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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Obediência na Igreja como condição para a comunhão e a unidade

Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?

Homilia 29.08.2015



Caríssimos irmãos e irmãs, a liturgia de hoje possui um cunho moral muito forte. Ela traz um ensino fundamental para quem é católico. Nós católicos não vivemos dos cinco solas de Martinho Lutero: Sola fide, sola scriptura, solus Christus, sola gratia, soli Deo gloria. Nós somos ensinados pela Igreja que é Mãe e Mestra e a ela somos obedientes. Sua doutrina não provém da interpretação pessoal da sagrada escritura, não provém somente da Palavra de Deus, mas, é igualmente interpretada e ensinada pelo Magistério da Igreja e pela sua Tradição desde os tempos apostólicos até hoje. Estas novidades de Martinho Lutero e os reformadores no século XVI foram uma inovação na doutrina perene da Igreja, um acesso de soberba dos reformadores que queriam separar-se da Santa Igreja de Deus e utilizaram a declaração de sua doutrina como um ato formal de desobediência e rebeldia para conseguir isso.

A rebeldia e a desobediência são, de fato, duas ações do espírito humano geradas dentro do coração humano. No Evangelho, Jesus está às voltas com os fariseus que o interrogam sobre o fato dos seus apóstolos e discípulos não seguirem à risca as leis judaicas, ao que Jesus responde: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios... O coração na nossa cultura é um sinônimo para a consciência. É dentro do homem e de sua consciência, no seu interior, que é gerado o pecado. E é igualmente na sua consciência que ressoa a voz de Deus. Na carta de São Tiago que lemos na segunda leitura, nós vamos encontrar o seguinte ensino do Apóstolo: Havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte (Tg 1,15). A bíblia enfatiza muitas vezes a necessidade da pureza de coração (cf. Mt 5,8), da retidão das emoções, dos pensamentos, da pureza dos desejos, da retidão das intenções e motivações internas do homem. Do mesmo modo que tudo isso pode ser direcionado ao bem, pode também ser direcionado ao mal. Assim, a rebeldia e a desobediência em geral são concebidas e geradas por um coração soberbo que precisa aprender a humildade dos santos. Santa Terezinha do Menino Jesus limpava o Carmelo tendo contraído uma grave enfermidade. Então uma de suas irmãs lhe diz para deixar aquilo e ir repousar ao que ela responde: como poderei um dia comparecer diante do rei se lhe negar este mínimo dever? Sua consciência era tão humilde e voltada para Deus que desobedecer sua Madre lhe parecia sempre um pecado imperdoável. Ela não olhou sua enfermidade, não olhou para si mesma, para sua vontade ou para sua necessidade, para seu querer, pois, seu único querer era fazer em tudo a vontade de Deus expressa nas palavras de sua Madre. A humildade de fato tem sua raiz em Deus, porque quando os nossos olhos estão voltados para Deus, eles não se voltam para nós. A soberba, a rebeldia e a desobediência acontecem em nós e são geradas no nosso coração quando nossos olhos se distraem com as coisas do mundo e se perdem das coisas do alto.

São Tiago na leitura de hoje nos diz expressamente: Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas. Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Em primeiro plano este trecho liga-se ao seguinte e nos manda praticar a palavra de Deus amando o próximo, sobretudo o pobre, o indefeso, o órfão e a viúva na linguagem bíblica. Mas, não é só assim que se vive a Palavra de Deus. Vivemo-la sobretudo na obediência aos nossos superiores. Os filhos devem obedecer aos Pais porque essa é a vontade de Deus a nosso respeito. Devem obedecer seus professores, porque eles estão a seu serviço para lhe ensinar as ciências humanas. Todos nós devemos obediência às autoridades civis legitimamente constituídas porque isso é bom e agradável a Deus. Todo o povo de Deus deve obediência ao Santo Padre, sobretudo quando ele ensina a Igreja em matéria de fé e de moral. Do mesmo modo, os fiéis de uma Paróquia devem obediência a seu Pároco e todos os fiéis de uma Diocese devem obediência a seu Bispo. Tudo o que nós cremos acerca de Deus foi em nós implantado, como disse São Tiago, pela Palavra ensinada pela Igreja. Ninguém deu a si mesmo o dom da fé que é, sempre, a fé da Igreja. Ela é a porta-voz de Deus para o homem. Desobedecer a esta Igreja é desobedecer a Cristo. Romper a unidade e a comunhão com esta Igreja é romper com o Cristo. “Ouve Israel, as palavras que eu vos digo...”, ouvimos na primeira leitura e agora retomo: Ouvi povo de Deus a voz do seu pastor que não ensina as coisas de seu próprio pensamento, mas, que ouve a Igreja e a ela obedece. Ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir para que, fazendo-o, vivais. Há uma graça na obediência. Quem obedece não erra. Quem possui o poder de governar e de obrigar na Igreja, também possui o carisma e o dom para o governo dado por Deus porque todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes.

