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domingo, 24 de novembro de 2013

Os pusilânimes, os covardes e a coragem.


Acabei de rever o filme "O Resgate do Soldado Ryan", um excelente filme sobre a segunda guerra mundial na perspectiva do soldado, sem as querelas políticas e outros dados da guerra. Os primeiros 27 minutos desse filme ficaram famosos pela violência com que retratou o desembarque na Normandia em 1944, na praia de Omaha. Spilberg abusou de tripas e sangue. Sensibilidades à parte, quero escrever umas impressões que me ficaram do filme. É impossível não se emocionar com o fim romanceado, a morte do capitão Jhon Miller, suas palavras e a repercussão disso em toda a vida de Ryan. No entanto, não é sobre isto que quero escrever. Um personagem me passou uma impressão má - bastante emotiva também - e sobre ele quero dissertar.

É o soldado que recarrega as armas dos demais com munição. Ele, desde o começo da trama, não tem aptidão para o combate, é medroso e não tem prática de tiro. Passa entre as balas traçantes levando munição aos demais soldados. Cenas antes, ele e seus companheiros chegam a um radar abandonado e encontram soldados inimigos. No combate um companheiro morre alvejado e então capturam um soldado e o fazem prisioneiro. Este soldado, a quem doravante chamarei "recarregador" a título de identificação, intercede pela vida do inimigo. Poupa sua vida em vista de sua consciência moral. O soldado inimigo é então liberado após dramática discussão do grupo de soldados aliados. Esta cena realça sua moral ilibada que esconde, a meu ver, sua fraqueza interior.

O filme continua, a sua integração ao grupo acontece paulatinamente. Nalguns combates que antecedem o combate final este participa de modo marginal. No último combate do filme, para defenderem a ponte, então sua pusilanimidade e sua covardia afloram. Se coragem de se levantar para levar munição aos companheiros, os mesmos ficam desmuniciados. Sem coragem para subir as escadas e salvar seus amigos, eles são mortos por aquele que ele salvara a vida. Quando o inimigo passa por ele o fita nos olhos e lhe preserva a vida de modo indulgente.

Aqui retenho a narração do filme para adicionar um pensamento próprio: O que é a coragem? A coragem não é a falta de medo. A coragem é a resiliência para enfrentar o medo. Aquela disposição interior de não se deixar abater ou vencer pelo medo. A coragem e o altruísmo se aproximam na medida em que lançam o indivíduo para fora de si, para o auxílio do outro. A coragem e o altruísmo fazem do homem um ser nobre, capaz de atos verdadeiramente heróicos, como dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, de salvar da morte pessoas pobres e de poucos recursos. A coragem e o altruísmo são o caminho mais curto para o amor.

No entanto, falta coragem a este "recarregador". Ele é incapaz de sacrificar a própria vida em função do outro. É incapaz de ferir alguém e isto acabou acarretando a morte de dois - ou mais - companheiros. É pusilânime e fraco, covarde e irracional. No entanto no caso de guerra quem poderia acusá-lo? Naquele território de pressão qualquer um pode se tornar covarde, mas, e no dia-a-dia? E as pequenas covardias por medo do que os outros vão pensar? E as pequenas conveniências escrotas e pusilânimes? E quando não se tem coragem de ferir o inimigo por puro bom-mocismo ou, pior, por uma ideia relativista da hierarquia das coisas?

Há mais "carregadores" em nossos dias do que Millher, Richards, Michell ou Ryan. Vivemos num tempo no qual a pusilanimidade é aflorada, defendida e propagandeada. Um tempo no qual a coragem está por um fio e a covardia está mais do que nunca, presente. Vivemos num tempo de homens fracos produzindo sociedade fraca, personalidades fracas, relações fracas, decisões fracas, atitudes covardes. Fruto e filhos de uma época é nosso dever erradicar o mal dos campos nos quais estamos, como diria Gandalf. Este grande mal - a covardia e a pusilanimidade - precisam ser erradicados primeiro dentro de nós com uma conversão sincera e com honestidade, depois ao nosso redor cobrando dos que nos rodeiam menos covardia e mais coragem. Finalizo lembrando um adágio que leio sempre na internet: "quem poupa o lobo condena as ovelhas".

Viva Miller! Viva Ryan! Abaixo os carregadores!