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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Respondendo oito perguntas sobre a questão do aborto


Recebi no Facebook oito perguntas sobre a questão do aborto e as respondi. Coloco-as aqui e compartilho para que possam ajudar a quem precisa.

1- Por que mulheres engravidam mesmo com tantos métodos contraceptivos disponíveis (tanto no SUS quanto nas redes particulares)?
Porque engravidar é algo para o qual estão predispostas as mulheres em idade fértil. Porque engravidar é algo natural. Porque engravidar é inerente à natureza feminina. Engravidar não é doença. Engravidar não é anti-natural. Engravidar não é algo horrendo. Por fim, engravidar é uma decisão que se deve tomar quando há maturidade para assumir as consequências de educar e criar um filho. É uma decisão, portanto, para pessoas maduras e responsáveis.

 2- O que fazer para ajudar estas mulheres que, usando ou não os métodos contraceptivos, acabam engravidando e não se sentem seguras para assumir a responsabilidade que a maternidade traz? 
Vi certa vez uma mãe, dentro de um ônibus, bater em sua filha por que lhe pediu a chupeta. Vi o motorista do ônibus ser mais mãe que ela própria. A questão em foco não é ela estar ou não preparada para ser mãe. A questão é ter honestidade suficiente e retidão moral suficiente para arcar com as consequências de ser mãe e de ser pai. Para isso exige-se maturidade e capacidade de renúncia e abnegação que esta geração não tem. No mais, quando falta de todo a capacidade de assumir a gestação e o filho, a mulher precisa ser acompanhada espiritual e psicologicamente. Abortar não é solução para os conflitos psicológicos da mãe.

3- Em que condições esta mulher terá este filho? Este filho terá um pai/família que esteja presente em sua vida? Terá condições mínimas de moradia, alimentação, educação para que possa se desenvolver com qualidade de vida?
As condições para se ter um filho são: homem e mulher devem estar casados em santo matrimônio diante de Deus para assumir todos os deveres que lhe impõem a vida conjugal, incluindo aí os filhos. As demais coisas são consequências da assumpção desta responsabilidade. Quando se exclui do horizonte pessoal o compromisso do matrimônio, então desestabiliza-se a capacidade pessoal de assumir os demais compromissos que advém da maternidade ou paternidade. Ter filho não é direito de ninguém. Antes, é um grave dever dos que se comprometem no sacramento do matrimônio. Se não quer ter filho não se case. Solteiros não devem ter filhos, pois, não tem estrutura familiar que comporte a criação e educação de uma criança.

4- Por qual motivo uma criança deve nascer se não terá suas necessidades básicas atendidas?
Pelos mesmos motivos que nossos pais nos conceberam e nos acolheram tendo que trabalhar diuturnamente para nos dar comida, remédio, escola, roupa e calçado. A dignidade da vida humana não se assenta na capacidade material dos pais. A dignidade da vida humana estabelece-se por que o homem é imagem e semelhança de seu criador. Ninguém é obrigado a casar-se e, portanto, a ter um filho. No entanto, desde o momento em que se casa a paternidade e maternidade são inerentes ao matrimônio. Quando uma mulher solteira fica grávida não lhe é lícito abortar por não ter um esposo que lhe garanta as necessidades básicas. Deveria, antes, ter atentado para a necessidade de viver a castidade, resguardar-se, para não cair no perigo da gravidez indesejada. O prazer sexual não está dissociado de sua consequência que é a gravidez. Por esse motivo se a pessoa não quer a consequência não deve lançar-se a produzir as causas. O aborto não é solução para a falta de regra na vida das pessoas que, desregradamente, vivem uma vida sexual ativa.

