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sexta-feira, 20 de março de 2015

Babilônia, Babilônia e Babilônia!


São três Babilônias. A primeira o império do século VI antes de Cristo. A segunda aquela descrita no Apocalipse de São João. A terceira a novela da rede globo. Três Babilônias. Vamos falar de uma a uma em partes.
O Império Babilônico retratado no Antigo Testamento – e que serve de referência para as duas outras comparações – sobreviveu de 626 a 539 antes de Cristo. Seu Imperador Nabucodonosor invadiu Jerusalém em 587 a.C. Naquela invasão destruiu-se o Templo, levou-se os objetos de ouro do Templo, os dignitários da cidade foram levados para o exílio e o povo ficou na miséria.
“Junto aos rios da Babilônia” (Sl 136,1), Tigre e Eufrates, deve ter sido escrito o segundo relato da criação e da queda (Gn 2,4b-3,25) durante o período do exílio. É desse período também o segundo Isaías (Is 40-55), alguns trechos de Ezequiel, entre outros. A religião Babilônica era muito forte. O povo no exílio estava exposto a ela. Assim, o papel dos profetas e sacerdotes no exílio foi essencial para manter a fé e a esperança do povo de Israel no único Deus. Tendo sido visto o Império Babilônico como um destruidor e sanguinário, a vitória de Ciro, o Persa, em 539 a.C. deu ao povo novo alento e Ciro escreveu um édito permito o regresso do povo a Israel em 538 a.C. (cf. 2Cr 36,14-23; 2Rs 25,1-30; Esd 1,1-3).
Esta experiência para o povo de Israel é quase tão forte quanto o período de escravidão no Egito e marcará sua vida para sempre. “Fomos escravos no Egito” tornou-se um refrão na boca do povo. “O Senhor nos libertou com mão forte e braço estendido”, igualmente, para referir-se ao período da escravidão e ao período do exílio.
Tendo em vista este contexto vital da experiência do povo de Deus, o autor do livro do Apocalipse no capítulo 17 identifica o Império Romano, a Roma imperial com a Babilônia violenta e sanguinária do século VI a.C. Por volta do ano 94 d.C. os cristãos estão sendo perseguidos na perseguição de Domiciano, Imperador. O autor do Apocalipse olha para o Império e vê nele os mesmos traços destrutivos da antiga Babilônia. Cidade/Império cruel, perseguidor e sanguinário. Aquela Babilônia matara degolados os sete filhos do Rei de Israel, Sedecias (ou Joaquin), na sua frente e depois vazara seus olhos antes de o levar cativo para o exílio. Esta Babilônia persegue e mata os cristãos pela segunda vez (tendo sido a primeira perseguição no tempo de Nero de 64 a 66 d.C.). Por isso ela é igualmente sanguinária, bebe o sangue dos mártires, é prostituta e os reis da terra a servem em virtude de seu poder político dominador e de sua influência. A descrição da prostituta de Apocalipse, ou a Babilônia, é a de uma suntuosa mulher que embriaga-se de luxúria, volúpia, “com o sangue dos mártires e com o sangue das testemunhas de Jesus” (Ap 17,6). Por esse motivo, a “Babilônia” do Apocalipse é o inimigo a ser vencido pelo Cordeiro no capítulo seguinte, 18. Os mártires por ela mortos são os dos capítulos 6 e 7 que clamam vingança e cantam o Hino de Triunfo sobre a perseguição e a morte por causa do Nome de Jesus.  Alguns despreparados intérpretes da sagrada escritura aplicam este trecho erroneamente a Igreja Católica por não terem conhecimento exegético e teológico apropriado.
Por fim, chegamos a nova Babilônia. Aquela que está passando na Tv. Não chega a ser sanguinária porque é covarde. Não chega a ser um Império, porque é ilusória. Mas é perversa, mentirosa, voluptuosa e luxuriante. Ela não tira a vida física das testemunhas do Cristo, mas, lhes tira a fé genuína e verdadeira o que torna seu pecado pior. Ela não invade nosso país destruindo, matando, vazando os olhos e levando para o exílio. Ela invade nossas casas na paz, prendendo os olhos de quem a vê e leva para o exílio, para longe de Deus e dos valores do evangelho. Ela não nos rouba tesouros de prata e ouro. Ela rouba-nos o tesouro da fé cristã verdadeira, dos valores cristãos que fizeram do Ocidente a sociedade mais evoluída do mundo. Esta Babilônia é perversa, tão perversa quanto aquela mulher do Apocalipse. Ela perverte o valor da família, o sagrado valor do ato sexual, o sagrado valor do corpo, a instituição matrimonial e zomba descaradamente do nosso país majoritariamente cristão. Cospe-nos na face, zomba e ri na certeza de que estará sempre e mais uma vez “impune”.
Quanto a nós, cabem-nos duas atitudes. A primeira é o clamor do Apocalipse: “Saí dela ó meu povo, para que não sejais cúmplices de seus pecados e atingidos por suas pragas; porque os seus pecados se amontoaram até o céu e Deus se lembrou de suas iniquidades. Devolvei-lhe o mesmo que ela pagou, pagai-lhe o dobro, conforme suas obras; no cálice em que ela misturou, misturai para ela o dobro. O tanto que ela se concedia em glória e luxo devolvei-lhe em tormento e luto, porque, em seu coração dizia: “Estou sentada como rainha, não sou viúva e nunca experimentarei luto...”. Por isso suas pragas virão num só dia: morte, luto e fome, e pelo fogo será devorada, porque o Senhor Deus que a julgou é forte (Ap 18, 4-8).