Nós não somos protestantes luteranos, calvinistas, metodistas, presbiterianos; evangélicos, pentecostais ou neopentecostais para fazermos uma Igreja segundo o nosso pensamento e a nossa vontade. Somos Católicos e vivemos debaixo da obediência à autoridade da Igreja. Se nos custa obedecer, ofereçamos a cruz e a dor da obediência ao Senhor pelos nossos pecados. Afinal, não estamos tão santos assim que possamos desprezar uma dor e jogar fora os frutos que dela poderemos colher. Basta olharmos o exemplo que a história nos deixa. Santa Terezinha obedeceu até o fim, como Jesus, e hoje é santa. São João da Cruz foi jogado no cárcere por seus próprios irmãos de convento, obedeceu até no cárcere, e lá teve seus maiores êxtases místicos escrevendo os mais belos poemas do ocidente em honra do Senhor e hoje é santo. São Francisco de Assis, pobre e humilde, de joelhos diante do Papa Inocêncio III obedeceu à sua autoridade e sua obediência rendeu à sua ordem religiosa inumeráveis santos e santas de primeira estirpe. Chiara Lubich, fundadora do movimento dos Focolares, obedeceu em tudo ao Papa Paulo VI na década de 60 quando o movimento estava sob investigação da Igreja. Afirmou ela que se o Papa mandasse com que encerrassem suas atividades, ela voltaria ao seu focolare, comunicaria a decisão do Santo Padre às suas companheiras, tomaria suas coisas e não pensaria duas vezes em obedecê-lo. Morreu com fama de santidade. Os que desobedeceram e não quiseram corrigir seus erros causaram na Igreja enormes feridas na unidade. Assim foi com Lutero, com os reformadores, que desprezaram os sucessivos pedidos dos Papas para se retratarem. Seu pecado foi tão nefasto que se tornou uma hidra. A cada seita neopentecostal que se fecha, duas outras se abrem atestando a rebeldia e desobediência de seus pais na fé.

Conclusão

Na Igreja existe um testemunho de unidade e comunhão do qual depende a veracidade do nosso anúncio que cumpre  pedido de Jesus em Jo 17,21. O evangelho que anunciamos não pode ser contraditório. Esta comunhão e unidade não dependem do sentir, do gosto ou do achismo pessoal. São realizadas na fé. No entanto, há outras virtudes que ajudam a realizar de modo eficaz a unidade e a comunhão na Igreja. Os conselhos evangélicos da pobreza, da obediência e da castidade são estas virtudes. O conselho evangélico da pobreza nos ajuda a viver a unidade quando entendemos que os bens da unidade e da comunhão são mais preciosos e precisam ser resguardados mesmo quando precisamos perder a nossa vontade, o nosso pensamento, a nossa ideia, porque para Jesus no reino de Deus só ganha quem perde. O conselho evangélico da castidade nos ajuda a manter a comunhão e a unidade porque nos educa para o autodomínio. Quem não domina os próprios impulsos interiores também não consegue refrear as próprias tendências interiores, as próprias vontades. Tais pessoas são dominadas por seus impulsos e por suas vontades. Por isso, a castidade nos educa para o domínio de si, das próprias vontades, dos impulsos e dos desejos afim de direcioná-los para Deus. Assim, a virtude da castidade nos ensina que para manter a comunhão e a unidade é preciso dominar-se a si mesmo, dominar os próprios impulsos e as próprias vontades. A obediência na Igreja, por sua vez, não se dá por simpatia, empatia, ou para sentir coisas boas. A obediência é fruto da fé e só tem razão de ser pela fé. Por isso, ela precisa da virtude da pobreza e da castidade, pois, a quem se obedece em primeiro lugar é a Deus e em segundo lugar à sua Igreja. Só quem é pobre de coração e casto nas suas vontades pode obedecer e assim, construir comunhão e unidade. Tais virtudes são sobrenaturais, são fruto da fé, por isso, a própria unidade e comunhão da Igreja são fruto da fé. Sem comunhão e sem unidade não há verdadeiro testemunho do evangelho, mas, há o contratestemunho que faz com que o mundo descreia da boa nova de Jesus.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Primeiro embate do sínodo dos Bispos: A lei natural

Cardeal Walter Kasper


O PASTELÃO KASPER

Matéria retira do site fratresinunum. Fonte aqui.

As fontes filosóficas de erros “bergoglianos”. Para eles, o Cristianismo é a história, mas não a justiça.

Por Roberto de Mattei – Il Foglio | Tradução: Fratres in Unum.com – O próximo Sínodo dos Bispos foi precedido por um alvoroço da mídia que lhe atribui um significado histórico maior do que o seu âmbito eclesiológico de mera assembléia consultiva da Igreja. Alguns lamentam pela guerra teológica que o Sínodo anuncia, mas a história de todos os encontros episcopais (este é o significado etimológico do termo e do seu sinônimo “concílio”) sempre foi marcada por conflitos teológicos e debates ásperos sobre erros e divisões que ameaçavam a comunidade cristã desde o seu início.

Hoje a questão da comunhão para divorciados é só mais uma vertente de uma discussão que abrange conceitos doutrinários muito mais complexos, como o da natureza humana e da lei natural. Esse debate parece refletir na esfera antropológica, as especulações trinitárias e cristológicas que abalaram a Igreja durante o Concílio de Nicéia (325) e da Calcedônia (451). Naquela época se discutia para determinar a natureza da Santíssima Trindade, que é um só Deus em três Pessoas, e para definir em Jesus Cristo a Pessoa do Verbo, que subsiste em duas naturezas, a divina e a humana. A adoção por parte do Concílio de Nicéia, do termo grego homoousios, que em latim foi traduzido como consubstantialis e, logo após com o Concílio de Calcedônia, com as palavras “da mesma natureza” da substância divina, para afirmar a perfeita igualdade entre o Verbo e o Pai, marcou uma data memorável na história do Cristianismo e encerrou uma era de perplexidade, confusão, e drama de consciência semelhante àquela em que estamos inseridos. Naqueles anos, a igreja estava dividida entre a “direita” de Santo Atanásio e a “esquerda” dos seguidores de Ário (a definição é do historiador dos Concílios Karl Joseph von HEFELE). Entre os dois polos oscilava o terceiro partido dos semi-arianos, divididos em várias facções. Ao homoousios de Nicéia, que significa “da mesma substância” foi contraposto o termo homoiousios que significa “de substância semelhante”. Não se tratava de uma mera questão de terminologia. A diferença entre essas duas palavras, aparentemente insignificante, esconde um abismo: de uma parte a identidade com Deus, e da outra, uma certa analogia ou semelhança, o que faz de Jesus Cristo um simples homem.

