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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Gravaram o leitor fazendo a leitura e projetaram durante a missa

(Clicar na imagem para ampliar)
Eu recebi este e-mail com esta dúvida e eis a resposta:
Olá José. É absolutamente errado este proceder na liturgia. A leitura da missa se faz no momento da liturgia da Palavra que constitui um dos ritos da missa que está acontecendo em um lugar físico específico, possui um celebrante e uma assembleia reais. É parte integrante, essencial, da santa missa. Ter um leitor fazendo a leitura gravada e projetada num telão é erro grave. Quando não há leitores na missa é obrigação do sacerdote fazer a leitura. Pelo que percebi na pergunta era uma missa bem frequentada, portanto, nada justifica esta ação. Penso que o intuito era valorizar a pessoa que leu. No entanto, se ela não pôde se integrar na assembleia litúrgica, sua participação na liturgia também não tem sentido algum, muito menos para prestar-lhe uma homenagem projetando-a num telão fazendo uma leitura. Seria preferível fazer uma homenagem a esta pessoa noutro momento, até mesmo no tal encontro, menos na santa missa. Seria menos vergonhoso para quem preparou a liturgia.
Espero ter ajudado a sanar a dúvida.
Em Cristo
Pe Luis Fernando

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Porque o neopentecostalismo é pagão?


Hoje (04/05) de manhã eu li no facebook a seguinte frase: "Deus é fiel e fará acontecer os planos dele na minha vida". De correta esta frase só tem uma afirmação: "Deus é fiel". Todo o resto é um grande erro teológico e antropológico. Este pensamento está presente na atual pregação neopentecostal tanto dentro da Igreja Católica por meio da R.C.C. quanto fora, nas seitas ditas cristãs. É cantada em verso e prosa nas canções dos atuais cantores, cantoras e "ministérios". Ou seja: esta frase exemplifica um pensamento corrente, mágico, intervencionista e determinista da parte de Deus.

Em primeiro lugar, as pessoas colocam tudo na conta de Deus: se são infelizes, Deus vai dar a felicidade; se são pobres, Deus vai dar riqueza; se são mal amadas, Deus vai dar o casamento perfeito; se estão doentes, Deus vai dar a cura, etc. Lidam com Deus de maneira infantil, como uma criança que não pode lidar com os problemas da vida e precisa do super-pai para colocar-se entre a pessoa e o tal problema e evitar que a pessoa sofra. Este pensamento mágico é infantilizante. Não prepara a pessoa para enfrentar o sofrimento com fé, mas, fá-la sofrer ainda mais esperando uma intervenção de Deus que pode nunca vir, porque uma coisa é a vontade da pessoa e outra é a vontade de Deus. De vez em quando ambas coincidem, outras vezes não. Aqui chega-se a outro problema: e quando a intervenção divina não ocorre? Quando a dívida é cobrada? Quando a doença ceifa a vida da pessoa? Quando não aparece o príncipe encantado? O mais provável é que a pessoa antes fervorosa, por causa da motivação dos pregadores da teologia da prosperidade, agora arrefeça na fé e afaste-se da Igreja ou da seita. Caridade aqui nem se cogita. Esta espécie de fé é de tipo individualista, intimista e egoísta. É a fé do inferno, como falava padre Léo numa de suas memoráveis palestras.