A segunda atitude é experimentarmos a nós mesmos. De nada adianta escandalizar-se diante de um beijo de duas mulheres na Tv quando o casal dito cristão coloca filme pornográfico em seu quarto, quando participa de experiências de troca de casais, quando usa palavras chulas, de baixo calão; quando vê, promove e divulga pornografia; quando a pessoa mantém vida dupla em relações extra-conjugais. Este escândalo seletivo é hipócrita, falso, e faz tanto mal ao mundo, à família e à Igreja quanto aquele! “Seja o seu sim, sim, e o seu não, não. O que passa disso vem do maligno” (Mt 5,37).

quinta-feira, 19 de março de 2015

Deus, o pai, São José e o mundo contemporâneo

Homilia numa missa na solenidade de São José
 19/03/2015

Poucas coisas na vida são tão belas quanto ser pai. O pai e o padre são dois pais, porque são as cabeças de suas respectivas famílias. Um o chefe do lar, o outro pai espiritual de uma multidão de fiéis.A paternidade é um dom que nos aproxima de Deus. Ele é O Pai, em primeiro lugar, porque pela contemplação de sua própria imagem gera eternamente o Filho, Jesus Cristo. Também porque, pleno de amor, cria o homem e o eleva, pela graça, à mesma condição de Cristo, adotando-nos. O que Jesus é pela natureza, nós o somos pela graça conquistada na Cruz: filhos de Deus.O pai da terra é espelho do Pai dos Céus. É bem verdade que nossos filhos não são gerados pela contemplação de nós mesmos, mas de um modo analógico podemos trazer essa figura para a nossa realidade. Nossos filhos são o fruto do amor entre o pai e a mãe, o esposo e a esposa, o marido e a mulher, e ambos são uma só carne pelo matrimônio. (Rafael Brodbeck). Fonte.
         Assim, o pai tem uma nobre missão: criar e educar os filhos segundo a lei de Deus e amar sua esposa como a sua própria carne. "Não no sentido mundano desse termo" (idem), mas, no sentido paulino: como a si mesmo.
         Nesta solenidade de São José, pai adotivo de Jesus, homem justo e íntegro na fé aos moldes dos patriarcas de Israel, quero trazer a nossa meditação para ele e voltar novamente para nós e o nosso tempo. São José é o modelo e exemplo de virilidade e paternidade. No entanto, falar de São José e do papel do pai de modo abstrato é um desserviço a fé. Por isso me permitam fazer um passeio com vocês. Hoje nesta solenidade você provavelmente veio à missa para ouvir palavras agradáveis e bonitas. Eu as teria para dizer, mas, prefiro denunciar um grande mal que tem passado despercebido por muita gente. Desde Simone de Beauvoir (séc. XX) nenhuma acusação é tão frequente nos círculos feministas quanto a opressão machista do homem sobre a mulher, do patriarcado sobre o matriarcado; do sexo padrão sobre o sexo frágil. A emancipação da mulher que tem sido levada a cabo à revelia do homem enfraquece a mulher, pois, ambos são complementares e não antagonistas. Desde a revolução cultural do século XX que o homem ocidental, cristão e heterossexual tem sofrido enorme pressão para deixar seu lugar e seu espaço. Vê-se isso claramente hoje em dia. No atual sistema de pressão para impor nova engenharia social, o indivíduo a ser destruído é o homem ocidental, cristão e heterossexual. Não tem mais valor diante desse novo padrão de comportamento a ser imposto nesta engenharia social fabricada: ser pai, monogâmico, fiel, cristão, viril e heterossexual. Isto posto, o papel do pai sofreu enorme abalo no século XX.
         A nova onda da homossexualidade modinha; dos novos padrões de comportamento imposto, de uma luta de classes alimentada por partidos políticos e ideologias anticristãs que seriam sinônimos da luta entre as raças e os sexos; a ideologia de gênero que reza – segundo Simone de Beauvoir profetizou – que ninguém nasce homem ou mulher, mas, que o “gênero” nada mais é que uma construção social e mental independentemente das características físicas e biológicas do ser humano; tudo isto é a guerra perpetrada contra o homem ocidental, cristão e heterossexual em suma, contra o pai. Por isso, a dita emancipação propagada e defendida da mulher, do negro, do índio, do trabalhador e do homossexual são apenas uma propaganda que esconde um projeto de reengenharia social pensada para subverter toda a sociedade ocidental. A isto chamamos revolução porque é a perversão absoluta da justa ordem natural e a ela precisamos combater, pois, o declínio do papel do homem na sociedade e na família equivale ao aniquilamento da família como a conhecemos e por consequência, da Igreja. Entre o homem e a mulher deve haver harmonia e não competição, complementaridade e não sobrepujança, divisão e distinção de papéis no lugar de confusão de papéis para, assim, salvar ambos e salvar a família.