 A melhor reconstrução histórica deste período é a do cardeal John Henry Newman, em seu livro “Os arianos do IV século”(tr. Ele. Jaca Book, Milano 1981), um estudo aprofundado, que destaca a responsabilidade do clero e a coragem do “povo” na manutenção da fé ortodoxa. O diácono Atanásio, campeão da ortodoxia, ao ser eleito bispo, foi forçado por bem cinco vezes a abandonar sua diocese para percorrer o caminho do exílio. No ano 357 o Papa Libério excomungou Atanásio e dois anos mais tarde, os Concílios de Rimini e Selêucia, que constituíam uma espécie de grande concílio ecumênico representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Nicéia e estabeleceram um equivocado meio-termo entre Santo Atanásio e os Arianos. Foi então que São Jerônimo cunhou a frase segundo a qual  “o mundo gemeu e percebeu com espanto que tinha se tornado Ariano”.

Atanásio e os defensores da fé ortodoxa foram acusados de ficarem presos a questões de palavras e de serem encrenqueiros e intolerantes. As mesmas acusações que agora são dirigidas àqueles que dentro e fora dos debates sinodais levantam uma voz de intransigente firmeza na defesa do ensinamento perene da Igreja sobre o matrimônio cristão, como é o caso dos cinco cardeais (Burke, Brandmüller, Caffara De Paolis e Müller) os quais, depois de terem se manifestado individualmente, reuniram suas ações em defesa da família em um livro que se tornou um manifesto, “Permanecer na verdade de Cristo: o casamento e a Comunhão na Igreja Católica”, que acaba de ser publicado pelas Edições Cantagalli Siena. A mesma editora Cantagalli foi responsável pela publicação de mais um texto fundamental, “Divorciados recasados. A práxis da Igreja primitiva” do jesuíta Henri CROUZEL.

Os comentaristas dos jornais Corriere della Sera e Repubblica rasgaram as vestes pela rixa teológica em curso. O mesmo Papa Francisco, no dia 18 de setembro, recomendou aos bispos recém-nomeados que “não desperdicem energia se opondo ou se confrontando uns aos outros”, esquecendo-se da sua responsabilidade pessoal pelo confronto, quando ele próprio decidiu confiar a tarefa de abrir os trabalhos sinodais ao Cardeal Walter Kasper. Como bem observou Sandro Magister, foi o cardeal Kasper, com a sua relação secreta de 20 de fevereiro de 2014, documentada pelo jornal Il Foglio, que deu início às hostilidades e desencadeou o debate doutrinário, tornando-se assim, para muito além de suas intenções, o porta-estandarte de um partido. A fórmula repetidamente reafirmada pelo cardeal alemão, segundo a qual o que tem que mudar não é a doutrina da indissolubilidade, mas o cuidado pastoral pelos divorciados novamente casados, tem em si a capacidade de provocar ruptura e é a expressão de um conceito teológico envenenado desde os seus fundamentos.

Para compreender melhor o pensamento de Kasper, é necessário voltar a uma de suas primeiras obras, que é talvez a principal: “O absoluto na história segundo a filosofia de Schelling”, publicada em 1965 e traduzida por Jaca Book, em 1986. Walter Kasper, de fato, pertence à escola de Tübingen, que, como ele descreve neste estudo, “começou uma renovação da teologia e de todo o catolicismo alemão ao promover o encontro entre Schelling e Hegel” (p. 53).  A metafísica é a de Friedrich Schelling (1775-1854), “gigante solitário” (p. 90), de cujo caráter gnóstico e panteísta o teólogo alemão tenta em vão libertar-se. Na sua última obra, “Philosophie der Offenbarung” (Filosofia da Revelação), de 1854, Schelling contrapõe ao Cristianismo dogmático, o cristianismo da história. “Schelling – comenta Kasper – não concebe de forma estática, metafísica e sobretemporal o relacionamento entre o natural e o sobrenatural, mas de um modo dinâmico e histórico. O essencial da revelação cristã é propriamente isso, que essa é a história”(p. 206).

Também para Kasper, o Cristianismo antes de ser doutrina é história ou praxis. Em sua obra mais famosa, “Gesù il Cristo” (Queriniana, Brescia 1974), ele desenvolve uma cristologia em chave histórica que depende da filosofia da revelação do seu mentor alemão. A concepção trinitária de Schelling é aquela dos heréticos sabelianos e modalistas, precursores do Arianismo. As três Pessoas divinas são reduzidas de três modos de “sub-existência” a uma única natureza-pessoa (modalismo), enquanto a essência da Trindade se resolve com sua sua manifestação no mundo. Cristo não é um intermediário entre Deus e o homem, mas a realização histórica da divindade no processo trinitário.

