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quarta-feira, 27 de abril de 2016

A insanidade da cruz ou católicos pagãos


"Não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus" (1Cor 1,17-18).

Muitos católicos tiveram o primeiro impacto da sua conversão num desses encontros de fim de semana tão comuns em nossas Paróquias. Ali a Palavra veio forte, a experiência sensitiva acompanhada de emoção abria a mente para encontrar Deus de maneira mais próxima do que nas missas, por exemplo. Muitos desses neoconvertidos nos movimentos e nos encontros não tinham o hábito de frequentar a santa Missa ou de ter vida de oração diária. A partir deste momento primeiro - que poderíamos comparar com o encontro de Moisés com a sarça ardente no deserto - muitos começam uma vida católica mais amiúdo: muitos pedem os sacramentos da fé, participam mais ativamente da vida da Igreja, se integram em pastorais e serviços, passam a comungar com frequência, etc.

Depois que passa-se este primeiro momento de euforia e certa consciência do ser cristão, do pecado, das obrigações cristãs, etc, a pessoa que teve um grande choque de conversão dá-se conta de sua humana fragilidade e é aí que a vida católica se choca com suas opções e sua mentalidade ainda mundana, pagã e, então, perde força aquela primeira conversão. Imaginemos hipoteticamente uma pessoa que teve uma vida devassa na bebedeira, na pornografia, na jogatina e na sexualidade desregrada - o que não é muito incomum. Logo esta pessoa se deparará com o mandamento "não pecar contra a castidade", por exemplo, se deparará com uma moça que quererá viver o namoro casto, terá amigos que não bebem, entre outras coisas, pois estará fazendo parte de outro círculo de relações. O que fazer diante deste quadro? Em geral, a pessoa pensa poder viver uma vida agradando a Deus, mas, vivendo os hábitos pagãos e mundanos antigos: quer continuar tendo vida sexual ativa e degenerando-se em vícios de todo tipo. A experiência a seguir é começar a mitigar a exigência de mudança de vida e conversão legitimando os próprios erros com as seguintes frases: "não é bem assim que devem ser feitas as coisas"; "não se pode ser duro demais na exigência"; "tem que dar um tempo para cada um se converter de verdade sem forçar a barra"; "Deus é bom e conhece os nossos limites, por isso não nos condenaria". Em geral este discurso carregado de ambiguidades sobre Deus e sobre o homem, quer mitigar as exigências de um caminho de conversão verdadeiro e sincero.

Não é possível tomar por concluída a conversão dada naquele encontrinho de fim de semana que fez todos chorarem. A conversão verdadeiramente católica é aquela que toma a sério aquela advertência de São Paulo que encima este texto: a cruz é verdadeiramente loucura para o mundo. Noutras palavras, a conversão é inimizade com o mundo como diz Jesus no seu discurso antitético de João 15, 18: "se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim" e continua: "minha escolha vos separou do mundo" (v.19). Entre o cristão e o mundo não há amizade, mas, inimizade. Não há colaboração, mas, dominação e separação por meio da razão e da fé. Este é o escândalo da cruz: dar prosseguimento à vida de conversão para que a cruz de Cristo - o seu sacrifício redentor por muitos - não se torne vão.

Viver deste modo é amar o Senhor Jesus com todo o amor que se possa ter. Tal amor é: conhecimento de Deus, abnegação voluntária, auto sacrifício, negação de si mesmo, domínio dos impulsos, conversão da mentalidade (cf. Rm 12,2). Por isso o cristão é sempre visto como "louco" aos olhos do mundo. Uma loucura, talvez, equivalente àquilo que Jesus disse: "Desde João Batista até agora o reino dos céus sofre violência e violentos se apoderam dele" (Mt 11,12) e isto pode ser legitimamente interpretado assim: os violentos são os que conseguem entrar no reino dos céus à custa das mais duras renúncias. Quem, no entanto, é capaz de renunciar assim a si mesmo senão os que amam Deus loucamente? Os que querem dar sua vida por Deus? Os que não pensam em guardar nada de sua vida mundana e pagã para si, mas, que desejam desapegar-se dela para viver em Deus porque só Deus vale a pena, só Ele é o verdadeiro tesouro, a verdadeira alegria? Somente este gau de "loucura" ou de amor é capaz de gerar uma energia vital forte o suficiente para convencer o coração a prosseguir o difícil caminho da virtude e da conversão até à vida eterna que às vezes se torna monótono caminho de luta árdua contra as próprias más inclinações.