         Este projeto de reengenharia social quer eliminar o Pai da sociedade ocidental. Primeiro, sua luta é na esteira do ateísmo para negar a existência do Pai do céu que dá sustentação a paternidade humana e em segundo lugar sua luta é no campo das filosofias ocidentais materialistas e ateias do existencialismo, do marxismo e seus consequentes desdobramentos. Como diz um velho adágio: o que a filosofia prepara nas ideias, o direito sanciona nas leis. É assim que vemos a defesa das leis anti-naturais nas telenovelas, nos filmes, nas músicas, no cinema, na internet, nas escolas, etc, para forçar o Congresso Nacional aprova-las. Toda a mentalidade contemporânea tem sido formatada para esta revolução: banir Deus, banir o Pai, banir o homem.
         Um psicoterapeuta italiano chamado Claudio Risè escreveu uma obra na qual ele ilustra o tamanho do buraco existencial na vida e na personalidade do ser humano na “inaceitável ausência do pai”. Ao eclipse do homem – tanto no sentido metafórico da humanidade toda como no sentido real do indivíduo masculino – segue-se ou antecede-se o eclipse de Deus. "A figura paterna dá à vida do homem uma direção, realizada mediante a renúncia ao caos, à desmedida, ao mal". A relação com o pai liga o homem diretamente a Deus. O eclipse do pai terreno, da lei, da ordem, da justa medida, do rumo certo e do objetivo corresponde ao eclipse de Deus na sociedade contemporânea e realiza-se assim a derrocada do homem. O Papa Emérito Bento XVI na homilia de natal do ano 2012 disse o seguinte:
Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento científico por exemplo, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua. Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros.
         O que tem São José a ver com tudo isso? Ele é o modelo de homem, de pai e de crente. Mais do que nunca, voltemos a José não só na devoção, mas, muito mais na imitação. Ele foi modelo de homem porque foi honrado e íntegro, de pai porque cumpriu sua tarefa com maestria cuidando do filho adotivo e da esposa com devoção, de crente porque em todas as coisas confiou em Deus. Homens aqui presentes, pais, eu falo a vocês. Não tenham medo nem vergonha de serem homens, viris, pais e profundamente convictos de sua fé. Nem sua família, nem a Igreja e muito menos a sociedade quer homens fracos e indecisos. Não tenham medo de ter clareza e ensinar aos seus filhos a distinção correta das coisas da vida somente porque a escola e o modismo politicamente correto diz que isto é segregação e preconceito. Sejam os grandes defensores de seu lar, de sua família. Os educadores e apoiadores dos filhos, os companheiros e protetores das esposas, os devotos convictos de Deus e da Igreja. Sejam justos, prudentes, sensatos, sóbrios.
Olhemos todos a São José e lhe imitemos as suas virtudes mais heroicas. Aquelas que nos inspiram cuidado e zelo não só pelas coisas de Deus, mas, também pela família terrena que Deus nos deu a mim e a vocês. Fujam do materialismo ateu e estéril, dos modismos e rótulos do tempo corrente. Defendam a sua família dos ataques do mundo hostil a Cristo, a Igreja e aos valores do evangelho. Eduquem, ensinem, corrijam, digam não, pois, esse é o vosso papel como pai. Jovens tenham audácia de serem santos virgens como São José que, embora tendo uma esposa, não foi capaz de tocá-la por causa de seu grande temor a Deus. Enquanto não chega o seu casamento seja um homem casto, incapaz de tocar o corpo de sua amada como um cavalheiro honrado, naquela espera ansiosa do dia em que se tornarão uma só carne pelo sacramento do matrimônio e então os corpos santificados se unirão para ser aqui na terra uma expressão daquela união espiritual entre Cristo e a Igreja.

