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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Catequese Patrística. A rocha da fé de Pedro e a Eucaristia: fundamentos da Igreja

Santo Agostinho de Hipona

Os Santos Padres Santo Hilário de Poitiers (século IV - 368) e Santo Agostinho de Hipona (Século V - 354 a 430) escreveram, respectivamente, um Tratado sobre a Santíssima Trindade e um Tratado sobre o Evangelho de São João - que estão na leitura patrística desta semana no Ofício Divino (a 4ª semana da páscoa) - e que constituem uma verdadeira catequese patrística sobre os fundamentos da fé católica. Lembremo-nos que nos séculos IV e V a Igreja já tinha se debatido com as heresias cristológicas e trinitárias, sendo a maior delas o arianismo, e já tinha formulado os dogmas da fé católica, os pilares da fé cristã de todo o mundo. Ponho-me agora a colocar alguns trechos destes dois textos magníficos.

Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, Bispo. (séc. V)
A Igreja foi fundada sobre a pedra que foi objeto da profissão de Pedro

Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, por meio de quem criou todas as coisas. Sem deixar de ser Deus, ele se fez homem e se tornou o mediador entre Deus e os homens: o homem Jesus Cristo (1Tm 2,5). Os que acreditassem nele e se purificassem de seus pecados pelo batismo, ficariam livres da condenação eterna. Viveriam na fé, na esperança e na caridade, atravessando como peregrinos este mundo cheio de tentações difíceis e perigosas. [...] Assim procede a Igreja, feliz na sua esperança, enquanto vive entre as misérias desta vida; é obra da Igreja universal** que o apóstolo Pedro representava figurativamente pela primazia do seu apostolado. [...] Era por natureza um homem, por graça um cristão; por graça mais abundante um apóstolo, o primeiro dos apóstolos. Mas Cristo disse a Pedro: Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado no céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt 16,19). Em virtude dessas palavras Pedro passou a representar a Igreja universal, que neste mundo é sacudida por toda espécie de provações, como se fossem chuvas torrenciais, raios e tempestades que se lançam contra ela. Contudo, não desaba, porque está alicerçada sobre a pedra de onde Pedro recebeu o nome.
 O Senhor diz: Sobre esta pedra construirei a minha Igreja (Mt 16,18). Era a resposta a Pedro que afirmava: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo (Mt 16,16). Jesus quer significar o seguinte: sobre esta pedra, que foi objeto da tua profissão de fé, eu construirei a minha Igreja. Aquela pedra era Cristo (1Cor 10,4). Sobre este alicerce também Pedro foi edificado. De fato, ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí colocado: Jesus Cristo (1Cor 3,11).
Portanto, a Igreja, que tem Cristo por alicerce, dele recebeu, na pessoa de Pedro, as chaves do Reino dos céus, quer dizer, o poder de ligar e desligar os pecados (Jo 20,23). Esta Igreja é livre de todos os males, porque ama e segue a Cristo. Mas, segue a Cristo mais de perto na pessoa daqueles que lutam pela verdade até a morte.

** universal no sentido de Católica (katholicos) e não da seita universal fundada por Edir Macedo.

Do Tratado sobre a Trindade, de Santo Hilário, bispo (séc. IV)
 A união natural dos fiéis em Deus pela encarnação do Verbo e pelo sacramento da Eucaristia