Não há nada mais anti-cristão do que o neopentecostalismo que para mim é paganismo puro. A fé cristã genuína baseia-se na Revelação de Deus aos homens por meio de seu Filho Jesus Cristo imolado, ressuscitado e glorificado. Ele ensina que o culto em espírito e verdade que é a Santa Missa glorifica a Deus e santifica o homem. Tal culto é o ato litúrgico da fé, por parte do homem, e é a dispensação da graça por parte de Deus. É uma ação teândrica: o homem vai a Deus porque Deus veio ao homem! Esta sempre foi a compreensão da Igreja. A lei da fé é a regra da oração: Lex orandi, lex credendi. As obras da fé - que também se transformam em oração - são a segunda parte da vida cristã. Logo, a fé cristã genuína tem dois traços. Um horizontal e um vertical, como a cruz. A fé e o culto, que é a Missa, ligam o homem a Deus por meio de Jesus o nosso mediador; a seiva da vida divina é doada do tronco da videira aos ramos, os homens, os liga entre si e aumenta o vínculo da caridade: É a eucaristia que alimenta a caridade. Logo, fé, Missa (oração pessoal) e caridade são marcas indeléveis do ser cristão. O paganismo neopentecostal das "promessas" solapa tudo isso. Nele não há sacerdócio ordenado pelos sucessores dos apóstolos, que são os Bispos, porque os pastores a si mesmos outorgam o grau/título do que quiserem. Assim, não há Eucaristia; não havendo sacerdócio nem eucaristia não há o Corpo Místico presente sacramentalmente. Não havendo o corpo místico, o culto neopentecostal, pentecostal, evangélico e protestante (em grande parte) é apenas um juntamento de pessoas com a mesma finalidade, como acontece num show de rock, por exemplo. Não sendo Corpo Místico de Cristo - Igreja - o ato de orar do neopentecostal é fundamentalmente individual, ainda que ladeado por milhares de pessoas. Não bastasse isso, a prática do culto neopentecostal é uma sucessão de histeria, emocionalismos, sentimentalismos e reforço da presença do mal na vida das pessoas com a finalidade explícita de ganhar dinheiro com isso tudo. Assim, não restou nada de cristão ao culto/oração neopentecostal para requererem esta identidade. A marca da Igreja desde o princípio foi a eclesialidade, a comunhão dos santos, a dimensão eclesial da fé. São pagãos travestidos de cristãos que usam a bíblia para justificar as suas práticas individualistas.

O pensamento mágico neopentecostal

O pensamento mágico é determinista: se estou numa má fase da vida, então é porque Deus já preparou algo bom para mim, logo, a fase boa chegará com certeza nesta vida intra-mundana, pois, segundo a pregação da teologia da prosperidade - que é materialista - a resposta de Deus e o cumprimento das tais "promessas" pessoais se dá nesta vida intra-mundana e Deus, quando quer, resolve tudo num passe de mágica!

Os pregadores da teologia da prosperidade pegam trechos aleatórios da escritura para justificar promessas pessoais, individuais, onde não há. As promessas de Deus que há na Sagrada Escritura, se referem à salvação de Israel - no Antigo Testamento - e a salvação do gênero humano, no Novo Testamento. Não há espaço para promessas individuais. No máximo, a Sagrada Escritura permite o indivíduo se reconhecer nalguns trechos quando o Senhor se dirige aos seus eleitos, por exemplo.

Por isso, fora da Igreja Católica a interpretação das Escrituras só pode conduzir a erro, pois, sem a Igreja não há possibilidade das Escrituras serem compreendidas no sentido em que foram escritas, e ainda mais a interpretação fica sujeita ao arbítrio do indivíduo que não possui o caráter eclesial das escrituras e da vivência da fé batismal para interpretá-las.

Imagem de internet. Fonte: Google
A morte da liberdade no determinismo cego

O determinismo é o fim da liberdade. Ou o ser humano é livre, sua vida é livre e seu destino final incerto, fruto de suas decisões pessoais livres; ou o ser humano já tem uma vida pre-determinada por um ente (seja ele Deus ou quaisquer outro) e então não adianta o ser humano fazer nada, pois, o fim está já previsto. Esta espécie de determinismo cego entrou na espiritualidade cristã por meio do quietismo do século XVII e é muitíssimo usado nas seitas neopentecostais. O Papa Inocêncio XI condenou esta doutrina como herética e seu fundador, Molinos, ficou em um Mosteiro de Roma até sua morte.

Se Deus já vai fazer tudo pelo ser humano, se já vai restaurar tudo, dar a vitória aqui nessa vida intra-mundana, tudo vai ficar bem apesar do que dizem os sinais presentes da vida pessoal, então não precisa o ser humano fazer nada, pois, Deus vai fazer tudo. Onde fica a liberdade pessoal e a providência divina? Este pensamento parece querer determinar a Deus o que Ele deva fazer. Caso Ele não faça, estaria indo contra suas próprias promessas. É tão obtuso que tenta enclausurar até Deus, como se tal fosse possível!