Coerente com a cristologia de Kasper é também sua eclesiologia. A Igreja é antes de tudo “pneuma”, “o sacramento do Espírito Santo”, uma definição que, para o cardeal alemão, “corrige” o estatuto jurídico de Pio XII na encíclica Mystici Corporis (“A Igreja, lugar do Espírito”, Queriniana, Brescia 1980, p. 91 ). O campo de ação do Espírito Santo não coincide, como ditado pela Tradição, com aquele da Igreja Católica Romana, mas estende-se a uma realidade ecumênica muito mais ampla, a “Igreja de Cristo”, da qual a Igreja Católica é apenas uma parte. Para Kasper, o Decreto sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II nos leva a reconhecer que a única igreja de Cristo não se limita à Igreja Católica, mas é dividida em igrejas e comunidades eclesiais separadas (ibid, p. 94). A Igreja Católica é “onde não há algum evangelho seletivo”, mas tudo se expande de maneira inclusiva, no tempo e no espaço (“a Igreja Católica – Essência, realidade, missão”. Queriniana, Brescia 2012, p 289). A missão da Igreja é “sair de si mesma” para recuperar uma dimensão que a torne verdadeiramente universal. Eugenio Scalfari, que se apresenta como um terceiro papa, logo após o emérito e o reinante, embora totalmente ignorante em matéria de teologia, atribui a mesmíssima concepção ao Papa Francisco, afirmando que para ele, a igreja missionária é aquela que “tem que sair de si mesma e ir para o mundo” realizando o cristianismo na história (Repubblica, 21 de setembro de 2014).

Estas teses estão refletidas na teologia moral de Kasper, segundo a qual a experiência do encontro com Cristo dissolve a lei, ou melhor, a lei é um impedimento do qual o homem deve libertar-se para encontrar a misericórdia de Cristo. Schelling em sua filosofia panteísta absorve em Deus até o mal. Kasper absorve o mal no mistério da Cruz, na qual ele vê a negação da metafísica tradicional e da lei natural que vem em seguida. “A passagem da filosofia negativa à filosofia positiva é para Schelling, ao mesmo tempo a passagem da lei ao evangelho” (“O absoluto na história”, p. 178), assim escreve o cardeal alemão, que por sua vez, vê a passagem da lei para o evangelho na primazia da praxis pastoral sobre uma doutrina abstrata.

A este respeito, o ensinamento moral do Cardeal Kasper é, pelo menos implicitamente, antinomista. O antinomismo é um termo cunhado por Lutero contra o seu adversário na esquerda, Johann Agricola (1494-1566), mas que tem suas reminiscências em heresias antigas e medievais para indicar a rejeição do Antigo Testamento e sua lei, que eram vistos como mera proibição e obrigações, em contraste com o Novo Testamento, que é a nova economia da graça e da liberdade. Em termos gerais, o Antinomismo é visto como a rejeição da lei moral e natural que tem suas raízes na rejeição da idéia da natureza. Para os “antinomistas cristãos” não existe lei porque não existe uma natureza humana objetiva e universal. A consequência é a evaporação do sentido do pecado, a negação dos absolutos morais, a revolução sexual dentro da Igreja.

A partir dessa perspectiva, é possível compreender como o Cardeal Kasper em seu recente livro: “Misericórdia. Conceito fundamental do Evangelho – Chave da vida”,  publicado em alemão em 2012 e traduzido para o italiano pela editora Queriniana em 2013, se propõe a romper com o tradicional equilíbrio entre justiça e misericórdia, fazendo desta última, contra tudo que ensina a Tradição, o principal atributo de Deus. No entanto, como observou Padre Serafino Lanzetta em uma excelente análise do seu volume, publicado pela www.chiesa.espressonline.it, “a misericórdia aperfeiçoa e cumpre a justiça, mas não a anula e sim a pressupõe, caso contrário ela não teria razão de existir”. O desaparecimento da justiça e da lei torna ininteligível o conceito de pecado e o mistério do mal, a menos que se queira reintegrá-los em uma perspectiva teosófica e gnóstica.

Encontramos esse erro no postulado Luterano da “sola misericordia.” Abolida a mediação da razão e da natureza, para Lutero o único caminho de volta para Deus é a “fé fiducial”, que tem seu preâmbulo não na razão metafísica, da qual deve ser totalmente desvinculada, mas num sentimento de profundo desespero que tem por sua vez seu próprio objeto na “misericórdia” de Deus, ao invés da verdade revelada por Ele. Este princípio, como foi demonstrado por Silvana Seidel Menchi em sua obra “Erasmus na Itália 1520-1580” (La Costa Basic Books, Turim, 1987), desenvolveu-se na literatura herética do século XVI graças à influência do Tratado de Erasmus, “De imensos misericórdia de Deus” (1524), que escancarava as portas do céu para os “homens de boa vontade” (ibid, p. 143-167). Nas seitas de origem erasmiana e luterana que compõem a extrema esquerda da Reforma Protestante refloresceram além dos erros anti-trinitários do século IV, o arianismo, modalismo, sabelianismo, com base na negação ou perversão da idéia de natureza.

O único percurso penitencial possível para se conhecer o abraço da Divina Misericórdia é a rejeição do pecado em que estamos imersos e o reconhecimento de uma lei divina que deve ser amada e observada. Esta lei está enraizada na natureza humana e está gravada no coração de cada homem “pelo dedo do Criador” (Rm 2, 14-15). Esse é o supremo critério de julgamento de cada ação e de todas as relações humanas como um todo ou na história.

