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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Conflito de interesses: Quem mediará?


A notícia
O culto de celebração dos 85 anos da Assembleia de Deus na orla de Santarém, Pará, acabou em confusão e prisões. O inusitado da situação foi que a ordem de prisão partiu do pregador, no caso pastor evangélico e deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados. Um grupo de manifestantes protestou contra a presença dele na cidade no culto realizado ontem (30), empunhando bandeiras e gritando palavras de ordem contra o deputado e a favor da causa gay. Algo que fazia parte de um manifesto organizado pelo Grupo Homoafetivo de Santarém – GHS, pelo coletivo Rosas de Liberdade e pela União dos Estudantes Secundaristas de Santarém. Eles percorreram ruas da cidade pedindo a renúncia do pastor Marco Feliciano e decidiram ir ao culto protestar. O pastor, que pregava no momento, interrompeu o culto e pediu que eles fossem retirados do local pela Polícia Militar, avisando que já havia prendidos outros por perturbação. Enquanto defende a liberdade de culto, os manifestantes alegam liberdade de expressão, uma vez que o culto ocorria em local público [grifo nosso]. Os seguranças contratados pela igreja e os policiais tentaram retirar os manifestantes do local. Com a recusa deles, a polícia usou spray de pimenta e ocorreram agressões de parte a parte. No final, três jovens foram detidos por perturbação e resistência a prisão. Alguns outros dizem ter sofrido lesões causadas pelas agressões dos policiais.**
Meus comentários
Para que serve a Lei? Segundo o Novo Testamento, a Lei é propedeuta, professora, magister, pedagoga. Ensina o caminho que depois o amor/caridade concluirá e amadurecerá. Para quem vive na Lei da fé, da graça e no amor/ágape, a Lei já não se faz necessária pois que já foi inscrita em seus corações. Quem vive a lei da fé, da graça e do amor/ágape compreende que que é possível perder para ganhar (cf. Mt 16,25), que é necessário morrer para si, para os projetos pessoais, em nome de projetos maiores e mais nobres (cf. Fl 2,6-7); compreende ainda a nobreza e o valor que o outro representa e a nobreza e o valor de cuidar de quem está próximo, esquecendo-se de si e gastando o que é necessário para recuperar a vida degradada (cf. parábola do Bom Samaritano). No entanto, para quem não compreende e não vive o amor/ágape, a Lei em si mesma - ainda que possua força de coação - não consegue dar conta de situações como essa descrita nesta matéria. Porque? Inicio com uma resposta simples, mas não simplista: Porque não possui o "porquê", o "motivo". Os tempos nos quais vivemos é o tempo da tirania do indivíduo sobre o grupo. O controle do indivíduo sobre a vida social. O desejo do indivíduo sobrepujando o bem comum, a Lei, a moral e a ética. Há muitos anos atrás eu já escrevia que um País sem moral é um país fadado a morrer. Explico. O que dá força de coação à Lei senão a moralidade a ela intrínseca? O que dá legitimidade a uma Lei para ser cumprida senão a moral a ela subjacente, com que uma base, a sustentar todo o edifício Legal? No Brasil, atualmente, não há uma norma moral suficientemente forte capaz de obrigar todos a obedecer a Lei. As vadias desobedecem-nas tanto quanto os outros grupos esquerdóides em nome da "liberdade de expressão" elevada ao patamar de intocável. Qualquer Estado tem o direito de cercear a dita "liberdade de expressão" quando a "expressão livre" agride a outrem. Agredir não é um direito e não pode nunca ser um direito. Expressar idéias e convicções é uma coisa, agredir é outra completamente diferente. Assim se portam, por exemplo, os ateus de respeito que, embora não sendo cristãos e tendo lá suas críticas acerca do cristianismo, não precisam pendurar penicos e secadores na cabeça e sair nas ruas gritando "sou ateu, portanto, seja ateu", tampouco precisam quebrar crucifixos e outros atos igualmente reprováveis. Uma pessoa de bom senso polemiza, critica, argumenta. A falta de Razão (falência da Razão e não razões a nível pessoal) e de moral precisa do escândalo, da agressão, do grito, da raiva.
Voltando à ideia primeira...
Quem vai mediar os interesses pessoais ou entre grupos antagônicos? Quem vai dizer às vadias: "vocês estão erradas" ou aos manifestantes de Santarém: "vocês estão errados"? Na verdade, penso, impõe-se uma pergunta ulterior: Qual o critério verdade e erro atualmente no Brasil para que a Lei possa ser cumprida? Diante do relativismo crasso, escancarado, defendido e propagandeado, suponho que já não encontremos nenhum critério passando a impressão de que vivemos num país de qualquer um, num país sem lei, sem ordem. A pergunta sobre a mediação dos conflitos é tão antiga quanto os próprios conflitos. Segundo a tradição ocidental moderna, desde Hobbes e Rousseau ou mesmo antes, lançando raízes nos feudos, a tradição contratual ocidental é de que haja uma autoridade para mediar os conflitos de interesse. No Brasil o contrato social falhou imensamente porque a autoridade - digo, o Governo Brasileiro - é quem promove o conflito com a manipulação da linguagem e com o incentivo ideológico e financeiro aos grupos conflitantes (vide vídeos do Youtube mostrando agradecimentos dos movimentos LGBT às emendas constitucionais da CDH da Câmara, na gestão anterior, por repasse de grande soma de dinheiro). Assim, perdendo a capacidade de cercear a "expressão" que nestes grupos é sempre agressiva, o Estado brasileiro perdeu a capacidade de mediar os conflitos, porque perdeu o senso de certo e errado, o senso moral comum, básico, que aquela dona de casa analfabeta que mora no sertão nordestino possui. Para citar um texto da Bíblia nestas conjunturas:
Se saio pelos campos, encontro homens atravessados pela espada; e se regresso à cidade, eu vejo outros passando pelo tormento da fome. Até o profeta e o sacerdote perambulam sem rumo pela terra. Repelistes Judá, de verdade, e vossa alma se desgostou de Sião? Por que nos feristes de mal incurável? Esperamos a salvação; nada, porém, existe de bom; aguardamos a era de soerguimento, mas só vemos o terror! (Jr 14,18-19)

