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quinta-feira, 27 de março de 2014

O ateu, o inferno e Deus.

Epicuro (341-270 a.C.) propôs a seguinte aporia: “Deus ou quer impedir  os males e não pode ou pode e não quer; ou não quer nem pode;  ou quer  e pode.  Se quer  e não   pode,   é   impotente   –   o   que   é impossível   em Deus.   Se   pode   e   não quer   é   invejoso   –   o   que,   do  mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem   pode,   é   invejoso   e   impotente; portanto, nem mesmo é Deus. Se quer e pode, que é o único conveniente a Deus, de onde provém, então, a existência dos males? Por que não os impede?”.
Ainda no plano teológico há o dilema de Bayle, autor do Dicionário   histórico   e   critico,   publicado   em  fins   do   século XVII, no qual se lê: “Se Deus previu o pecado de Adão e não tomou medidas para evita-lo, faltou-lhe boa vontade para com o homem  (…).  Se  fez  tudo que pôde para  impedir  a queda do homem  e   não   o   conseguiu,   não   é   todo-poderoso,   como   o supomos”. Caem assim por terra dois atributos divinos: o poder e   a   bondade   e   introduz-se   a   suspeita   de   um Deus  mau.  E olhando os horrores dos campos  de concentração,   levanta-se, conforme Hans Jonas, a suspeição de um Deus impotente…
Semelhantes argumentos ainda hoje são invocados contra a existência de Deus por aqueles que admitem os atributos da onisciência, da onipotência e da bondade. Face ao mistério com que se defrontam, enveredam pelo caminho do agnosticismo ou ateísmo emocional, quando não se declaram ateus confessos.



Vamos enfrentar o problema do mal, da bondade de Deus, de seu poder e a existência do inferno.

Porque Deus não impede os males se o pode fazer? Há três tipos de mal: físico, ontológico e material. O mal físico e material são próprios da finitude da criação. As coisas criadas - todas - tem um ciclo de vida, como nós aprendemos lá na antiga quarta série do primário: tudo o que vive nasce, cresce, se desenvolve e morre. Este processo da zoe (gr. = vida) é sua dinâmica. O ser criatura supõe certo grau de imperfeição. Assim, a madeira possui nódulos, um corpo humano desenvolve câncer, em um terreno íngreme aparece a voçoroca e no mar as baleias famintas devoram cardumes inteiros de peixes: a fome, a doença, a não plenitude da natureza, etc. "Mas, se Deus é todo-poderoso então poderia ter criado o homem perfeito". Em tese sim. No entanto, o conceito "perfeição" nesta proposição está condicionado à perfeição divina. O homem nunca será Deus! Nunca terá as prerrogativas da deidade, nunca será todo-poderoso e perfeito exatamente por ser criatura da divindade. Esta é frustração de Adão e Eva no Paraíso. Descobrem-se tão humanos quanto o resto da humanidade, ou seja, o autor sagrado escreve assim: "e descobriram que estavam nus". São humanos. Simples humanos sem os "poderes" de Deus. "Mas, porque Deus não nos criou iguais a si". Um grego pré-socrático intuiu esta resposta. Parmênides de Eléia cogitou a existência do ser-que-é e não pode não-ser. A existência do ser-que-é, eterno, imutável, equidistante, ingênito, exclui a possibilidade da existência de um segundo ser-que-é, o que implicaria a mudança, o devir, o não-ser, o movimento e o tempo. Aqui se intui porque Deus não nos criou semi-deuses: porque Ele é o ser-que-é e nós estamos condicionados ao devir, ao movimento, à mudança; porque é uma impossibilidade lógica existir dois Absolutos.

