Páginas

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sobre soldados gregos gays e a existência de Deus


Você abre o Facebook e lê uma afirmação: "Soldados da Grécia antiga eram incentivados pelo exército a serem gays, porque, se eles se amassem eles protegeriam uns aos outros". O caso seria para rir se não representasse a bestialidade das generalizações do ensino médio brasileiro.
Como você deturpa uma informação, a transforma numa afirmação e a molda a sua necessidade?
Platão quando escreveu a obra "O Banquete" fez esta afirmação que encima o epíteto supra mencionado. No entanto, isto não significa absolutamente que os soldados gregos eram incentivados PELO EXÉRCITO a serem homossexuais! Os poemas homéricos Ilíada e Odisseia são a base da religião e cultura grega do tempo no qual viveu Platão. Naqueles poemas, nos mitos gregos e em sua religião, os deuses - arquétipos dos seres humanos - não tinham relações homossexuais! Se isto fosse a areté grega - a virtude grega - deveria ser encontrado nos deuses em primeiro lugar, ou nos seus mitos relativos. A areté grega era algo próximo às virtudes masculinas da força moral, da boa disposição para o bem, da atitude virtuosa (fonte aqui). Quando a pessoa desconhece de história e filosofia acaba falando asneiras imensas! Voltando ao Banquete de Plaãto... o conteúdo do discurso de "O Banquete" não é a natureza da homossexualidade, mas, a natureza do amor como areté. Em "O Banqeuete" Platão (pela boca de Sócrates) discursa sobre os tipos de amor, desde o Eros pandêmio (mera erotização sexual e viciosa) até o Eros celeste que, na sua compreensão, seria o tipo mais elevado de amor, ou, a virtude do amor. Todavia, ainda que isto tenha sido dito por Platão, não é certo que esta fosse a primeira preocupação da cultura grega ou do próprio Platão, uma vez que o casamento e os filhos eram o primeiro bem de um homem (vide Odisseia). Assim é que foram construídos os mitos de Hesíodo e Homero acerca das virtudes de um herói. Caso houvesse homossexualidade na Grécia, era tratada como de fato o é: algo marginal. Platão alerta quanto a degenerescência do amor homossexual (eros pandêmio) em "O Banquete", tanto quanto acerca dos outros tipos de amor. A preocupação do homem grego é a virtude (areté) e não o vício. O vício era combatido e a virtude, a honradez, a força, a excelência e a glória elogiadas. Logo, não há sustentação para a campanha gay dos nossos dias nos escritos de Platão. Estude para saber argumentar. Grito não convence inteligências!

Outra do dia foi a seguinte:
Um amigo meu me chamou no Facebook para eu responder a uma postagem de um seu contato, ateu. A postagem dizia o seguinte:
"RELIGIÃO É PARA AQUELES QUE NECESSITAM QUE ALGUÉM LHES DIGA O QUE FAZER" (link aqui).

Esta frase poderia ser simplesmente respondida pela psicanálise. A pessoa que a escreveu tem um tamanho medo da lei e da ordem que o pai lhe infringiu na infância que direcionou sua frustração para a religião. Certamente fora religioso/a antes. No entanto, quando emancipou-se e viu-se livre das "rédeas" do pai biológico - símbolo da lei e da norma - também se viu na necessidade de chutar o balde com Deus e de dizer corajosamente nas fuças: "Você não manda mais em mim, seu pai malvadão". Mas, vamos fazer de conta que quem escreveu essa imbecilidade fora uma pessoa séria e vamos levar a sério - ainda que seja uma pilhéria - esta afirmação para refutá-la.
1. Um exemplo. Ontem fiz uma cirurgia. Por horas a fio fiquei deitado num centro cirúrgico, apagado, nas mãos de um médico e uma equipe que poderiam ter feito comigo o que quisessem. Logo, precisei ACREDITAR que eles não me matariam. Isso não é fé religiosa, óbvio, mas é fé natural, crença natural.
2. O médico me disse para não descer da cama antes de 24h da cirurgia e eu tive que ACREDITAR que o que ele me disse era VERDADE para o meu PRÓPRIO BEM. Logo, há verdades fora de mim nas quais eu preciso acreditar para meu próprio proveito.
3. A julgar pela premissa da frase deste post, qualquer pessoa que aceita que outros lhe digam o que fazer é religiosa. Bem, um ateu pode fazer uma cirurgia e nem por isso ele é religioso. Um agnóstico, idem. A FÉ é algo natural no ser humano. Crer em algo fora de si é o que de mais natural existe no homem. O ser humano não é auto-referente. O filósofo francês do século XVI, René Descartes, no "Discours de la metode" cunhou o conceito "je pense donc je suis", ou, "se penso, existo", mas isso não significa que o "ego" seja a referência última da existência, mas, o "pensée", ou, a razão que está acima do "ego", do eu. A razão é transcendental ao próprio eu e está fora dele porque existe no todo. A razão está no homem, mas não lho pertence. A razão é universal. Logo, nem o próprio pensamento tem origem somente no ser do homem, mas também fora dele.
Exemplo para os incautos: Quando nasci em 1978 já havia a razão universal (ou cultura humana) cultivada antes de mim. Não inventei nada, graças a Deus, e me esforço muito para não destruir aquilo que outros - mais inteligentes que eu - criaram. Logo, a razão está em mim, mas, não me pertence porque o conhecimento das coisas não é "meu", não foi cunhado por mim, apenas acessado, tomado.
Afirmar que "qualquer pessoa que obedeça a outrem" é religiosa é de uma falta de conhecimento tamanha da história humana que só pode ter sido escrito por um aluno de 6º ano, no máximo.
4. A QUESTÃO DE DEUS
A razão precede a fé. O ato de crer só é efetuado quando a pessoa mesma acede, pela condescendência da razão, ao ato de crer. Crer em Deus é o contrário de ser um autista social ou um autista emocional. Crer em Deus não é relegar a outrem as decisões de sua própria existência. Muito pelo contrário. É ter um fundamento sólido para tomar as próprias decisões e arcar com as consequências destas.
Porque crer em Deus? Porque é racional crer nalgo fora de si. Porque é racional crer em algo para seu próprio bem. Porque é racional saber que a existência das coisas precede o "eu", ao mesmo tempo que o sucede na ordem do tempo e das coisas. Porque a razão aceita que exista, fora do "ego", a realidade do "alter", do outro, do totalmente diferente de mim. Os que creem somente em si e no quem pensam de si mesmos estão nos manicômios convencidos de que são Napoleão e Maria Joaquina, ou na sociedade vivendo o autismo social e emocional.
Por outro lado, a fé religiosa e mais propriamente a fé cristã é dom de Deus. É Deus quem suscita no homem o dom de crer nele, ama-lo e servi-lo. Não ter fé pode significar não ter sido agraciado por Deus, ou , tê-lo sido e peremptoriamente recusado.
Por fim, crer em Deus é mais que ter certezas absolutas centradas no "eu sei" porque o "eu sei" é imensamente pequeno face ao "eu não sei", "eu desconheço", "eu duvido". É estar aberto à sadia hesitação quanto a existência de um Tu, diferente de mim, que pode ser maior que eu e ainda assim me amar. É estar aberto a um "porque não?"