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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Homilia da missa de Aniversário de Ordenação



Prostratio. Ordenação Presbiteral em 04/10/2008

 Caro irmão no ministério sacerdotal Padre Emerson, minha família aqui presente, caros irmãos e irmãs. “Toda vocação Sacerdotal é um grande mistério, um dom que supera infinitamente o homem” por que o sacerdote se torna ontologicamente outro Cristo. Na ordenação sacerdotal muda-se o seu ser. O homem adotado por Deus como filho mediante o batismo se torna, mediante a escolha divina, um ministro de Cristo, o continuador de sua obra de salvação sobre esta terra. Consciente de que vivo os dois extremos, sei que por um lado a graça divina me foi dada sem mérito algum de minha parte e é Deus quem realiza tudo. Por outro lado, sei que sou um vaso de barro no qual foi derramada a misericórdia do Senhor. Ainda que o pecado seja como uma rachadura nas paredes desse vaso que muitas vezes faz a graça de Deus escorrer, as palavras de São Paulo ilustram muito como Deus sustenta o nosso sacerdócio: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados”, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações. Por isso, hoje esta santa missa é uma grande ação de graças, um grande louvor a Deus, um grande “obrigado”. Deus não se cansa de perdoar, disse o Papa Francisco, e não se cansa mesmo por que Deus é amor. “Ele não se cansa de perdoar, simplesmente porque Deus não é pelagiano. Ele volta novamente a semear a sua misericórdia e o seu perdão” e é esta experiência diária da sua misericórdia que vai construindo o ministério sacerdotal que exerço há oito anos. “Eu creio”, por isso estou pregando a convicção mais profunda da nossa fé: que há um Deus, que é Trindade-Amor e que nos ama imensamente e que este amor é a salvação dos homens. Fora dele há apenas perdição, sofrimento e suplício. Eu creio, por isso caminho junto dos meus irmãos presbíteros. Eu creio, por isso caminho junto da comunidade que me foi confiada. Eu creio, por isso estou unido ao Bispo. Eu creio, por isso sou sacerdote! Eu creio, mas não creio só! Nós cremos e por isso vivemos a comunhão na fé, no amor a Deus; a unidade de espírito e a missão dada pelo Senhor. Nós, caríssimos, somos um! Tenho aprendido a olhar para Cristo, a estar com Ele, a beber e saciar Nele a fome a sede de eternidade que há em mim. Venho a Ele todos os dias, como um mendigo que estende sua mão pedindo um pedaço de pão como esmola e Ele vem a mim com “palavras de vida eterna” que saciam toda sede e matam toda fome.
A tentação forte do ativismo que eu tenho e todos nós padres temos, de pensar que seremos grandes pelo número grande de coisas que fizermos, aos poucos vai cedendo espaço e vou entendendo que mais importante do que fazer coisas correndo de lá para cá como Marta é estar com Jesus como Maria, aos seus pés ouvindo-o e depois, estar com as pessoas. Um simples abraço e um singelo sorriso podem ser muito mais eficazes do que uma longa e cansativa pregação, por que o amor é muito mais eloquente do que muitas palavras. Estas experiências venho fazendo ao longo do meu sacerdócio. Abandonando aos poucos o desejo de ser grande, de ser importante, para ser simplesmente “sacerdos alter Christus” outro Cristo, um sacerdote. Importante não pelo grande número de coisas que posso fazer – por que não é nisto que reside a grandeza do sacerdócio – mas, pelo muito amor com que faço cada pequena coisa. Neste sentido me inspiro muito em Chiara Lubich e suas palavras me enchem de alegria e esperança quando me lançam para amar a todos indistintamente, para amar cada um, cada próximo, cada pessoa, momento por momento, um a um, de modo que ninguém, absolutamente ninguém, saia da minha presença sem ser amado assim desse modo. É por querer amar assim e querer fazer bem cada coisa por amor a Jesus que o sacerdócio tem sentido para mim.
Celebrar a Eucaristia é exercício desse amor, desse zelo por Jesus presente em cada irmão e também nas espécies consagradas. Rezar não é um fardo, mas a alegria de um encontro diário com o amado da minha alma. Servir não é pesado por que é Jesus que vejo em cada rosto, é Jesus que sirvo em cada pessoa. O celibato é uma renúncia silenciosa também por amor e vou entendendo cada vez mais qual é a espécie desse amor: um amor universal, capaz de abraçar a todos e amar a todos como Jesus o fez, conformando-me a ele a cada dia para dar aos outros não eu, mas, Jesus em mim. Abraço o celibato como dom total de mim mesmo a Deus e aos outros, como forma sublime de viver a vocação ao amor à qual todos são chamados. O dom esponsal do corpo de um homem consagrado a Deus pela promessa de celibato é sinal daquele amor virginal da Igreja para com seu divino esposo, Jesus Crucificado, e sinaliza para os homens e mulheres do nosso tempo que há um amor que supera o tempo, o corpo, os desejos e a natural inclinação do homem para o matrimônio. Ah, como é belo o solene beijo na toalha branca do altar. Inclinado sob o altar do sacrifício o sacerdote o beija todo dia. É Cristo que beija sua esposa vestida da brancura da santidade divina. É o homem-sacerdote que beija o porquê de sua consagração. É a Igreja que beija o seu amado esposo sacrificado por amor. É o ósculo santo que traz a paz ao mundo por causa da imolação do Cordeiro Santo e de cada sacerdote na face da terra.