E os acidentes da natureza? São próprios do estado de devir do ser criado. Um vulcão entra em erupção, o mar produz as marés em virtude da gravidade da lua, os continentes se movem, o planeta está em constante devir. Mas, Deus não os poderia evitar para que vidas humanas não se perdessem? Deus sustenta o que ele mesmo criou, ainda que exista a morte. A morte e a finitude da matéria não é o fim da vida. Os filósofos da Physis já haviam pensado algo similar: o eterno retorno (depois retomado por Nietzsche). A fé cristã vai além. Uma pessoa que teve câncer e morreu não foi vencida, mas, saiu vencedora. A diferença entre o ateu e o cristão é que onde o ateu vê desespero o cristão vê paz e serenidade. Assim é o ateísmo em face da falência humana e da morte: A bela contemporaneidade criou o viço humano mais belo... Mas, também a bomba atômica e o pessimismo de Nietzsche, a frustração de Feuerbach com o mundo do espírito e o materialismo ateu marxista colimado no existencialismo. O homem vive na angústia da existência (Sartre) porque sabe que é um ser para a morte (Heiddegger) e por fim, nada. O nada absoluto. O niilismo. A angústia do nada, da morte e do vazio. Neste contexto é compreensível que a morte seja o inimigo a ser batido em face da angústia que ela gera e por não ter uma resposta para a morte é bem típico do homem encontrar um outro para colocar a culpa. Neste caso, o ateísmo encontrou Deus como o culpado de sua angústia. Quase o ouço gritar: "Porque Tu, ó Poderoso, não me livras da angústia de ser livre e de ser mortal? Porque não nos fizestes pré-determinados?! Porque Tu, ó Poderoso, não me livras da angústia da morte e do desespero sem que precise me entregar a Ti? Porque não me fizeste como Tu para de Ti não precisar, nem a ti nada mendigar, mas, de mim somente. De mim somente?!".

Outra questão pertinente à suposta perfeição: Porque o homem opta pelo mal? O mal ontológico está na consequência da escolha e eleição dos falsos bens, ou daqueles bens que aparentemente são Bons. O Bem só pode ser compreendido quando relacionado ao Absoluto. O Bem Absoluto. O que dista do Bem Absoluto ou dele diverge não é o Bem. Qualquer bem para sê-lo é preciso estar relativo ao Bem. O mal ontológico é, pois, uma escolha humana e não uma imposição de Deus.

Afinal, Deus quer ou não quer? Deus Pode ou não pode?

Deus quer e Deus pode livrar o homem do mal. Só que não compreenderemos isto de modo claro sem o aporte da revelação. Em Jesus Cristo a libertação que Deus faz do homem é, sobretudo, uma libertação substancial a partir do centro de decisão de cada pessoa humana. No judaísmo o centro de decisão é denominado "coração". Sabemos, no entanto, que é a consciência. Jesus fala às consciências para libertar o homem de si para o outro, de si para Deus e para a liberdade em si mesmo. Logo, Deus pode libertar o homem, mas, Deus não é um mágico fazendo mágicas: fazendo tsunamis desaparecerem antes de rebentar na praia ou fazendo sofrimentos e dificuldades desaparecerem dispensando a luta humana. Deus sustenta o homem por dentro tendo um câncer, lutando contra as intempéries da natureza ou no dia-a-dia mais rotineiro. A isso costumeiramente dá-se o nome de fé. O Deus-Mágico que dispensa o empenho humano não existe senão nas alucinações neoateístas.

Porque Deus não impediu o homem de cair?
Entendendo Adão e Eva...
O Livro do Gênesis não foi escrito para ser uma crônica dos dias antigos. Quem estaria lá no Paraíso com uma caderneta para anotar o que Deus disse e o que Adão e Eva fizeram? Moisés?! O autor do relato da criação e da queda no Gênesis tem preocupações muito mais extenuantes do que simplesmente dizer que um homem e uma mulher comeram um fruto. Tinha perguntas a serem respondidas: de onde veio o mal? Se o homem é bom, porque ele erra? Se o homem erra, mata, é desonesto, porque ainda continua fazendo o mal a outrem? Porque existe o mal? Com essas perguntas a serem respondidas, Deus inspirou o autor sagrado a escrever o relato da criação e da queda.

Em tempo: Não nego que Adão e Eva tenham existido corpóreamente, realmente. Faltam evidências bíblicas e na revelação, contudo, para explicar como o gênero humano desenvolveu-se depois de Caim e Sete.