Conclusão
A presente reflexão tem o fito de trazer luz ao momento atual, não de trazer dúvidas. Quis registrar uma preocupação que ronda meu coração como uma sombra que se avizinha sorrateiramente trazendo consigo um medo de que algo pior nos aconteça nos tempos vindouros. Não tenho a menor pretensão de dar uma resposta a este complexo tema/conflito. Apenas de propor perguntas adequadas, reflexão pensada e ponderada.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Beijaço lésbico na chegada do Papa... e os pobres.

A vida funciona assim... uns são felizes e transparecem sua harmonia interior e exterior por sua felicidade fluida, verdadeira, interior, pacífica, não ostensiva, mas, amável, benfazeja e, no caso do cristão, evangelizadora. Estes são os que estão "de bem com a vida", os que não cobram da vida aquilo que a vida não tem o dever de lhes dar. Estes arrancam protestos dos que são infelizes, desarmônicos, falsos, belicosos, ostensivos, odiosos, malfazejos e destruidores do bem. Assim é este protesto das lésbicas se beijando, dos gays se comendo em plena passeata gay de SP, dos ateus se "desbatizando"... assim é o interior dessas pessoas. Cada um só pode dar o que tem. O Papa dá a fé em Jesus, pois é o que ele tem. Os gays se comem, porque é o que tem. As lésbicas se beijam, porque não possuem nada mais rico para dar de presente ao Papa. Os ateus se desbatizam (? seja lá o que isso signifique) e esse é o seu maior valor, mas, os pobres... os pobres amam o Papa, porque não sendo ouvidos, nem tendo protestos para fazer ou bandeiras para levantar, amam sem mais, sem porque, gratuitamente, e isso é tudo o que eles tem a dar ao Papa Francisco.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Nosso tempo em poesia


Houve um tempo em que se respeitava o pai por ser o pai. Depois isso mudou.
Houve um tempo em que se respeitava a mãe por ser a mãe. Depois isso também mudou.
Houve um tempo em que se respeitava o Governador, o Prefeito e o Presidente porque eram homens probos e íntegros. Mas, isso também mudou.
Houve um tempo em que ser identificado como arruaceiro fazia corar as faces de vergonha. Mas, a vergonha na cara também mudou.
Houve um tempo em que havia certo e errado. Mas, ao que parece, isso ficou num passado tão remoto que quase toca o início da modernidade.
Houve um tempo em que se respeitava a diferença, mas isto também mudou.
Houve o tempo da soberba da razão, mas isso também mudou.
Agora estamos noutros tempos.
Estamos no tempo do desrespeito descarado da autoridade face às exigências pessoais.
Estamos no tempo profetizado por Rui Barbosa no qual ser honesto é fator de se envergonhar.
Estamos no tempo no qual ser arruaceiro é condição para a medalha de bom-mocismo.
Estamos no tempo no qual o errado virou certo, a mentira virou verdade, o homem virou mulher, a mulher virou homem, e a sociedade virou massa de manobra ideologizada.
Estamos no tempo do eclipse da razão no qual, alguns "iluminados" pensam ter descoberto o ovo de Colombo do iluminismo tardio, no entanto, apenas sepultam mais fundo a boa e velha Razão.
Estamos no tempo, enfim, não da morte de Deus. Estamos no tempo da morte do homem. Tempo no qual ele é engolido por seu ego, sua volição, sua intemperança, sua frivolidade, sua falta de razão e também por sua falta de fé. El hombre has muerto!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ratzinger dá uma aula sobre o homem, a verdade e a cruz


RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. Herder Editora. 1970.