A Igreja está cheia de neoconvertidos com mentalidade pagã que pensam que já está tudo bem, estão convertidos, estão prontos, porque já fizeram "o encontro", "o retiro", "a jornada", etc. Nada mais falso! "Não resistiria aos embates do tempo uma fé católica reduzida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados. Nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”. (Documento de Aparecida, nº 12)

Aconselho ler meu outro artigo: "O católico médio perdido entre o relativismo moral e a má fé" para aprofundar o tema. Aqui.

sábado, 23 de abril de 2016

O homem, o sacerdócio e o matrimônio.


As noivas se vestem de branco, como a Igreja.
As noivas se vestem de renda, como a Igreja.
As noivas se enfeitam, como a Igreja.
As noivas ficam lindas no dia de seu casamento e arrancam suspiros de seu noivo, como a Igreja.
O noivo é um homem sortudo. Tem diante de si a mais linda das mulheres da face da terra. A mais amada. A mais desejada. Ao olhá-la avançar pelo corredor da Igreja um pensamento lhe passa de relance: "és minha, toda minha, a minha amada". Chesterton dissera: "Ser fiel a uma única mulher é um preço pequeno demais se comparado a grandiosidade de ter uma mulher''. Certamente é o que se passa na cabeça daquele noivo ao pé do altar esperando ansiosamente sua noiva que, em breve, se tornará sua mulher. Ao final da cerimônia, um beijo sela a união para sempre. Ao início da ação litúrgica um beijo marca também o indelével sinal, o indelével vínculo esponsal do sacerdote com o seu Senhor.

Assim como os noivos caminham para o altar para celebrar a sua união em Deus, também o sacerdote se dirige para o altar para consumar-se. Um só é o homem que se dá, que se entrega, que se doa inteiro. No matrimônio e no sacerdócio o homem há que ser viril e ter coração indiviso. Não haverá de amar mais nada e ninguém mais que sua esposa ou que a Igreja. O homem que se dá inteiro no sacerdócio e no matrimônio há que ser fiel, protetor da casa e da família, das ovelhas e do rebanho do Senhor. Haverá que amar o seu Senhor e Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento. À diferença do homem casado, o sacerdote amará assim a Deus e o casado amará assim sua esposa e sua família.

O sacerdote que sobe ao altar para celebrar o sacrifício primeiro lhe venera com uma solene vênia, como o esposo venera sua esposa beijando-lhe as mãos. Depois o beija. Ali se dá a entrega de um homem, o holocausto de uma vida. Aquele beijo ao altar é o beijo da fidelidade e do amor, da esponsalidade e do sacrifício. Ao beijar o altar o sacerdote diz em seu coração: "Eu sou do meu amado e meu amado é meu" (Ct 6,3), sou todo Dele, para Ele, pela salvação dos homens. O dobrar-se sobre o altar para beijá-lo significa a auto imolação de um homem que - configurado a Cristo Sumo e Eterno Sacerdote - é Cabeça da Igreja, vítima do holocausto, sacrifício pela salvação do mundo. Do mesmo modo que nosso Senhor beijou o madeiro que traria a salvação dos homens, o sacerdote oscula o altar onde ele mesmo se sacrifica pela salvação da humanidade.  O Corpo que se consagra por entre seus dedos é o de Cristo e o seu; o sangue que se derrama em favor de muitos é o de Cristo e o seu.