Logo, Deus não poderia "impedir" o homem de pecar porque o pecado é uma operação da liberdade do homem. Se Deus fizesse o homem e a mulher incapazes para o mal, tê-los ia feito com a vontade perfeita e o conhecimento pleno de todas as coisas, o que seria incompatível com o ser-do-homem sujeito ao devir. Assim são os anjos, por exemplo. Não estão sujeitos ao devir como o ser humano. Eles têm conhecimento pleno da perfeição de Deus por isso seu pecado é irrevogável. Antes de tudo, Deus não é impotente face à liberdade do homem. Ele simplesmente respeita a sua própria escolha e suas leis: escolheu dar-nos o livre-arbítrio.

E o inferno?
O neoateu late sem parar: “Deus criou o diabo”. Para início de conversa: se um ateu afirma a inexistência de Deus, como que o inexistente cria algo?! Bem... Ignoremos esta aporia. O neoateu ignora ou quer ignorar, não sei, que foram os anjos que se rebelaram contra Deus por sua própria vontade e escolha. Parece que nada entendem o que significa a palavra "consequência". Parece que vivem no mundo de Alice onde não importa se uma bigorna cai na cabeça do desenho animado, ele sempre sairá vivo no próximo episódio. Então, imediatamente, vociferam advogando em causa própria, quase pedindo "pelo amor de Deus" não me mande pro inferno: "seu deus não pode ser bom - se é que ele existe - porque se ele fosse realmente bom não condenaria ao inferno os que não creem nele".

Neoateu se Deus não existe pra vc e o inferno também não, porque se preocupar com ele?!
Ajudando o neoateu...

O Bom Deus permitiu que os anjos rebelados permanecessem vivos depois de sua rebelião porque ele não destrói a vida criada, mas, a mantém na existência. Deus é o Deus da vida e não da morte (Dt 30). O inferno é um estado da alma (na questão do inferno como lugar físico há algumas questões que não acho necessário colocar aqui) no qual os que recusam Deus vivem na eternidade a paga por seu pecado de rebelião. Por um ato no tempo uma pena eterna. Talvez fosse isso que Sartre quisesse explicar quando falou sobre a inevitabilidade da liberdade. Deus não pune aqueles que o rejeitaram com a pena do inferno. Ele respeita a escolha da liberdade humana até a última consequência. Se a pessoa não O quis durante a vida, é certo que também não o quererá depois da morte e Deus respeita esta escolha não impondo a quem o rejeita durante a vida a Sua presença na Eternidade. Ora, se o ateu negou a Deus durante toda a sua vida, porque ele o quereria depois da morte? Só para se livrar do inferno?! E agora, quem tem medo do inferno?! rsrsrsss...

Ah, mas temos o conhecimento imperfeito acerca de Deus, não há evidência material de sua existência... bla bla bla... O conhecimento que há acerca de Deus é suficiente para que o homem caminhe na retidão de consciência e de vida, aquela retidão necessária para se viver após a morte estas escolhas que se fazem em vida terrena. A Bíblia é um bom instrumento para o conhecimento de Deus. Também a reta Razão que não mente para si mesma, que não tergiversa, que busca a Verdade. Será que Agostinho encontrou a mentira quando, buscador incansável da verdade, encontrou em Deus A Verdade? Será que mentira para si mesmo afim de se auto-justificar, ele que percorreu os vários caminhos e filosofias de seu tempo? Ou Anselmo de Cantuária?! Ou Leah Libresco, ou Megan Holder, ou Joseph Fadelle, ou Pasteur, ou Robert Boyle, ou Mendell?! Será que esses homens e mulheres foram desonestos consigo mesmos, mentindo às suas próprias consciências, ou pior, se tornaram cristãos e católicos por medo do inferno? Não haveria nada de melhor ou de maior que o próprio inferno que os fizesse mudar sua concepção de mundo? Não posso crer na primeira hipótese, a da desonestidade. Só me resta crer na segunda.

Além do mais, a fé é a operação dos que apostam que o mundo não se encerra em si mesmos. É a operação daqueles que aceitam o salutar "E Se...". É a operação da dúvida salutar e da salutar hesitação. É a operação da esperança que mantém vivo o homem interior, a luta e o enfrentamento. Sim, há suficientes meios para conhecer Deus seguramente e despertar para a fé e o conhecimento.