Desde meu primeiro ano de sacerdócio que peço a Jesus: “faça-me um sacerdote segundo o vosso sagrado coração” e parece que ele tem atendido o meu pedido. Tenho convicção de que o Senhor que me chamou é fiel e que me conhece desde o ventre de minha mãe, por isso eu louvo e dou graças, bendigo e agradeço por sua fidelidade e amor. Por este motivo nada temo nem em mim, nem no mundo, nem nas pessoas ou no próprio tentador, por que sei que assim como Ele é fiel ao chamar, é fiel ao sustentar o chamado.
Assim, digo aos jovens: não tenham medo de entregar suas vidas a Jesus. Não tenham medo de ser padres. A atração do nosso tempo é a do entretenimento, dos jogos, da alegria estridente a toda hora e isto ganha a atenção de vocês jovens. Mas, pode ser que entre vocês existem aqueles que anseiem por algo mais, que não se contentem com essa parcela pequena de entretenimento e alegria passageira e queiram aquela alegria genuína da alma; pode ser que existam jovens que queiram ser generosos, que queiram mais doar a vida do que receber algo em troca, que queiram mais amar que ser amados, mais servir que ser servidos, mais compreender que ser compreendidos. Pode ser que existam jovens que queiram ser eficazes instrumentos de Deus na vida do ser humano para fazer a real diferença no mundo. Ainda acredito que haja jovens capazes de olhar para fora e enxergar que, no mundo, as pessoas andam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor. É para estes jovens que se dirige o convite de Jesus: “Segue-me e eu vos farei pescadores de homens”. Eu os provoco a deixar Jesus interpelar o seu coração, deixar Jesus falar lá dentro da sua alma, a permitir ouvir a voz do Senhor. O sacerdócio é uma belíssima vocação, para mim a mais bela. Sejam capazes, meus caros jovens, de abandonar tudo por causa de Cristo. Sejam capazes de abandonar o mundo com suas alegrias fugazes e, muitas vezes, mentirosas; sejam capazes de abandonar as vaidades dessa vida, as ninharias desta terra por algo grande, maior, sublime e eterno. Permitam ser lápis de Deus nas mãos do Eterno com o qual Ele escreverá alguns traços da sua história de salvação nesse mundo. Sejam capazes de deixar tudo para serem felizes junto a outros irmãos doando a vida pelo reino de Deus. Corram atrás desta felicidade crucificada, deste amor desolado, cuja companhia segura é Maria Santíssima que nunca nos abandona. A ela que me trouxe para esta Paróquia, que intercede por mim e que me tem feito Padre conforme o desígnio de Deus o meu louvor e ação de graças. A vocês que me acompanham nestes 8 anos asseguro minha intercessão. Que o bom Deus nos ajude a todos em nossa caminhada rumo ao céu e que nunca nos falte sua graça e seu amor. PNSJC.

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