O termo natureza não é algo abstrato. A natureza humana é a essência do homem, tudo aquilo que ele é antes mesmo de se tornar uma pessoa. O homem é uma pessoa, titular de direitos inalienáveis, porque ele tem uma alma. Ele tem uma alma, porque, diferente de qualquer outro ser vivo, tem uma natureza racional. Natural não é o que nasce dos instintos e desejos do homem, mas o que corresponde às regras da razão, que por sua vez tem de obedecer a uma ordem de princípios objetivos e imutáveis. A lei natural é uma lei racional e imutável, porque imutável enquanto espiritual é a natureza do homem. Todos os indivíduos que pertencem a uma mesma natureza ou espécie agirão ou deverão agir da mesma maneira, porque a lei natural está inscrita na natureza não deste ou daquele homem, mas na natureza humana considerada em si mesma, em sua permanência e estabilidade.

O Cardeal Kasper não crê na existência de uma lei natural universal e absoluta, e no Instrumentum laboris, ou seja, o documento oficial do Vaticano que prepara o Sínodo de outubro, este repúdio da lei natural transparece com evidência, mesmo quando apresentado em termos mais sociológicos do que teológicos. “O conceito de lei natural acaba por ser como tal, hoje em diferentes contextos culturais, altamente problemático, se não completamente incompreensível” (21 n.) – se diz – mesmo porque “hoje em dia, não só no Ocidente, mas cada vez mais em todas as partes da Terra, a pesquisa científica representa um sério desafio ao conceito de natureza. A evolução, a biologia e neurociência, confrontando-se com a idéia tradicional de lei natural, chegaram à conclusão de que essa não pode ser considerada ‘científica'” (n. 22). Ainda segundo o programa kasperiano, contra a lei natural é necessário contrapor o “espírito do Evangelho, que deve comunicar os valores “de um modo compreensível aos homens de hoje”. Se torna portanto necessário “dar uma ênfase muito maior sobre o papel da Palavra de Deus como um instrumento privilegiado na concepção da vida conjugal e familiar. Recomenda-se que se faça maior referência ao mundo bíblico, sua linguagem e formas narrativas. Neste sentido, destaca-se a proposta de tematizar e aprofundar o conceito de inspiração bíblica, da ‘ordem da criação’, como a possibilidade de reler de modo existencialmente mais significativo a ‘lei natural’ (…) Também se recomenda atenção para que se faça com que a juventude assuma o papel de interlocutores diretos das propostas sobre esses temas ” (30 n.).

As consequências inevitáveis dessa nova concepção de moralidade, que serão discutidas pelos participantes do Sínodo, foram tratadas por Vito Mancuso, no jornal Repubblica de 18 de Setembro. A lei natural “é um fardo pesado demais para suportar”; é necessário, portanto, apontar para “um profundo processo de renovação em matéria de ética sexual” que possa levar às seguintes e necessárias aberturas: sim à contracepção; sim ao sexo antes do casamento e sim o reconhecimento de casais homossexuais”.

De frente a esse catastrófico itinerário em direção à imoralidade, como não causaria admiração o fato de cinco cardeais publicarem um livro em defesa da moral tradicional e que outros cardeais, bispos e teólogos, também tenham se associado a esta posição? Contra quem advoga uma nova disciplina doutrinal e pastoral, — escreveu o cardeal Pell — se levanta “uma barreira intransponível”, baseada “na quase completa unanimidade sobre este ponto do qual a  história da Igreja Católica dá provas de mais de dois mil anos” (Prefácio de Juan José Pérez-Soba, Stephen Kampowski, “Além da proposta de Kasper”, Ignatius Press, San 2014, p. 7).

É de se esperar que o confronto seja livre e transparente, sem a imposição de cima para baixo de regras que distorçam ou falsifiquem o jogo. O que está em jogo não é uma simples divergência de opiniões, mas a clarificação da missão da igreja. Há que se rezar para que os bispos fiéis à Tradição não se deixem intimidar e que sejam  capazes de suportar com paciência a virulência dos ataques da mídia e as censuras eclesiais, ainda que sejam injustas e pesadas, que podem vir a ocorrer. “A melhor canção continua a ser a nossa” (p. 8), escreve ainda o Cardeal Pell e Atanásio continua a ser um modelo, em nosso tempo, para aqueles que não se retraem diante do justo combate em defesa da verdade.

Quem é o maior no reino dos céus?


Homilia. 11-08-2015

“Quem é o maior no reino dos céus?
Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior. Disse Jesus”.
Quem é o maior no reino dos homens?
Quem possui mais prestígio, poder, fama e dinheiro.

O que queremos? Ser grandes ou pequenos? Queremos ser grandes onde? No reino de Deus, ou no reino dos homens? No reino dos homens só faremos grandes coisas se formos pequenos no reino de Deus!
Nesta novena, estamos meditando passo a passo alguns aspectos da Virgem Maria. Hoje meditaremos a sua pequenez como parâmetro para vivermos a virtude da humildade. Dom Hélder Câmara escreveu um poema belo a Nossa Senhora, assim:

Que fizeste, Maria
Para valer tanto diante de Deus?
Foi tua beleza ou tua inteligência
Ou tua bondade que venceu o criador e Pai,
A ponto de te tornares participante, direta e pessoal,
De todos os mistérios divinos?
Quem não conhece a resposta cantada no magnificat?
O Pai viu
Que ninguém seria tão simples,
Continuaria tão humilde,
Sendo Cheia de Graça
E Mãe de Deus.