5- O Estado é laico, preceitos religiosos não deveriam interferir nesta discussão, mas já que interferem, comecemos por: "o que é moral"? E o que é ética? Sobre quais pontos de vista estamos analisando a situação, sendo que a ética e a moral variam de acordo com a sociedade na qual estamos inseridos?
O Estado é laico, não ateu. Os preceitos religiosos devem ser levados em conta nesta discussão por que o Estado não legisla para um povo etéreo, que viva fora da órbita da vida humana. Ele legisla para o seu povo que, no caso do povo brasileiro, é majoritariamente cristão e contrário ao aborto. A pergunta sobre o que é moral vai receber duas respostas, uma resposta ateia e uma resposta cristã. A resposta ateia dirá - como Kant propôs - que a moral é a ética do puro dever pelo dever: "aja de tal forma que teu agir se transforme em um agir universal", ou seja, o agir sem nenhuma fundamentação metafísica ou sobrenatural. Já a moral materialista/pragmatista, também ateia, dirá que não se deve agir apenas pelo sentido do dever moral, mas, sobretudo por aquilo que é mais agradável ao indivíduo, que mais lhe apetece e lhe seja conforme à sua necessidade. Na resposta kantiana da ética do puro dever podemos afirmar que abortar é ético a tal ponto de se tornar um agir universal? No entanto, na resposta da ética pragmática podemos com certeza afirmar que abortar é uma ação que satisfaz o indivíduo em sua necessidade. Na resposta materialista exclui-se qualquer menção metafísica à questão moral e reduz-se o indivíduo a mero aglomerado de células jogado no caos indeterminado do destino cego. Nenhuma destas respostas satisfazem plenamente a pergunta: O que é moral? O que é ética? no tocante ao assunto do aborto. Moral é aquilo que é Bom. Moral é o Bem, mas, não o bem pragmático, pois, o bem pragmático causa o confronto de desejos e necessidades individuais, assim: um tem necessidade de pernas e outro tem necessidade de cortar pernas. Como equacionar os desejos e necessidades pessoais no tecido social? Para ambos isto é um bem. Nem no sentido materialista, por que a bondade que há no ser humano não se explica tão somente pela materialidade do seu ser, mas, encontra raiz e fundamento fora da própria pessoa. Tampouco a ética do puro dever, ainda que mais elevada que as duas primeiras, responde satisfatoriamente ao Bem que se deve procurar realizar para que a ação moral seja, de fato, ética. O Bem pretendido, no caso do aborto, é a satisfação da necessidade e do desejo da mãe ou do pai alcançado por um mal causado ao feto que é morto para satisfazer esta necessidade. Tal coisa não pode ser chamada de Bem, portanto, o aborto não é ético nem moral. Inversamente proporcional poderíamos dar o seguinte exemplo: Para um filho que odeia a mãe, assassiná-la é um bem moral a ser perseguido. Ao assassinar a mãe e alcançar o seu intento, o filho pensa ter realizado um bem. No entanto, isto não pode ser chamado de Bem, pois, a finalidade, o objeto da sua ação é mau em si mesmo, qual seja: a morte de outrem para alcançar satisfação dos desejos e necessidades pessoais. A única espécie de Bem que pode ser considerada moral e ética é o Bem que tem fundamento no próprio Deus e dele deriva suas consequências. Tal Bem é adequado ao homem que possui capacidade de compreendê-lo, assimilá-lo e praticá-lo como veremos mais adiante.

Vou colocar aqui um trecho da Carta Encíclica "Veritatis Splendor" (nro 8-10) de São João Paulo II que explica o que é o Bem Moral:

Do fundo do coração surge a pergunta que o jovem rico dirige a Jesus de Nazaré, uma pergunta essencial e irresistível na vida de cada homem: refere-se, de facto, ao bem moral a praticar e à vida eterna. O interlocutor de Jesus intui que existe um nexo entre o bem moral e a plena realização do próprio destino. Trata-se de um piedoso israelita que cresceu, por assim dizer, à sombra da Lei do Senhor. Podemos imaginar que, se faz esta pergunta a Jesus, não é por ignorar a resposta contida na Lei. É mais provável que o fascínio da pessoa de Jesus tenha feito surgir nele novas interrogações acerca do bem moral. Sente a exigência de se confrontar com Aquele que tinha começado a sua pregação com este novo e decisivo anúncio: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto: convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15).

Impõe-se que o homem de hoje se volte novamente para Cristo, a fim de obter d'Ele a resposta sobre o que é bem e o que é mal. Ele é o Mestre, o Ressuscitado que possui em Si a vida e que sempre está presente na sua Igreja e no mundo. É Ele que desvenda aos fiéis o livro das Escrituras e, revelando plenamente a vontade do Pai, ensina a verdade sobre o agir moral. Cristo, fonte e vértice da economia da salvação, Alfa e Ómega da história humana (cf. Ap 1, 8; 21, 6; 22, 13), revela a condição do homem e a sua vocação integral. Por isso, «o homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Deve, por assim dizer, entrar n'Ele com tudo o que é em si mesmo, deve "apropriar-se" e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio».

Jesus diz [ao jovem rico]: «Por que me interrogas sobre o que é bom? Um só é bom. Mas se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos» (Mt 19, 17). Na versão dos evangelistas Marcos e Lucas, a pergunta aparece assim formulada: «Por que Me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus» (Mc 10, 18; cf. Lc 18, 19).

Antes de responder à pergunta, Jesus quer que o jovem se esclareça a si próprio sobre o motivo por que O interroga. O «bom Mestre» indica ao seu interlocutor — e a todos nós — que a resposta à questão «que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?», apenas pode ser encontrada dirigindo a mente e o coração para Aquele que «só é bom»: «Ninguém é bom, senão só Deus» (Mc 10, 18; cf. Lc 18, 19). Só Deus pode responder à questão sobre o bem, porque Ele é o Bem.

