desafeto político também é retorno à barbárie; fazer um círculo de pessoas andando de 4, nuas, para cada um pôr o dedo no ânus do outro também é primitivismo; mulheres seminuas transando na rua e fazendo protesto em frente a Universidade Federal jogando urina e restos de menstruação nas paredes também é; show de funk com Mc`s e Dj`s protagonizando cenas de sexo, ou que a isso induzem, no palco também o é; andar na rua nus também o é; introduzir imagens sacras no ânus também o é; urinar sobre símbolos sagrados também o é, colocar alargador de orelha também o é, marcar todo o corpo com tatoos também o é, as raves com seus comprimidos de ecstasy também o são, as drogas todas também o são. O que diferencia a civilização da barbárie não é exatamente sua ratio (razão, raiz)? No caso do Ocidente o que deu forma à civilização foi a cultura cristã: a arte cristã, a arquitetura cristã, a música cristã,os textos cristãos, os pregadores cristãos, as penitências cristãs, a moral cristã, o respeito ao outro que deriva como consequência da doutrina cristã, o amor ao próximo que é exigência do próprio fundador do cristianismo, a razão levada a sério. A exigência e uso da razão face ao fideísmo, ao primitivismo, ao animismo e ao paganismo foi essencial para dizer ao homem aquilo que é bíblico: estás acima de toda a criação e a ela deves comandar. Tu lhe é superior! Não és dirigido por teus instintos ou apetites inferiores, mas, por aquilo que lhe é único e que te diferencia de todo o resto: a tua razão, imagem e semelhança do Altíssimo que te criou. Quem fez isso foi a ratio cristiana, toda ela. Portanto, o que impede o avanço do primitivismo é a ratio cristiana. Com o eclipse da razão notado em nosso tempo, eclipsa-se também o homem. Com o eclipse da ratio cristiana o homem torna-se irreconhecível a si mesmo. Noto ainda que não apenas deve chocar o primitivismo do estupro coletivo, mas, todos os outros que citei acima.

Depois, posso dividir a fala de Viviane em duas partes. A primeira na qual ela ressalta o gritante contraste entre o avanço tecnológico e cultural que a modernidade e pós modernidade conquistaram com o ato bárbaro do estupro coletivo e a segunda na qual aborda a falta de limite e respeito ao corpo e à sexualidade do outro. Pois bem vamos à primeira parte, quase a premissa de sua fala. Avanço tecnológico e cultural sem cultivo das operações mais elevadas do espírito humano cria tecnóides e bobocas deslumbrados com um borrão verde musgo numa tela branca e nada mais. Portanto, tais coisas são incapazes de conter o estado de barbárie no qual nos encontramos. Cita Viviane - em outro momento de sua fala - o igualmente alarmante uso das novas mídias e tecnologias pela juventude e mundo adulto no fator de busca de prazer sexual como escape e fator determinante para dificultar a ver e compreender o mundo real fora da virtualidade, como outra causa desencadeadora da desestruturação social e promotora da barbárie. Eu quase poderia dizer que seu espanto não é nada filosófico, mas, ingênuo. O que impede o homem dotado de razão de cometer um crime é sua consciência do bem e do mal, do certo e do errado. Quando falha esta consciência, a linha que delimita e define as ações e as seleciona torna-se quase nula. Para o homem superior - diria aqui para o homem cristão - o crime não é crime apenas por estar tipificado no código de leis, mas, porque atenta contra a razão, contra a moral, contra a ética, contra o outro, contra Deus e contra si mesmo. Faltando a razão superior, restam apenas os apetites baixos que dominam e rebaixam todo o ser da pessoa. Foi para dominar os instintos que nossa razão foi criada. É a razão quem coloca cada coisa em seu devido lugar: o horário de comer e de dormir, o respeito que se deve ao outro mesmo ao inimigo, como agir em relação à matéria da sexualidade, etc. Quando falta a razão falta o controle, a canalização da força, da agressividade e da libido. Mais: quando falta ao homem o que motiva o uso da razão para conter estes impulsos vitais, falta-lhe todo o freio que pode conter sua agressividade, força e libido o homem transforma-se, novamente, em um exemplar do primitivismo. Em dado momento de sua fala, Viviane toca de relance neste problema, mas, de modo escapista dando a entender que tocar neste assunto com fundo moral  se tornou um tabu muito incômodo.

Vou agora falar da segunda parte aquela na qual Viviane Mosé fala da falta de limite e respeito ao corpo e à sexualidade do outro. Nesta parte resta presente e evidente o discurso de demolição da ratio ocidentalis (razão do ocidente: sua cultura cristã, sua moral e seus costumes). Fala-se do corpo como se este fosse uma realidade estanque à pessoa e não é. Não há respeito apenas ao basar, cadáver. Porém, respeita-se-lhe sua dignidade em virtude de que a pessoa toda é objeto de respeito. Não podemos retroceder a um dualismo platônico, só que às avessas. O corpo da pessoa não se dissocia de seu espírito, de sua alma. Aliás, seu corpo está submetido a um logos superior, a uma razão superior, e por isso é igualmente respeitado. É exatamente este logos que diz a uma pessoa para respeitar o outro na sua integridade. Sem a razão superior torna-se impossível chegar à compreensão de que o outro é objeto de respeito. Este logos é constituído por tudo o que citei anteriormente: a própria capacidade racional, intelectiva do sujeito. Ainda adiciono a esta lista que nos dá uma ideia do que seja o logos, a razão superior, o que escrevi acima: a arte cristã, a arquitetura cristã, a música cristã,os textos cristãos, os pregadores cristãos, as penitências cristãs, a moral cristã, o respeito ao outro que deriva como consequência da doutrina cristã, o amor ao próximo que é exigência do próprio fundador do cristianismo. Tudo isto é a razão levada a sério. No entanto, quando Viviane afirma a necessidade de respeito "ao corpo" do outro, faz eco ao pensamento corrente de demolir toda a abordagem racional sobre o homem, desconstruir este discurso, para pôr no lugar justamente a barbárie da irracionalidade que citei com inúmeros exemplos no primeiro parágrafo. Portanto, o escândalo de Viviane é tão somente pró-forma, bom mocismo, choque politicamente correto, choque de notícia espetacular, e não demonstra a seriedade que o problema de fato apresenta. Como aludi alhures Viviane cita de relance a raiz do problema o que significa que ela a conhece, mas, não a admite, pois, caso admita precisará desconstruir o próprio discurso demolidor. Aqui é notório perceber o falseamento intelectual desta sua análise, sua desonestidade escancarada.