Maria Santíssima foi aquele pequeno resto de Israel, profetizado por Isaías, um pequeno resto que permaneceu fiel. Aquele resto não era mais o povo de Israel quando o Verbo se encarnou, porque o povo eleito já havia se tornado rebelde e tinha virado as suas costas à Lei de Deus. Ainda que pensassem estar cumprindo-a, Deus já a tinha revogado e agora enviava seu próprio Filho para dar a conhecer a Lei Nova. Maria Santíssima é o resto fiel, a única pessoa em quem o Senhor encontra fidelidade e temor do Senhor para se cumprir as profecias.

Quando encontra-se com Isabel sua alma rejubila de alegria no Senhor, seu Salvador, e exultante exclama: “A minha alma engrandece o Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque Ele olhou para a pequenez de sua serva...”. Maria é uma pequenina, uma pobre e simples moça, arrebatada pelo seu Senhor. É impressionante o que ela mais guarda em seu coração: o resgate dos humildes, dos famintos, dos escravos, dos últimos, dos Anawin: os pobres e pequenos que não são nada, não são ninguém, não tem fama, poder nem prestígio. Maria não pára na alegria de ter Deus se formando no seu ventre, mas exulta de felicidade vendo já a revolução de amor que o seu filho, o HOMEM DEUS, vai trazer. Os pobres habitam o coração da pobre Maria, os humildes e pequenos com ela exultam porque não engrandecem a si mesmos, não louvam a si mesmos, seus grandes feitos ou grandes obras, mas, como Maria tudo reputam a Deus, tudo entregam a Deus, tudo dependem de Deus: “Felizes os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus”!

 Ela, a mais pobre entre as mulheres da terra e também a mais rica, foi pobre em tudo. Não é exato dizer que Maria foi invadida por uma poderosa infusão de ciência divina quando concebeu Jesus. E que por via de permanentes e excepcionais graças divinas tenham se dissipado todas as suas dúvidas e que ela soubesse e antevisse todo o seu caminho ou o caminho de Jesus. Não! Como qualquer um de nós ela foi uma peregrina da fé, totalmente abandonada ao desígnio de Deus, e teve que suportar os silêncios de Deus, as demoras de Deus e as cruzes do caminho: hoje em Belém, amanhã fugindo para o Egito através do deserto; depois de volta à monotonia e anonimato de Nazaré e assim permanecendo até o fim de seus dias. Uma figura emblemática, mas como que passando em segundo plano. De fato, esta é a pequena e humilde serva em quem hoje nós nos espelhamos.

Humilde, pequeno, é aquele que reconhece os próprios limites e não se orgulha ou se exalta pelos seus méritos e virtudes que tem. É ainda aquele que não aspira reconhecimentos, louvores, lisonjas e honrarias. Eis a pessoa humilde. No mundo atual esta palavra não quer dizer quase nada, já que as palavras na ordem do dia hoje são: auto-afirmação: “eu quero o meu lugar ao sol”; “ninguém vai tirar o meu brilho”; egocentrismo, vanglória, reconhecimento e exaltação, méritos e títulos. Isso para Deus é palha que queima com uma pequena faísca de fogo.

Muitas vezes as pessoas estragam tudo querendo elas mesmas concertar o erro do mundo com suas mãos. Nós não vamos mudar o mundo assim. O mundo não muda por voluntarismo nem por boa dose de boa vontade. O mundo muda quando nós mudamos a nossa mentalidade mundana e buscamos as coisas do alto, quando nos convertemos de nossos pecados. Enquanto persistirmos querendo estes valores do reino dos homens, não teremos a pequenez necessária para entrar no reino de Deus. É preciso perder, caros irmãos. Esta é a verdade do Evangelho! Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna.


Peçamos a intercessão da Virgem para podermos ser fiéis a seu Filho, para aprendermos a ser pequenos como ela, para aprendermos sua humildade e sermos também servos por amor; para aprendermos a desprezar as lisonjas, as horarias, os louvores, a vanglória e o desejo de auto-afirmação. Então, digamos lá do fundo do nosso coração: Faça-se em mim, segundo a vossa palavra!

sábado, 8 de agosto de 2015

Somente o Senhor é Deus.


Homilia em 07/08/2015

"Reconhece hoje e grava em teu coração: Somente o Senhor é Deus lá em cima do céu
e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele." (Dt 4,39)

Caríssimos irmãos e irmãs, este é o anúncio da liturgia de hoje. No Antigo Testamento Deus mostrou-se no fogo. Revelou-se na sarça ardente. Falou ao seu povo desde a nuvem e caminhou com ele no deserto através da Tenda da Reunião, das Tábuas da Lei e da Arca da Aliança. Esses foram os sinais externos da eleição do povo e da presença de Deus em seu meio. No entanto, esses sinais não tinham finalidade em si mesmos. Sua finalidade era de ser "sinal" da aliança afim de levar Israel à profissão de fé: "Somente o Senhor é Deus". A profissão de fé, portanto, nesta leitura do Deuteronômio é o centro da liturgia de hoje.

Os sinais externos mudaram com o tempo. Deus falou ao seu povo pelos profetas e o sinal fora uma bilha quebrada, uma prostituta, um buraco no muro. Depois de falar por meio de sinais, falou ao seu povo como um igual. Veio do céu, encarnou-se no seio da Virgem e se fez homem. Como um igual a nós realizou muitos sinais e prodígios que também não possuíam finalidade em si mesmos, senão, que eram uma seta para o Reino de Deus que, segundo suas próprias palavras, "está no meio de nós". Hoje, para professarmos a nossa fé e dizermos "somente o Senhor é Deus" temos dois sinais no contexto desta novena em honra de Nossa Senhora das Graças: A cruz e a Virgem.