O erro antropológico e teológico desta teologia está em querer justificar tudo o que acontece de negativo na vida humana como fora dos planos de Deus. Per se nega a cruz de Cristo, pois, ela é o fruto inexorável do sofrimento do Divino Redentor permitido por Deus. Nega Deus e sua providência, nega as divinas consolações que acompanham o cristão durante a santa viagem crucificada na carne, nega o valor redentor do sofrimento e, por fim, declara-se um ato de apostasia da verdadeira fé cristã.

Logo, todo cristão deve rejeitar frontalmente estas frases de facebook, estas letras de músicas mundanas travestidas de religião. Devem rejeitar estas pregações, pois, não traduzem a verdadeira fé católica. Elas são o produto de uma religião materialista, da religião do homem, da religião que não provém de Deus.


sábado, 2 de maio de 2015

Uma análise da música: Sacramento da Comunhão


Eu penso que os letristas católicos, sobretudo quem possui o caráter do sacramento da Ordem, devem compor suas canções a partir de alguns critérios. O primeiro, sempre, será a inspiração para determinada letra. Sim, pois, é o Espírito Santo quem inspira o compositor católico. No entanto, o Espírito Santo não pode inspirar algo que confunda os fiéis de Cristo. Por isso, o segundo critério deve ser igualmente importante: é o critério teológico, pois, a matéria humana pode influir no momento da composição e "inspirar", junto com o Espírito Santo, determinada canção. A matéria humana é por vezes ambígua. Por isso, para evitar as ambiguidades que a "carne" pode sugerir é que se faz necessário um critério teológico no momento da composição e publicação das canções católicas.

Há algum tempo que venho me sentindo desconfortável com a canção "Sacramento da Comunhão" cantada, alhures, a plenos pulmões Brasil a fora. Vou fazer algumas considerações que eu penso ser pertinentes. Sem tirar o mérito de quem a compôs, pretendo contribuir para que no futuro, algumas ambiguidades possam ser evitadas com a finalidade de contribuir para o sempre necessário amadurecimento da fé cristã adulta.

Primeira estrofe: Senhor, quando te vejo no sacramento da comunhão / Sinto o céu se abrir e uma luz a me atingir / Esfriando minha cabeça e esquentando meu coração.

Segunda estrofe: Senhor, graças e louvores sejam dadas a todo momento / Quero te louvar na dor, na alegria e no sofrimento / E se em meio à tribulação, eu me esquecer de ti / Ilumina minhas trevas com Tua luz.

Refrão: Jesus, fonte de misericórdia que jorra do templo / Jesus, o Filho da Rainha / Jesus, rosto divino do homem / Jesus, rosto humano de Deus

Terceira estrofe: Chego muitas vezes em Tua casa, meu Senhor / Triste, abatido, precisando de amor
Mas depois da comunhão Tua casa é meu coração / Então sinto o céu dentro de mim

Quarta estrofe: Não comungo porque mereço, isso eu sei, oh meu Senhor / Comungo pois preciso de tiQuando faltei à missa, eu fugia de mim e de Ti / Mas agora eu voltei, por favor aceita-me

As ambiguidades desta canção começam pelo relevo ao sentir, expresso duas vezes. Quando se fala no sentir, nesta canção, fala-se de sentir o céu. O Catecismo diz que um dos frutos da Eucaristia é a antecipação da glória celeste dos Filhos de Deus (CIC, n. 1402). Os que dela tomam parte já participam da vida bem-aventurada dos santos em Cristo e aguardam com expectativa a segunda vinda do Messias quando, então, Cristo será tudo em todos (CIC, n. 1404-1405). O "céu" do qual fala a letra da música é certamente esta realidade que a doutrina da Igreja expressa, no entanto, o "céu" não é um sentir, mas, a posse já presente desta realidade futura através do Sacramento. Cito aqui Frei Inácio Larrañaga no seu livro "Busco a tua face": a fé não é sentir. É saber. Os nossos sentimentos não servem de parâmetro para nos mostrar a “face” de Deus. Ela continua oculta no véu, Ele permanece completamente Absoluto, o Totalmente Outro, independente do homem por Ele criado. O homem adulto na fé relaciona-se com Deus porque Deus É, sem mais adjetivos ou atributos, sem malabarismos psicológicos para justificar sua existência ou sua falta, simplesmente porque Ele É Absoluto, o Totalmente Outro, aquele que permanece para sempre habitando numa luz inacessível ao domínio humano. A isto damos o nome de FÉ.