         Mulheres, no fim dessa homilia uma palavra a vocês. Vocês e seus maridos são parceiros e não concorrentes. Sejam para seus maridos a doce companhia de Maria de Nazaré, para seus filhos a fortaleza da mãe das dores e para a Igreja e a sociedade o encanto da mãe das graças. Que Deus nos abençoe a todos e São José interceda por nós e por toda a Igreja. Amém.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Católicos não católicos


Há dois níveis no exercício da religião no nosso tempo. Analiso aqui o comportamento dos ditos cristãos ou católicos "ecléticos". O primeiro nível se forma por aqueles que estudam, leem, compreendem a doutrina e a vivem abstraindo os gostos pessoais. Por isto, os que compõem o primeiro nível costumam falar de uma coisa incômoda chamada verdade, objetividade, pois, dela se convenceram através da simples demonstração racional, objetiva, das verdades da fé cristã. Estes aceitam ou rejeitam algo conforme esta verdade objetiva e racionalmente demonstrada e não simplesmente conforme o gosto pessoal subjetivo.

O segundo nível se forma por aqueles que compreendem a religião através de um viés personalista. Para este segundo nível a religião passou para o âmbito privado e se encontra no restrito mundo da decisão pessoal ou dos gostos pessoais legitimada por um subjetivismo escrachado desprovido de qualquer crítica racional: "eu acho que está certo e pronto... eu quero assim porque acho melhor... eu faço assim e o meu jeito está certo". Para o segundo grupo ou segundo nível, as pessoas do primeiro nível parecem ser intransigente. Os ditos cristãos do segundo grupo costumam lembrar-se de alguns trechos do evangelho que lhes são cômodos nas suas argumentações, como por exemplo o mandamento do amor ao próximo. Mas, parece que só conhecem esse trecho da Bíblia! Pela falta do argumento racional em geral apelam para a falácia do sentimentalismo o que - em se tratando de Brasil - geralmente funciona.

Coisas muito incômodas como fidelidade, conversão, mudança de vida, mandamentos, regras, normas, pecado acabam ficando para trás tendo sido suplantadas pela miscelânea religiosa composta pelo gosto pessoal do "cliente". Assim, nota-se uma grande discrepância entre o discurso oficial da Igreja Católica e a prática de muitos fiéis. Enquanto o sacerdote fala de verdades eternas, o fiel católico pensa na frivolidade de suas "fornicações religiosas" porquanto lhe apraz. A religião assim torna-se um verniz, um faz-de-conta, que não converte ninguém, não muda ninguém, mas, apenas vende sentimentalistmo e subjetivismo barato que faz chorar e arrepiar e nada mais. O espantoso é que há muitos sacerdotes, freis, freiras que alimentam este subjetivismo e personalismo religioso tendo eles mesmos esta mesma consciência relativista.

Assim, o sacerdote pode falar de adultério no matrimônio, mas, não pode falar de "fornicação" ou "adultério" religioso pois, vai contra a onda politicamente aceitável e correta do tempo. O sacerdote não pode falar da prostituição religiosa, fato que lhe impinge a pecha de fautor de palavras de baixo calão. Não se pode mais falar de pecado, de fidelidade religiosa, de mudança de vida, de deixar os ídolos falsos por causa de Deus porque fere a sensibilidade dos católicos-espíritas ou dos católicos-protestantes e perde-se fiéis.