Não são mais aqueles sinais portentosos do passado: som de trombeta e chamas, fogo e nuvem. Agora os sinais são a pobreza, a pequenez e o escondimento da Virgem e o escândalo da cruz. É por meio desses sinais que diremos: "Só o Senhor é Deus". Naquela pobre e humilde serva do Senhor o Verbo se fez carne no silêncio criador do Espírito Santo. No rebaixamento do Filho, na sua humilhação na cruz, no seu lancinante grito: "Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste" nós "vemos" o Pai, nós contemplamos Deus e seu poder.

Do evangelho de hoje nos chega esta verdade límpida e transparente: Que adianta ao homem ganhar a vida neste mundo e perder a vida eterna? Nós, agora, contemplamos os dois sinais: A Virgem e a Cruz. Silenciosos sinais do imenso poder de Deus. No primeiro sinal, o silêncio da mulher da qual veio A Vida. No segundo sinal, o silêncio da cruz através da qual veio a vida. Por meio deste dois sinais que se aniquilam, podemos dizer: "Só o Senhor é Deus". Só Ele poderia ter feito a Virgem Imaculada para a concepção do Filho; só Ele poderia tornar a cruz escandalosa e mortal em árvore da vida donde brotou a vida para todos. Sim, irmãos, "só o Senhor é Deus" porque só Ele é capaz de atos tão portentosos para a salvação do mundo.

Por isso Jesus convida-nos: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga". Este foi o caminho da Virgem e do Senhor. Da Virgem porque, embora não tenha sido crucificada na carne, o fora em sua vontade. Do Senhor porque Ele mesmo nos diz: "Eis que o Filho do Homem será entregue...". Este é também o nosso caminho de cristãos: A cruz. Como a Virgem deveremos dizer sempre: "Eis aqui os servos do Senhor. Faça-se segundo a sua vontade". Como Jesus também deveremos dizer: "Faça-se, Pai, o teu querer e não a minha vontade", pois, "quando o Filho do Homem vier, retribuirá a cada um conforme sua conduta, ou seja, conforme suas escolhas de vida. Para nós este caminho está claro e possui dois sinais inequívocos: a cruz e a Virgem.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Novo layout

O que acharam do novo layout do blog? Alguma sugestão para melhorá-lo?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Como maná caído do céu


Nós padres nos acostumamos a doar.
Doamos Deus.
Doamos amor.
Doamos compreensão.
Doamos perdão.
Doamos paciência.
Doamos alto-estima.
Doamos acolhida.
Doamos sorrisos.
Doamos alegria.
Doamos felicidade.
Doamos paz.
Doamos serenidade.
Doamos abraços
e doamos caridade.

Com o tempo nos tornamos duros e insensíveis para estas mesmas realidades que estão presentes em nós. Então nós nos esquecemos de que também nós
Precisamos de Deus.
Precisamos de amor.
Precisamos de compreensão.
Precisamos de perdão.
Precisamos de paciência.
Precisamos de alto-estima.
Precisamos de acolhida.
Precisamos de sorrisos.
Precisamos de alegria.
Precisamos de felicidade.
Precisamos de paz.
Precisamos de serenidade.
Precisamos de abraços
e precisamos de caridade.

Hoje no dia do Padre choveu maná no deserto. Acostumado a parabenizar, congratular com os outros, elogiar, entre outras tantas coisas, ontem e hoje, como uma chuva fina de maná que caía do céu chegaram aos poucos as mensagens de alegria, contentamento, felicidade, congratulação, emoção, de agradecimento, oração, entre tantas outras, pelo dia do Padre.

Obrigado, Senhor, por haver quem doa um sorriso, uma frase, um pouco de amor. São meus paroquianos  e amigos que se aproximam de mim para se alegrarem comigo por este dia. É esta a minha família agora. Aquela que escolhi na fé. Obrigado, Senhor, por ter me dado 100 vezes mais pais e mães, irmãos e irmãs nesta vida. Minha palavra neste dia é gratidão! Se fora de ti não existe sacerdócio, com eles meu sacerdócio fica mais belo, mais rico e sou feliz. Obrigado, Senhor! Obrigado Paroquianos! Obrigado, amigos!

domingo, 2 de agosto de 2015

O sacerdote e a Eucaristia


Homilia no 18º domingo de tempo comum - Ano B

Nestes dois domingos estamos meditando o capítulo 6 do evangelho de São João. Neste capítulo Jesus nos fala da eucaristia. Hoje ele nos diz claramente: eu sou o pão que desceu do céu. O pão enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo. O maná que foi dado no deserto a vocês, não foi dado por Moisés, mas, por meu Pai. No entanto, aquele pão perecível era sinal deste pão imperecível; aquele pão limitado era sinal deste pão infinito; aquele pão material era sinal desta comida espiritual. Do mesmo modo aqueles pães multiplicados eram sinais deste único pão que vai ser partido e repartido, amassado e macerado de dores para a salvação do homem. Este novo pão, este novo maná, foi trazido ao mundo dentro da arca da nova aliança, a Virgem Maria. Enquanto a arca da antiga aliança carregava dentro de si alguns grãos de maná, a arca da nova aliança trouxe ao mundo o pão vivo descido do céu. Este pão se deixou ser consumido de dores, cercado de sofrimentos, chicoteado, cuspido e humilhado e não abriu a boca, como nos disse o profeta Isaías. Este pão carregou sobre si as nossas dores, levou sobre os ombros o pecado que pesava sobre todos nós para nos dar a vida, a liberdade, para se nos dar e se entregar a nós no sublime sacramento da eucaristia e assim, permanecer entre nós e entregar-nos tudo o que o Pai quis que Ele nos desse!