A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem. Descobre quem é Deus e como e o homem. Na filosofia grega existe um estranho pressentimento disto: a imagem do justo crucificado descrita por Platão. O grande filósofo pergunta qual seria a situação, neste mundo, de um homem totalmente justo. Chega ao resultado de que a justiça de um homem só se torna perfeita e comprovada, caso ele tome sobre si a aparência da injustiça, porque só então aparece que ele não segue a opinião dos homens, mas se coloca unicamente ao lado da justiça por ela mesma. Portanto, de acordo com Platão, o justo autentico há de ser um incompreendido e perseguido; aliás, Platão não receia escrever: “Então hão de dizer que o justo, nestas circunstâncias, será flagelado, torturado, amarrado, que os olhos lhe serão vazados a fogo e, finalmente, após todos estes maus tratos, será crucificado...” Este texto, escrito 400 anos antes de Cristo, sempre voltará a comover profundamente o cristão. Na seriedade da reflexão filosófica prevê que o justo perfeito no mundo deve ser o justo crucificado; pressentiu aí algo daquela revelação do homem que se realiza na cruz.
O justo perfeito, quando apareceu, tornou-se o crucificado, foi entregue à morte pela justiça; e isto nos diz impiedosamente quem é o homem: és de tal modo, ó homem, que não podes suportar o justo, és de tal modo impiedoso que o simplesmente amante (aquele que ama) se torna louco, espancado, rejeitado. Tu, como injusto, sempre precisas da injustiça do outro, para te sentires desculpado, não podendo, portanto, tirar proveito do justo que parece roubar-te essa desculpa. Eis o que és. João resumiu tudo isto no ecce homo! de Pilatos, cujo sentido fundamental é: esta é a situação do homem. Este é o homem. A verdade do homem é a sua ausência de verdade. O verso do salmista “todo homem é um mentiroso” (Sl 116 [115], 11) e vive alhures contra a verdade, já trai o que vem a ser o homem. A verdade do homem consiste em continuamente chocar-se contra a verdade; o justo crucificado torna-se assim, o espelho onde o homem se vê sem retoque. Mas, a cruz não revela o homem apenas, e sim também a Deus: eis quem é Deus, que se identifica com o homem até este abismo e que julga salvando. No abismo do fracasso humano descobre-se o abismo ainda mais inesgotável do divino amor. E assim a cruz realmente é o centro da revelação, de uma revelação que não comunica qualquer espécie de proposições, até então desconhecidas, mas que nos comunica e descobre a nós, revelando-nos perante Deus e revelando a Deus em nosso meio.

Digressão (minha)

O que é ser católico? Geralmente esta pergunta se vê respondida a partir do aparato externo da fé católica, sobretudo do culto. Então a resposta é: ser católico é ir à missa (oração-culto) é seguir os mandamentos da Igreja (Lei), seguir a Palavra de Deus (Revelação), obedecer ao Bispo Diocesano e ao Papa (Lei), obedecer a lei moral etc... Se tem feito a comparação entre os dois Papas, Francisco e Bento, partindo das características externas. No entanto, se formos observar a grande tradição litúrgica da Igreja, não podemos esquecer que ela lança raízes na Adoração e Louvor que o Filho presta ao Pai no serviço da humanidade: "Sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13,1). Este louvor e Adoração é estritamente interior e sua expressão externa é a cruz. Com o mistério da ascensão, Cristo Jesus penetra no Santuário Celeste donde jorra o rio de vida, conforme diz Apocalipse, donde jorra a vida da Igreja que é a cidade cujas colunas são os apóstolos inundada por este mesmo rio, donde jorra a verdadeira Liturgia e a verdadeira Adoração em espírito e em verdade, o verdadeiro culto. A roupagem externa não diz o todo do culto da Igreja. A roupagem externa não diz tudo do ministério do Papa. Tomar o ministério Petrino pelas vestes é reduzi-lo ao não-ser. São características secundárias, acidentais, não é o essencial. Talvez caberia aqui lembrar de Exupery: "o essencial é invisível aos olhos". A humildade do Papa Bento XVI não estava nas suas vestes ou nos sapatos vermelhos, tanto quanto a humildade do Papa Francisco não está nos sapatos pretos ou na cadeira que ele usa. O humilde não jacta-se de ser humilde, caso contrário isso não é verdadeira humildade, mas, soberba. Quando Maria proclama o Magnificat, ela reconhece que Deus, imenso, Onipotente, olhou para ela, a pequenina, a serva, sem soberba mas, com imensa gratidão: "a minha alma engrandece o Senhor... porque olhou a pequenez de sua serva". Não é isso que expressa Isaías? "Fui eu quem fiz todas as coisas e tudo me pertence, mas volto meu olhar para o pequenino de alma abatida que treme ao ouvir minha Palavra, diz o Senhor" (Is 66,1-2). Portanto, caríssimos, humildade não se mede em cadeiras ou sapatos. Se mede no coração, no olhar. Cada um dos dois tem personalidades diferentes. O papa Bento sempre foi um intelectual e mistagogo de grande envergadura. O Papa Francisco um grande pastoralista. Todos os dois, a seu modo, cultivam sem jactância aquela humildade e pobreza evangélica necessárias para entrar no Reino e nós devemos seguir seu exemplo.