Como não admirar tamanha capacidade nos homens de amar além de si mesmos? Ambas as vocações são grandes e nobres. Um homem que não saiba amar não pode ser esposo, pai, nem sacerdote. Que todos os esposos beijem suas esposas com a reverência de um sacerdote. Que todo sacerdote ame seu sacerdócio com um amor esponsal.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Crianças mal-criadas na missa


As coisas mudam tanto né. No meu tempo de criança comida era pra ser comida. Hoje comida tem que ser primeiro, divertida, colorida. A gente comia porque era preciso e a mãe mandava. Hoje, as criancas precisam ser convencidas a comer. Acho isso o maior dos absurdos! Quando uma criança saberá o que é melhor para si?! Paulo Freire desgraçou a criação das crianças! No meu tempo de criança a Igreja era lugar para se rezar, ficar calado e sentado. Hoje virou parquinho, lanchonete e o play ground onde a criança corre, pula, grita, faz lanchinho... No meu tempo de criança a gente crescia sabendo o que significa a palavra "respeito". Geralmente ela vinha acompanhada de alguma sanção da parte do pai ou da mãe: "se você não respeitar a missa, o padre, a casa da vó, da tia... vai levar um beliscão". E como doía aqueles beliscões da minha mãe nas costelas durante a missa quando eu brigava com minha irmã no banco da Igreja?! Sair para beber água?! Nem pensar! Era desrespeito! Hoje não se pode corrigir uma criança peralta porque a psicologia desgraçou o crescimento natural do ser humano com a "não repressão". É proibido proibir. É proibido dar regras, limites, impor sanções, dizer não. Quando uma criança saberá que este comportamento não é correto dentro da Igreja se os pais não lhes ensinam, não lhes impõem sanção, não coíbem este tipo de atitude?! Querem dialogar e propor comportamento para uma criança de 3, 4, anos quando elas não possuem capacidade cognitiva para negociar nada! Isto sim, é um abuso com as crianças. As crianças crescem como pequenos tiranetes. Entre 3 e 4 anos fazem o que querem e os pais aplaudem, os avós babam e acham lindo. Depois que crescem viram esses adolescentes, jovens e adultos mimados que nunca souberam compreender o que significa respeitar o próximo, os mais velhos, a autoridade... Não sabem respeitar as leis, a norma, a regra. Acham que a vida é um eterno parquinho. Até as empresas estão se rendendo a esta regressão! Tudo agora tem que ser divertido, colorido, legal... Desde o local de trabalho até a santa Missa! Já vi fotos de missas nas quais o padre se revestiu de palhaço! Santo Deus! Isto é para atrair a criança, dizem. Santo Deus! Que coisa medonha! Evidentemente que não são todas as crianças assim. Algumas são educadas. Como eu gostaria de celebrar uma missa sem uma criança berrando no meu ouvido a missa inteira! Ah como eu gostaria de celebrar uma missa sem ver aquela criança correndo, fazendo graça pro pai ou pra mãe, brincando com outra criança e todo mundo distraído olhando-a e esquecendo-se mesmo da Missa! Ah como eu gostaria de ter paz para fazer a pregação sem uma criança berrando perto da porta o tempo todo com uma mãe ou um pai tão distraídos que nem se tocam de ir dar uma voltinha com a criança lá fora para ela se acalmar! Ah, como eu gostaria de ver crianças educadas na missa. Não as proibais, disse o Senhor. Mas, Ele não mandou: "não as corrijais". Corrijam deus filhos para que eles deem paz o Padre na celebração da missa. Isso é caridade! Neste nosso Brasil, imagine o sacerdote que celebra 3, 4, 5 ou até mais missas no domingo! Isto é de um cansaço extremo e, no entanto, o padre a tudo suporta por amor. Amem seu sacerdote. Eduquem seus filhos por caridade! Por caridade! Imagine se o padre disse: "menino, cale a boca". A família sairia zangada da Igreja e nunca mais retornaria "porque o padre é um grosso". E o padre? Tem que aguentar criança mal criada?!