Que as Igrejas fiquem vazias se esta for a qualidade de gente que frequenta nossas missas! Pois, a Verdade não está para a apreciação e aprovação pessoal de cada um (cf. Gn 2,15-17; Ap 3,15-16; Jo 6,66-70; Jo 14,6). A Verdade está para ser obedecida porque Ela é a "luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo" (cf. Jo 1,9), Ela é a verdadeira liberdade e a vida (cf. Gl 5,1; Jo 16,7-11). Muito embora eu mesmo saiba que sou uma voz que clama no deserto. Há muito pouca decisão pessoal em deixar a vida cômoda do pecado para a exigência da f'é católica. Sinto que em breve não haverá mais espaço para nós no mundo. Em breve.

terça-feira, 10 de março de 2015

O demônio e a possessão


Textos retirados de: FORTEA, J. Antônio. Summa Daemoniaca. Tratado de demonologia e Manual de exorcistas. São Paulo. Paulus: 2010

Quais são as causas da possessão?
As causas da possessão são: a) o pacto com o demônio; b) assistir a sessões espíritas, cultos satânicos ou esotéricos; c) um filho ter sido oferecido por sua mãe (ou seu pai) a satanás; d) o malefício (trabalhos de magia negra e bruxaria).
Viver com um possesso não supõe nenhum perigo deste tipo. A possessão não é contagiosa. Como se vê, fica possesso aquele que abre uma porta para o demônio. Uma coisa é o pecado, outra coisa é a possessão. Há que se abrir expressamente uma porta para o demônio para que haja uma possessão. No entanto, a possessão só acontecerá se Deus o permitir. Não importam os ritos que se façam para que uma pessoa morra ou fique possessa; se Deus não o permite não acontecerá nada. E, certamente, quanto mais vida espiritual e de oração a pessoa levar, mais protegida estará contra o maligno. Pode acontecer que Deus permita a possessão a uma pessoa inocente sem sua própria culpa. Isto não é teoria. Já o foi comprovado inúmeras vezes na história. Deus permite-o porque muitas vezes os males do corpo são uma fonte de benção para a alma. E após uma possessão a pessoa fica muito mais agradecida a Deus e com uma vida espiritual muito mais profunda.
Por outro lado, há que se dizer que quem pratica malefícios contra a saúde de outras pessoas encontra o castigo divino muito depressa. Poucas coisas atraem tanto o castigo divino como praticar malefícios contra os outros.
O que o demônio ganha ao possuir alguém?
Se o demônio sabe que possuir alguém supõe o risco de que no final essa possessão produza bens maiores para a alma da pessoa, então, porque possui? Além disso, a possessão não supõe um desmascaramento do demônio? Não lhe seria mais proveitoso manter-se oculto?
O demônio, no entanto, possui uma pessoa por um único motivo: fazer sofrer. Ele procura o sofrimento dos outros e na possessão pode fazê-lo de modo direto. O demônio não resiste a obter algo seguro aqui e agora. Resistir à tentação requer virtude, e não há virtude no demônio, por isso ele procura sempre o seu benefício aqui e agora.

Porque é que Deus permite que existam possessões?
Deus o permite porque: a) mostra-se a verdadeira religião católica; b) é castigo para os pecadores; c) é um grande proveito espiritual ao final; d) produz saudáveis ensinamentos para os homens.
No entanto, presenciar um exorcismo não é prova de que quem o vê vá ter fé depois. Muitos viram os milagres de Jesus e, no entanto, não acreditaram nele. Assim, não se pode estranhar que muitos atribuam as possessões a causas naturais ou, ao menos, desconhecidas.

O que acontece durante uma possessão?
Basta que haja transe (a pessoa sair de si e perder o controle sobre si mesmo) ou aparição da personalidade demoníaca para que falemos de possessão. Há casos de possessão em que não se manifestará nenhum fenômeno extraordinário. No entanto, os fenômenos mais frequentes são: o demônio entende qualquer língua, incluindo as línguas mortas. Obedecerá, no entanto, às ordens que lhe são dadas pelo sacerdote exorcista mesmo em vernáculo.
Ainda que não costume ser frequente, os possessos costumam falar outros idiomas, normalmente desconhecidos dos possessos, independentemente da idade ou inteligência do sujeito possesso. Mostram uma grande força, às vezes durante muitas horas podendo, inclusive, levantar várias pessoas ao mesmo tempo. Também se pode dar conhecimento de coisas ocultas. Mas, o fato mais extraordinário de todos e o mais frequente é o da levitação.