Por esse motivo, a ligação entre sacerdócio e eucaristia é tão profunda. É um vínculo vital! Ai do sacerdote que não celebrar a eucaristia, ou celebra de qualquer modo, ou celebra de modo jocoso, desrespeitoso, xistoso! A Eucaristia é Deus, a Eucaristia é Cristo e nós somos seus servos! Nós sacerdotes, somos paradoxalmente aqueles servos inúteis que ao mesmo tempo somos necessários à Igreja, ao reino de Deus, às pessoas e à humanidade porque nós apontamos para vocês a esperança de que há um depois, um reino de paz e plenitude, um reino de vida, um reino no qual há um Deus que é Pai e que perdoa e ama gratuitamente, em suma, um reino eucarístico onde todos seremos uma só coisa com o Filho e o Pai no dom do Espírito Santo do mesmo modo que a água e o vinho, no cálice, tornam-se uma só coisa!

“A Igreja vive da Eucaristia”, escreveu São João Paulo II. Sim, a Igreja vive da Eucaristia porque o sacerdote vive da Eucaristia! “Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja”, disse o santo Papa. Eis uma grande verdade: O sacerdote não é padre para si, mas para a Igreja que o acolheu e ordenou! Ele vive para a Eucaristia e da Eucaristia retira força para o testemunho, para o serviço da caridade, para o serviço do ensino da Verdade, para sua vida pessoal, para suas lutas cotidianas, para defender-se do maligno. Ai do padre que vive sem a Eucaristia! Melhor seria se não tivesse sido ordenado! Ai de mim, pobre pecador, um homem escolhido em meio aos homens! Ai de mim se não for Jesus e sua misericórdia infinita! Ai de mim se não for a comunhão com o mistério da Igreja! Ai de mim em minha fraqueza se não for a fortaleza deste augustíssimo sacramento! Pobre de mim!

“O Santo Cura d’Ars era humilíssimo. Assim escreveu o Papa Emérito Bento XVI , mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: “Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina”! Ele falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia». E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu”. Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, o é para vós”. (Papa Bento XVI)

“O coração sacerdotal é um coração permanentemente ferido”. Esta expressão é de Dom Henrique Soares da Costa, Bispo de Palmares em Pernambuco. O coração sacerdotal é duplamente ferido. Ferido mortalmente de amor, porque o ser sacerdote só pode ser fruto de um amor divino e incomensurável, um amor tão grande que faz este reles homem querer perder-se no ser amado. É assim que eu me sinto ferido, permanentemente ferido de um amor que não tem cura e que me custa muitas outras feridas. Nesta relação de amor com meu Deus, eu sei que Ele me olha e que Ele me vê e me sorri todo dia. É por seu sorriso que eu vivo! Estas outras feridas de que falei são o segundo tipo de ferida, são as feridas humanas que habitarão sempre o coração sacerdotal à imagem daquelas feridas que chagaram o corpo de Cristo na subida do monte calvário e como Cristo, o sacerdote deve suportar tais feridas porque elas redimem o mundo! Às vezes caindo debaixo do peso da cruz porque assim foi com Jesus e o sacerdote não é maior do que seu mestre e Senhor! Como Cristo o sacerdote leva os bofetões e as cusparadas na face, tantas vezes lhe é cravada uma coroa de espinhos na cabeça, noutras, é ridicularizado e humilhado; uma cruz lhe é imposta nos ombros no exato momento em que ele se levanta do canto da ladainha no dia de sua ordenação! É-lhe dito naquele dia que ele deve conformar sua vida à vida do Cristo Bom Pastor em todos os aspectos. Pois bem, há este aspecto das feridas e da cruz que o Bom Pastor assumiu sobre si para que em suas feridas nós fossemos curados. Também na vida sacerdotal, o sacerdote assume esta realidade sobre si: a cruz, as feridas, a incompreensão do mundo, a chacota e a humilhação, porque este é o caminho que redime o mundo. Termino minha homilia neste dia da eucaristia e do sacerdócio com as palavras de Chiara Lubich. Se é verdade que a Eucaristia é o sacrifício de Jesus, também é verdade que é o sacrifício de um homem que morre por todos. Jesus e o padre.

Tenho um só esposo sobre a terra:
Jesus abandonado.
Não tenho outro Deus além dele.
Nele está todo o paraíso com a Trindade
e toda a terra com a humanidade.
Por isso, o seu é o meu e nada mais.
Sua é a dor universal e, portanto, minha.
Irei pelo mundo à sua procura
Em cada instante da minha vida.
O que lhe faz sofrer é meu.
Minha, a dor que perpassa no presente.
Minha, a dor de quem está ao meu lado.
Meu tudo aquilo que não é paz,
Gaudio, Belo, Sereno.
Numa palavra: tudo aquilo que não é Paraíso.
Pois eu também tenho o meu paraíso,
Mas ele está no coração do meu esposo.
Outros paraísos não conheço.
Assim será pelos dias que me restam:
Sedenta de dores,
De angústias, De desesperos, De melancolias, De exílio, De abandonos, De dilacerações,
De tudo aquilo que não é Ele.
E Ele é o pecado, o inferno.
Assim, dessecarei a água da tribulação
Em muitos corações próximos e distantes,
Pela comunhão com meu esposo onipotente.
Passarei como fogo que devora tudo o que há de ruir
E deixa de pé só a Verdade.
Mas é preciso ser como ele,
Ser ele no momento presente da vida.

Chiara Lubich