Jesus, nos últimos momentos de sua agonia foi esplêndido. No Getsêmani, derrubado ao chão, suava sangue e clamava a Deus, seu Pai, que lhe afastasse aquele cálice. Tudo era como um delirium, um sentimento fortíssimo de angústia, tristeza imensa e abandono, uma evidência clara de solidão e desespero. No entanto, Ele venceu o delirium, tomou posse de sua consciência, levantou-se e já de posse de todo seu ser de Pessoa travou o último combate: o da certeza do saber contra a evidência do sentir e neste último combate venceu a fé, venceu a certeza para além de toda evidência: “Pai, não vejo nada. Tudo é treva ao meu redor. Sinto-me desesperado, minhas sensações internas me dizem que estás longe e que entre mim e ti há um abismo infernal, um vazio cósmico, um imenso nada. Entretanto, apesar de todas as sensações eu sei que sempre estás comigo, por isso “não se faça o que eu quero, mas o que tu queres”; e na mesma ordem interior, no alto do Gólgota, ele se ergue em si mesmo para dizer: “em tuas mãos entrego a minha vida”. É muito fácil deixar-se levar pelo rio das sensações. Difícil e estreita, porém, é a estrada do saber da fé.

O "sentir" presente nesta canção é um reflexo do nosso tempo. Porém, o que seja "esfriando a minha cabeça e esquentando o mu coração" eu não compreendo fora deste mesmo sentir. Ele arrasta consigo a quarta estrofe que padece da síndrome do Filho Pródigo. Ninguém sob este céu é merecedor do Augustíssimo Sacramento da Comunhão! Ninguém! No entanto, o Senhor nos purifica de nossos pecados e nos introduz na sala dos Filhos para o Banquete Escatológico da Eucaristia cujo alimento espiritual é o próprio Senhor no Sacramento. Este saber joga para longe aquele sentir. Este saber joga para longe a síndrome do Filho Pródigo. O enfraquecimento psicológico dos cristãos não conduz à uma sadia consciência da falta e da culpa com a consequente conversão e confissão dos pecados para uma vida nova. Pelo contrário, o sentimento de inferioridade reforçado por letras como esta faz a pessoa sentir o remorso da culpa e torna-a uma culpa mórbida que nada produz de efeito positivo na vida da pessoa, senão choro, sentimento de culpa; depois mais choro e mais sentimento de culpa.

Este mesmo sentimento de inferioridade expressa-se na segunda estrofe. É louvável querer louvar sempre o Senhor, seja na alegria ou na tristeza, na dor ou na abundância. Porém, há certa prostração entregue nesta letra que, depois, ecoa na quarta estrofe, como citei acima, na síndrome do Filho Pródigo. Esta resignação diante do sofrimento não é cristã. Há um valor expiatório no sofrimento humano quando ele é integrado e orientado ao Cristo crucificado, como ensinou o Santo Papa João Paulo II na Carta Apostólica Salvifici Doloris n. 19. No entanto, louvar o sofrimento por ele mesmo é masoquismo, é gostar de dor e cultivar sofrimento desnecessário.

Por fim, o restante da canção me parece bem concatenado, com inspiração em frases ou pensamentos de santos como São Padre Pio e mesmo na Sagrada Escritura e documentos recentes do Magistério Ordinário dos Papas. No entanto, vale sempre lembrar os dois critérios para se compor: inspiração, sim, mas, teologia também!