       Proclamamos como uma verdade que a Palavra se fez carne (Jo 1,14) e que na ceia do Senhor nós recebemos esta mesma Palavra que se fez carne. Então, como se pode negar que permaneça naturalmente em nós aquele que, ao nascer como homem, não só assumiu a natureza da nossa carne como inseparável de si, mas também uniu sua natureza humana à natureza divina no sacramento em que nos dá a comunhão do seu corpo? Deste modo todos somos um só, porque o Pai está em Cristo e Cristo está em nós. Portanto, ele está em nós pela sua carne e nós estamos nele; e através dele, o que nós somos está em Deus.
        Em que medida estamos nele pelo sacramento da comunhão com sua carne e com seu sangue, o próprio Cristo o afirma quando diz: Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis, pois eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós (Jo 14,19.20). Se com estas palavras o Senhor pretendia apenas significar uma unidade de vontade, por que então estabeleceu uma certa gradação e ordem na realização de tal unidade? Assim procedeu para acreditarmos que ele está no Pai pela natureza divina, e que nós estamos nele pelo seu nascimento corporal; além disso, ele também está em nós pelo mistério dos sacramentos. Ensina-nos desta forma a perfeita unidade estabelecida por meio do único Mediador. Nós estamos unidos a Cristo, que é inseparável do Pai, e Cristo, sendo inseparável do Pai, permanece unido a nós. Deste modo, temos acesso à unidade com o Pai. Porque se Cristo está por natureza no Pai, por ter sido gerado por ele, e se nós por natureza estamos em Cristo, então de certa maneira, também nós estamos por natureza no Pai através de Cristo. 
        Até que ponto esta unidade é natural em nós, o mesmo Senhor o declara: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6,56). Realmente, ninguém poderá estar em Cristo, se Cristo não estiver nele; isto é, Cristo somente assume em si a carne daquele que recebe a sua.
        O Senhor já havia ensinado antes o mistério desta perfeita unidade, dizendo: Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim (Jo 6,57). Vive, portanto, pelo Pai; e do mesmo modo que vive pelo Pai, também nós vivemos pela sua carne.
        Toda a comparação deve ser adaptada à inteligência de tal modo que o exemplo proposto nos ajude a compreender o mistério de que tratamos. Esta é, portanto, a causa da nossa vida: Cristo, pela sua carne,habita em nós, seres carnais, para que nós vivamos por ele como ele vive pelo Pai.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Somos uma Igreja profética



Recentemente celebrávamos a Páscoa de Nosso Senhor. O Tríduo Sacro foi precedido de uma quaresma de jejum, penitência, caridade e oração na qual se incluiu a recepção dos sacramentos para uma vivência frutuosa na Páscoa. Então veio o Sacro Tríduo e nele celebramos a Paixão, a Morte e a ressurreição do Senhor. O Domingo da Ressurreição amanheceu radioso de alegria jubilosa! Era Páscoa de novo! Tudo era novo! Saíamos das trevas densas da Sexta-feira para uma manhã iluminada e esplendorosa. Ao chegar na Igreja para celebrar o Mistério, achei-me às voltas com turíbulo e incenso, vestes, paramentos, leitores, cantores, uma pompa modesta, mas, bem organizada para o Domingo da Ressurreição. Logo avançamos pelo corredor central da Igreja em procissão, genuflecti diante do Santíssimo Sacramento no Tabernáculo, osculei o altar que é o lugar também da minha imolação e iniciei a Santa Missa. Na proclamação do Evangelho não poderia haver texto mais prosaico. Aquelas mulheres chorosas foram ao túmulo de manhã com saudade do Senhor, certamente. Chocadas por sua morte violenta. Cheias de gratidão e carinho se perguntando: quem rolará a pedra para nós? Entretidas. Tagarelando sobre os "entretantos" e os "entrementes" quando lá chegaram e o viram aberto. Quem rolou a pedra? Pensaram! Quem? Voltaram correndo. Avisaram aos onze. Dois deles foram também ao túmulo e lá chegando encontraram tudo como elas tinham descrito. Era prosaico demais, familiar demais para ser o relato da ressurreição do Filho de Deus! Então como que uma luz divina iluminou minha inteligência e eu entendi. A Igreja é a profecia da ressurreição futura. Ela é profética em si mesma! Como aquelas mulheres Ela olha o túmulo vazio e volta correndo a avisar os desavisados. Depois, ela mesma convicta anuncia: Ele ressuscitou! Sim! Desse modo prosaico e familiar, rude até, ela anuncia: "O meu Senhor vive"! A Igreja vive a profecia da recapitulação de todas as coisas no Cristo na vida simples do cotidiano, na tagarelice das mulheres, na pressa dos homens ela anuncia: "O meu Senhor vive"! Eu estava radiante! Era como se eu tivesse ouvido este anúncio pela primeira vez! A celebração da grande vigília de Páscoa havia me despertado para esta realidade altíssima que o Domingo de Páscoa iluminou: somos Igreja profética, a Igreja dos últimos dias, a Igreja dos últimos tempos que contempla o único sinal tangível da ressurreição - o túmulo vazio que não precisa de nenhum outro porque o Espírito Santo nos mostra em nossos corações a convicção desta fé pascal como outrora mostrara aos Apóstolos e a estas santas mulheres: "Ele ressuscitou! Não está aqui!" - e o anuncia a todos os homens para que sejam salvos!