Um possesso pode matar ou suicidar-se?
Embora alguns possessos em estado de transe demonstrem grande agressividade, é muito raro provocarem algum tipo de mal. A experiência demonstra que os possessos olham com ódio, colocam as mãos em riste como garras, mas, normalmente isso não passa de uma tentativa.
O possesso em estado de transe pode fazer muitas coisas: ficar quieto com os olhos em transe, convulsionar-se, gritar, etc, mas não costuma fazer coisas contra si mesmo ou contra os outros pela simples razão de que Deus não o permite. Deus impõe limites que o demônio – embora queira – não pode ultrapassar.

Porque Deus não aniquila o demônio?
Os demônios são uma manifestação do poder de Deus no seu atributo de Justiça. Portanto, a mera existência dos demônios proclama que a lei de Deus não se ofende em vão. Eles são uma prova de que a santidade da Trindade é inviolável. O que viola essa santidade deforma-se a si mesmo transformando-se em demônio. Há uma violação dessa lei e dessa santidade que é reversível, mas se a vontade opta por não retornar dessa violação, então a deformação torna-se eterna. Daí que os demônios deem glória a Deus. Dão glória a Deus com sua existência e glorificam-no sem querer, do único modo que podem: sendo demônios. Eles são a terrível prova da ordem divina.
O fato de existirem mostra o poder de Deus, capaz de conter e castigar seres tão poderosos. A sua existência também é uma demonstração da santidade divina, pois na história de cada um deles está o fato de Deus como um Pai os chamar tantas vezes ao arrependimento. A sua existência mostra a sua sabedoria, a sabedoria da sua ordem, uma ordem na qual até eles são aceites. Teria sido melhor que nunca tivessem existido demônios, mas, a criação é mais rica e variada com a existência desse tipo de entes maléficos.
Até os seres disformes enriquecem a criação com sua mera presença. Uma catedral não seria mais bela se arrancássemos os seres monstruosos e híbridos esculpidos nos seus capitéis de gárgulas. Uma catedral gótica não é mais bela por esculpir apenas seres belos. Tudo tem o seu lugar. Cada escultura mostra algo de quem a esculpiu. Os demônios, como se disse, mostram a justiça terrível de Deus, mostram a sua santidade e a sua sabedoria ao criar tal ordem na criação. Uma ordem tão perfeita que nem o mal pode destruir arquitetura tão divina. Teria sido preferível que não existisse o mal, mas existindo embeleza a catedral disposta pela mente da Santíssima Trindade. A catedral tem as suas altas torres, mas, também as suas criptas e lúgubres subterrâneos. O que foi dito pode parecer muito poético, pois há momentos em que a teologia só pode expressar com poesia certos conceitos. E, voltando a férrea lógica dos conceitos teológicos, há também que considerar que os demônios não sofrem em todos e em cada um dos momentos. Inclusive, eles gozam do dom da existência. A existência é um dom. E embora sofrendo em muitos momentos, embora vivendo uma vida afastados de Deus, os demônios gozam do grau mais baixo de felicidade, a felicidade de existir. Sofrem em muitos momentos, mas noutros gozam da potência racional do conhecimento. De maneira que, inclusive para eles é preferível existir que não existir.
O ser é um bem, ainda que seja sofrendo. Se se deixasse de existir deixar-se-ia de sofrer, mas perde-se-ia a possibilidade de todo o bem, por pequeno que fosse. O bem da existência no meio do sofrimento é pequeno, mas real; e quem perde a existência perde tudo.

Legislação da Igreja sobre o ato do exorcismo
Cânon 1172
§ 1. Ninguém pode legitimamente fazer exorcismos em possessos, a não ser que tenha obtido licença peculiar e expressa do Ordinário local (Bispo).
§ 2. Essa licença seja concedida pelo Ordinário local somente a presbítero que se distinga pela piedade, ciência, prudência e integridade de vida.

Um fiel pode orar, em particular, contra o poder das trevas?
Sim, pode. O “ritual de exorcismos” de 1998 traz no seu apêndice orações que os fiéis podem fazer em particular na luta contra os espíritos do mal. São as ladainhas do Santíssimo nome de Jesus e da Virgem Maria, a ladainha de todos os santos, a invocação de São Miguel Arcanjo, entre outras. Tornou-se ainda popular na Igreja a oração de São Bento por aqueles que portam a sua medalha. No entanto, os meios mais eficazes de se combater o mal e o demônio ainda são os mesmos desde o início da Igreja: A comunhão, a confissão, a participação assídua a Santa Missa e a oração do santo rosário.