Fides quaerens intellectum.
Credo ut intelligam!
A fé busca o entendimento. Eu creio porque entendo!

terça-feira, 25 de março de 2014

A teologia protestante e a deturpação da fé


"Sem fé é impossível agradar a Deus" (Hb 11,6). A fé cristã não é uma mera operação do intelecto ou uma operação cega dos sentimentos. A fé cristã é um encontro com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e a consagração total do ser-homem a ele. A fé é uma adesão pessoal a Deus-pessoa. Sua fé suporta o crivo de uma análise mais profunda ou é um mero verniz? O que se vê hoje nos nossos tempos é que a fé está cada vez mais rara em nossos ambientes ditos cristãos. A figura que encima este texto contém uma mensagem protestante eivada de teologia da prosperidade. A teologia da prosperidade é conhecida exatamente por negar a fé em Deus transcendente e na vida eterna e fixar-se na imanência da vida. Esta é, por exemplo, a mensagem da figura acima. Veja como a mensagem acima é discrepante com a verdadeira fé cristã: Nem toda humilhação é ruim para nossa alma. Deus pode permitir alguma provação pela via da humilhação para nos ensinar o que Ele quer, ou para nos purificar afim de nos tornar mais aptos a ouvi-lo, obedecê-lo... postagens protestantes como esta não tem nenhum valor de ensino Católico. Deus não tem correio pra mandar telegrama pra ninguém. Ele nos deu sua Palavra através da qual ele fala com quem quiser falar com Ele. Jesus foi quem mais se humilhou voluntariamente, Ele que nenhum pecado possuía (cf. Fl 1,8; Hb 4,15). Para cumprir perfeitamente a vontade do Pai Jesus passou por todas as humilhações e rebaixamentos sem, contudo, ser exaltado nesta vida. Diante dos seus, sua morte foi um fracasso. Desanimados com esse fracasso, os dois discípulos de Emaús iam embora para sua casa quando se depararam com Jesus no meio do caminho (cf. Lc 24). A exaltação de Jesus só se deu depois da cruz. Portanto, não há exaltação sem cruz. O cristão que quer fugir do sofrimento e da cruz não tem nenhuma fé cristã, nem pode dizer-se cristão de verdade!
É por isso que, ao entrar neste mundo, Cristo diz: "Não quiseste sacrifícios e oferendas, mas formaste-Me um corpo. Holocaustos e imolações pelo pecado não Te foram agradáveis. Então Eu disse: Eis-Me aqui [...] para fazer a tua vontade" (Hb 10,5-7)
Nós desejaríamos ver os milagres de Jesus com nossos olhos da carne, ver, tocar. Mas, se víssemos as obras da fé onde estariam os méritos da fé? Não disse Jesus a Tomé: "Tu crestes porque vistes. Bem-aventurados os que creram sem terem visto?" (cf. Jo 20,19). A fé, portanto, não consiste em VER, mas, em experimentar. Os olhos da carne podem enganar-nos. Nossos sentimentos podem enganar-nos. A fé, porém, não nos engana.

Da fé nasce o amor: delicadeza de alma para com o próximo e Deus, a caridade, o Temor do Senhor. É a fé que nos explica o sentido da vida e da morte, do sofrimento e da vitória, das humilhações e das derrotas, das frustrações e das angústias, das alegrias e das conquistas. É a fé que coloca tudo isso de joelhos face àquele que é o único Absoluto. É a fé que ordena todas essas coisas para aquele fim último de tudo que é Deus. É a fé. Somente a fé. Daí vê-se porque São Paulo tenha sido tão incisivo: sem fé é impossível agradar a Deus. Isto se deve pelo fato de que sem a fé o homem se coloca no lugar de Deus e coloca Deus como seu devedor, como o faz a hedionda teologia protestante da prosperidade que desfigura a fé tirando Deus de seu lugar e colocando o homem e seus desejos no centro de tudo.