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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aborto: uma verdade inconveniente.


"No fim dos anos 60 nasce a ideologia pro choice - livre escolha - em favor do aborto. Tal ideologia privilegia a busca do prazer e da auto-afirmação pessoal em detrimento do amor como dom e serviço à vida" (pg.923), opondo assim a mãe ao filho, o pai ao filho, a família, o matrimônio e a procriação como sendo instâncias estanques e não partes de um único e mesmo mistério. "O direito ao aborto é denominado de diferentes maneiras, sobretudo porque se quer esconder uma verdade cruelmente simples: mesmo que tal direito seja chamado com diversos termos, trata-se, todavia, sempre da morte da criança concebida e da destruição de sua vida" (pg. 200).

Para este fim, manipula-se a linguagem usando palavras que escondem o verdadeiro sentido e motivo do aborto. "A expressão interrupção da gravidez soa diferente de assassinato da criança concebida" (idem). Aceitando o direito ao aborto inverte-se a ordem do direito: ao invés de se tutelar a vida, tutelar-se-ia a morte, ao invés de culpabilizar o infrator da vida, culpabilizaria-se o infrator do dever de matar um bebê no útero da mãe. "Naturalmente é tutelado não aquele que é morto, mas aquele que mata. O crime de morte perde, sobretudo, na mentalidade comum, o caráter de delito" (pg. 201).

"Nos países onde o aborto é legalizado chegou-se ao ponto de pedir, dentro das normas internacionais, o direito das mulheres ao aborto seguro" isto introduz um problema novo, "porque os defensores do aborto começam buscar formas de matar a criança se fazê-la sofrer. Um comportamento de tal gênero é hipocrisia pura, revestida de tremendo cinismo, porque o propósito de tais intervenções pseudo-humanitárias é a morte não natural da criança concebida" (pg. 202). "A questão é apresentada como se existisse uma absoluta contradição e um insolúvel conflito entre o direito à vida da criança concebida e os direitos das mulheres. Afirma-se que atualmente os direitos da mulher não são mais que uma exceção à norma da defesa da criança concebida e que somente o direito ao aborto contrabalançará os fortes e unilaterais direitos da criança, sobretudo o seu direito à vida" (pg. 203). Aqui me parece Herodes caçando o menino Jesus em Belém e matando todos os infantes para conseguir lograr êxito.

"A nova era dos 'direitos' também introduziu um novo vocabulário internacional para facilitar a promoção desses direitos (pg. 570). Esta nova era conclui nas leis o projeto filosófico do iluminismo e, posteriormente, das filosofias anti-cristãs dos séculos XVIII e XIX. "Na primeira metade do século XVIII os filósofos eram deístas e usavam a linguagem da lei natural; na segunda metade, tornaram-se ateus e usavam a linguagem do interesse. Nos últimos 20 anos, a ênfase sobre os direitos aumentou significativamente graças às organizações internacionais e aos indivíduos que usam os right talk para impostar uma retórica de persuasão que reivindica: a) liberdades sexuais sem inibições; b) promoção e reconhecimento de uma vasta gama de relações extraconjugais; c) redefinição de 'família' como uma relação não restrita a uma relação de aliança exclusiva, fiel, entre marido e mulher; d) o direito incondicional ao aborto, à contracepção e às tecnologias de reprodução artificial. Todos esses direitos foram e continuam sendo defendidos por meio de uma linguagem doce, cheia de eufemismos estudados e de ambiguidades deliberadas" (pg. 570).

Exemplos de manipulação da linguagem:
Matrimônio se torna contrato;
Cônjuge se torna parceiro;
Família é qualquer ajuntamento de pessoas que habitem sob o mesmo teto com algum laço afetivo;
Discriminação se tornou o termo pejorativo por excelência. "As palavras qualificativas justo e injusto são ignoradas" e em lugar de se argumentar com referência ao objeto, se faz o argumento ad hominem da discriminação;
Defender os direitos da família se tornou retórica política conservadora;
Igualdade: a igualdade substancial entre os seres humanos se tornou argumento para reivindicar uma igualdade acidental;
A impossibilidade de julgar: "Temos o dever de formular juízo sobre a natureza moral de nossas ações antes e depois de sua realização" (pg. 584) bem como formar um justo juízo sobre a natureza moral das situações que se nos apresentam;
Abertura deixou de ser um processo de interpretação e avaliação a partir dos critérios preestabelecidos para tornar-se absorção de qualquer outra ideia "nova";
Gênero se torna cavalo de batalha das feministas contra o que elas consideram sociedade patriarcal de matriz abraâmica e seu lugar no discurso é substituir a definição do sexo;
Direito deixou de ser aquilo que eu devo a outrem para se tornar aquilo que outros me devem;
Dever deixou de ser aquilo que devo cumprir para se tornar a obrigação do Estado para comigo.

"Uma das distorções da realidade, fundamentais e mais características do movimento pro choice, reside na sua concepção da liberdade que exalta o indivíduo de modo absoluto e não o predispõe para a solidariedade, o pleno acolhimento e serviço ao outro" (pg. 925). "Ao invés de aceitar o primado da realidade sobre o juízo subjetivo, o movimento pro choice subordina a realidade extra-mental a seu próprio juízo. Ao invés de definir a verdade como a correspondência entre o juízo mental e a realidade objetiva, a define como adaptação da realidade à sua própria visão da mesma. O erro substancial é que 'todas as vezes que a razão humana, querendo emancipar-se de toda e qualquer tradição e autoridade, se fecha até às evidências primárias de uma realidade objetiva e comum fundamento da vida pessoal e social, a pessoa acaba por assumir, como única e indiscutível referência para as próprias decisões, não já a verdade sobre o bem e o mal, mas apenas a sua subjetiva e volúvel opinião, ou, simplesmente, o seu interesse egoísta e capricho" (pg 926/7).

"Ao invés de aceitar o primado do amor de Deus e do próximo sobre o egoísmo, a posição pro choice privilegia a autonomia individualista do egoísmo.
Ao invés de concentrar-se no amor altruísta e na bondade por aqueles para os quais a liberdade se orienta principalmente e de modo natural, concentram-se no exercício auto-referencial da liberdade de escolha.
Ao invés de aceitar o primado do amor sobre o prazer, o movimento pro choice prefere, ao amor altruísta e de sacrifício, o prazer autogratificante. A gravidez inesperada é descrita, antes de tudo, como um inconveniente.
Ao invés de aceitar a objetiva prioridade da vida sobre a morte, a posição pro choice sustenta a prioridade da morte sobre a vida.
Em vez de aceitar a visão bimilenar do ser humano como animal racional, político, social e conjugal, que vive em sociedade sob o governo de leis positivas baseadas na lei natural, os ativistas pro choice promovem a visão do homem como caçador do prazer, indivíduo centrado em si mesmo, que progride através da criação de leis baseadas mais em precedentes que na lei e nos direitos naturais. Num mundo liberado de Deus e de suas leis e sem necessidade de redenção, o homem é o redentor de si mesmo" (pg 928/9).

"O século XX foi de longe o mais sangrento dos séculos. Em geral omite-se do cômputo os números mais altos em absoluto: as vítimas do aborto cirúrgico e das pílulas abortivas. De 1973 a 2000 os abortos cirúrgicos, só nos E.U.A., somam mais de 40 milhões de vítimas humanas. Desde 1973 os abortos mundiais mataram uma média de 50 milhões de crianças não nascidas por ano; em breve chegar-se-á a um total de 1.000.500.000 vítimas humanas em menos de trinta anos" (pg. 932).

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Pontifício Conselho para a Família. Lexicon. Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas.