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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Transformar a dor em amor. Homilia em 18 de Outubro.


Caríssimos, ouvimos na primeira leitura desta liturgia um pequeno trecho do cântico do Servo do Senhor no Livro de Isaías. Este trecho refere-se a Israel, o filho predileto de Deus entre todas as nações, por quem o Senhor nutre especial predileção. São Mateus em seu evangelho e toda a tradição da Igreja nos ensinaram, porém, que é uma profecia sobre Jesus. É, portanto, justo afirmar: Jesus tomou sobre si a dor de cada homem. O abismo que nos separava de Deus. Quando, no alto do Gólgota, ele gritava: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste”, eram as nossas dilacerações que o fazia gritar. Mais que a dor física, mais que a humilhação e o cansaço, era a separação entre o homem e Deus que o fazia fremir e olhar o céu com olhar vazio procurando, em vão, apoio no Pai. Ele “ofereceu sua vida em expiação” para “derrubar o muro, a inimizade que nos afastava de Deus. A nossa dor era sua. Seu grito e seu abandono eram os nossos. Ele caiu no negro abismo da ausência de Deus e da solidão absoluta para que não morrêssemos esmagados pela consciência de que não amamos a Deus o bastante e ao próximo como deveríamos. A ausência de amor no coração humano matou Jesus e nos mataria também, se ele não tivesse levado em si todas as nossas dores e separações.

No Evangelho, Jesus fala aos seus discípulos do cálice de dor que ele deve beber. Fala também aos discípulos que eles devem bebê-lo. Não como uma predição do futuro, mas, muito mais como uma exigência do seguimento de Cristo e sua imitação. No entanto, após falar do cálice de dor, manda os discípulos se tornarem servos, pequenos e irmãos. Porque? Porque Ele sabe que o cálice de dor é ainda insuportável para eles que querem ser grandes. Só será compreensível e assimilável quando tiverem perdido tudo: casa, irmãos, pai, mãe, por causa do reino e só será suportável se entre eles houver verdadeiro amor: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. “Vós sois meus amigos”, lhes disse Jesus.

O cálice de dor é bebido pela salvação dos homens. Ele é a cruz, ele é o amor crucificado. O amor crucificado é a autoimolação de Jesus. Tem coragem, sê firme, sê forte e corajoso e imola na cruz teu desejo de grandeza, de poder, de status social, de ser importante e proeminente, de ser alguém aos moldes mundanos. Sê ainda mais forte, sê ainda mais corajoso e mais firme e transforma tua dor em amor.

Uma mãe velou seu filho morto. Depois velou sua filha que se suicidou. Agora cuida das três netinhas. Cada lágrima de dor e saudade que escorre em seu rosto ela transforma em amor às suas netas. Serva por amor.

Uma esposa traída ouviu de seu esposo a confissão da culpa. A dor era imensa, a humilhação era grande demais. Mas, o amor era maior. Junto às lágrimas de dor e desespero, angústia e sofrimento, havia a firme decisão de amar quem não merecia mais ser amado.

Olhamos uma mãe e dizemos: tens o semblante da Virgem Maria: serena, pacífica, humilde, toda recolhida em Deus. O que não sabemos é que aquele coração de mãe e esposa fora tantas vezes ferido que decidira amar, amar sempre e de novo, amar simplesmente. Fazer-se serva por amor.

Um filho não se dava com pai. Não conversavam. Eram estranhos debaixo do mesmo teto. Como conviver com esse pai? Ama, disse o diretor espiritual. Ama seu pai. Então ele resolveu amar. Um chinelo no pé, uma xícara de café para o pai, um presente de aniversário e um olhar silencioso desarmou o pai que descobriu que podia amar também. “Vem caminhar comigo”, convidou o pai e foram juntos na santa viagem até sua partida para o céu. Servos um do outro. Servos por amor.

Um jovem trabalhava no banco e na volta para casa ia até os usuários de drogas que ficavam em uma esquina. Desviar deles? Fugir? Chamar a polícia? O que fazer? Ama-os, disse o diretor espiritual, ama. Um dia leva bolo de aniversário a um, noutro dia empresta sua própria bicicleta a um daqueles viciados. Em outro dia se aproxima e não diz nada, apenas fica ali com eles. Não faz pregação, não lê o evangelho, nem diz para pararem de usar as drogas. Apenas ama. Um dia a esquina estará vazia, sem drogados, porque alguém os amou. Um servo por amor.

Ouvimos na segunda leitura: “temos um sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós”, mas “amou até o fim”. Por isso, “aproximemo-nos com toda a confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de auxílio no tempo oportuno”.

Amemos, amemos até o fim como pequenos servos uns dos outros, irmãos no amor, servos por amor, pois, dizia Santa Terezinha do Menino Jesus: “o amor tem em si todas as vocações”.

Se tentares viver de amor, perceberás que aqui na terra, convém fazeres a tua parte. A outra, não sabes nunca se virá, e não é necessário que venha. Por vezes, ficarás desiludido, porém, jamais perderás a coragem, se te convenceres de que, no amor, o que vale é amar (Chiara Lubic).