Interrogar-se sobre o bem, com efeito, significa dirigir-se em última análise a Deus, plenitude da bondade. Jesus mostra que a pergunta do jovem é, na verdade, uma pergunta religiosa, e que a bondade que atrai e simultaneamente vincula o homem, tem a sua fonte em Deus, mais, é o próprio Deus, o único que é digno de ser amado «com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente» (Mt 22, 37), Aquele que é a fonte da felicidade do homem. Jesus reconduz a questão da acção moralmente boa às suas raízes religiosas, ao reconhecimento de Deus, única bondade, plenitude da vida, termo último do agir humano, felicidade perfeita.

A vida moral apresenta-se como a resposta devida às iniciativas gratuitas que o amor de Deus multiplica em favor do homem. É uma resposta de amor, segundo o enunciado que o Deuteronômio faz do mandamento fundamental: «Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho serão gravados no teu coração. Ensiná-los-ás aos teus filhos» (Dt 6, 4-7). Assim a vida moral, implicada na gratuidade do amor de Deus, é chamada a reflectir a Sua glória: «Para quem ama a Deus, basta-lhe agradar Àquele que ama, uma vez que não se deve procurar qualquer outra recompensa maior do que o próprio amor; a caridade, de facto, provém de Deus de modo tal que o próprio Deus é caridade».

6- Partindo do pressuposto religioso do livre arbítrio, pode Deus condenar alguém por abortar, sendo que este mesmo Deus permite que eu decida qual o melhor caminho que eu devo seguir? 
Aqui há um erro de princípio. O melhor caminho que eu devo seguir não é aquele que arbitra a minha vontade que pode se equivocar muitas vezes, mas, aquele que me mostra a minha razão e a minha consciência. Sim. Deus pode condenar alguém por abortar, pois, a liberdade dada ao ser humano não é absoluta, pois, o ser humano é racionalmente capaz de compreender a lei natural que lhe diz o que se deve evitar e o que se pode fazer. Este discernimento é feito pela luz natural da razão. Não se pode afirmar que todos os seres humanos são incapazes de compreender as leis dadas pelo Criador ou que estas leis lhes sejam absolutamente inacessíveis e incognoscíveis. As leis foram dadas pelo Criador para serem observadas. Assim, nenhuma criatura tem o direito de escolher o mal por conta própria. Eleger o mal é voltar-se contra a própria razão que tem a capacidade de alcançar, compreender e aderir ao Sumo Bem. Portanto, o mesmo Deus que dá a liberdade de escolha ao ser humano dá-lhe as leis que deve obedecer para ser feliz e livre verdadeiramente e a capacidade de reconhecê-las e segui-las. Não impõe ao homem um destino cego ao qual está condenado inexoravelmente, mas, dá-lhe razão dotada de capacidade cognitiva para compreender a extensão de suas próprias escolhas livres caso prescindam da lei dada por Ele. Por isso a condenação de alguém que opta pelo aborto é racionalmente compreensível uma vez que é uma opção anti-racional, contrária ao Bem e anti-natural.

7- Por que a decisão do aborto incomoda tanto se esta é uma decisão pessoal? E por que esta decisão acaba sendo jogada nas costas da mulher, sendo que o homem também participou da concepção?
O aborto incomoda tanto por que é o assassinato de um incapaz por motivo torpe. Esta decisão deve ser iluminada pela razão e pela busca do verdadeiro Bem moral. Caso um dos cônjuges não consiga compreendê-la é preciso ajudá-lo a ver com clarividência as razões de se escolher o Bem moral e rejeitar o Mal. O homem que impõe tal decisão à mulher é um covarde!

8- Que diferença faz o aborto ser legalizado se você não concorda com o mesmo? No que isto realmente afeta a SUA vida?
Para nós cristãos existe uma coisa que os pagãos desconhecem. Um escritor pagão do II século, Luciano de Samósata, escrevera que as duas coisas cristãs que mais impressionava os pagãos eram a caridade e o desprezo da morte. Por que somos obrigados a amar até os inimigos, por que se não amarmos não somos nada, é que nos importamos com vidas que não são as nossas. É por caridade que nos importamos que a alma da mãe e do pai abortista, do médico abortista, da enfermeira abortista e do Ministro abortista do STF vá para o inferno condenada pelo hediondo pecado do aborto; é por caridade que queremos que viva aquele que, indefeso, pode ser morto na barriga de sua mãe; é por caridade que queremos que todos vão para o céu por que lá é muito melhor que o inferno que aguarda os pecadores contumazes. Simplesmente por caridade ardente por aqueles que não nasceram e por aqueles que podem se condenar ao inferno que nos importamos com as mães e pais, médicos, enfermeiros, Ministros de Tribunal, moribundos, mendigos, órfãos, mães solteiras, adicctos, doentes de toda ordem e você que lê esta resposta. Por pura e simples caridade.



 

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