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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Deus violento e vingativo da Bíblia - A bíblia pinga sangue!



Sempre que converso com neo-ateus me deparo com a seguinte aporia (deles): Deus é violento e gosta de sangue e, portanto, não pode ser um Deus bom. Assim sendo, é impossível crer neste Deus. Seu deus não passa de um assassino, sanguinário, genocida, que mandou matar crianças, mulheres grávidas, mandou matar famílias inteiras, pessoas inocentes, animais! Como para corroborar, eis alguns textos mais ou menos usados por eles:

Dt 21, 18-21: Quando o filho se torna contumaz e rebelde, os pais devem levá-lo à porta da cidade para ser apedrejado pelos homens da cidade.
ÊXODO 21:20-21 Com a aprovação divina, um escravo pode ser surrado até a morte sem punição para o seu dono, desde que o escravo não morra imediatamente.
LEVÍTICO 26:29, DEUTERONOMIO 28:53, JEREMIAS 19:9, EZEQUIEL 5:8-10 Como punição, o Senhor fará com que as pessoas comam a carne de seus próprios filhos, filhas, pais e amigos (aqui nem pensam nisso com sentido figurado)
NUMEROS 15:32-36 Um homem que no Sábado estava pegando gravetos de lenha para uma simples fogueira é apedrejado até a morte segundo a ordem de Deus.
NUMEROS 16:49 Uma praga divina mata 14.700 pessoas.
NUMEROS 25:9 Mais outra praga divina mata 24.000 pessoas.
NUMEROS 21:35 Com o apoio divino os Israelitas matam Ogue, seus filhos e todo o seu povo até não haver sequer um sobrevivente.
NUMEROS 25:4 Disse Deus a Moisés: Toma todos os cabeças do povo e enforca-os ao Senhor diante do Sol, e o ardor da ira do Senhor se retirará de Israel.
DEUTERONOMIO 20:16 “Das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida”.
JOSUÉ 6:21-27 Com aprovação divina, Josué passa ao fio da espada todos os homens, mulheres e crianças da cidade de Jericó.
JOSUÉ 8:22-25 Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Ai, matando 12.000 homens e mulheres, sem que nenhum escapasse.
JOSUÉ 10:10-27 Com aprovação divina, Josué destrói todo os Gibeonitas.
JOSUÉ 10:28 Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Maqueda.
JOSUÉ 10:40 Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis. Nada deixou de resto; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o Senhor Deus de Israel.
JOSUÉ 11:6 O senhor ordena o mutilamento (corte dos tendões das pernas) dos cavalos.
Sl 137:9 Feliz o homem que arrebentar os seus filhinhos de encontro às rochas.
ISAIAS 14:21-22 Preparai a matança para os filhos por causa da maldade de seus pais.
EZEQUIEL 9:4-6 Ordem do Senhor: “sem compaixão… matai velhos, mancebos, e virgens, e meninos, e mulheres, até exterminá-los….”
EZEQUIEL 21:3-4 O Senhor diz que exterminará tanto o justo quanto o ímpio, ferindo-lhes a carne com sua espada.


A questão aqui não é refutar cada uma das citações como numa frenética necessidade de escusar Deus dessas acusações infamantes. A questão é ir entendendo, ponto por ponto, como e porquê tais textos foram escritos e por fim, a plenitude da revelação em Cristo. Aqui começo minha argumentação. Em primeiro lugar, o que os ateus não sabem ou preferem omitir é que sua abordagem de Deus é extremamente unilateral. Partem de textos estanques para tentar montar um quebra-cabeças que custou cerca de 14 séculos para ser montado. Logo de início depara-se com a dificuldade de se reconstruir historicamente os fatos de cada texto destes supra-citados. Em segundo lugar, o ateu ou neo-ateu, toma por base que a Bíblia foi escrita tendo sido ditada por Deus no ouvido do escritor sagrado como uma espécie de crônica. Não levam em consideração nenhum aspecto antropológico na construção do texto bíblico, tampouco ambiental ou cultural. Aqui já se percebe a pobreza da argumentação atéia sem tocar - o que logo faremos - no processo revelatório de Deus desde o Antigo até o Novo Testamento culminando em Jesus Cristo. Porém, para enfrentar mais amiúdo este tema, vamos usar o bom e velho método cartesiano: separar as partes diminutas, compreendê-las e depois juntá-las para compreender o todo.

1. O contexto do texto
O que é inspiração bíblica?
Todos os livros da bíblia são inspirados por Deus. Os escritores da bíblia foram muitos, às vezes com intervalo de centenas de anos de um livro para o outro. Porém, em todos eles, era Deus quem os inspirava a escrever. Quem escrevia (com a caneta) era o autor humano, mas quem colocava as idéias na cabeça do autor era Deus. A inspiração define-se assim: um influxo sobrenatural sobre o autor humano para escrever o que Deus quer. “Toda escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3,16; 1,21).

O que não é inspiração bíblica?
Inspiração é diferente de ditado mecânico. É iluminação que um escritor pode ter, de Deus, para escrever. Não descarta o linguajar humano e a cultura humana. A inspiração é diferentemente das ciências históricas que pretendem ser uma crônica dos acontecimentos. Ela é, outrossim, o influxo da graça no autor humano para escrever aquilo que é vontade de Deus, no tempo, mas com um alcance atemporal.

Onde entra Deus e onde entra o autor humano?
Deus inspira ao autor humano escrever. Porém, como se disse acima, Deus nada dispensa do autor humano na escrita: sua cultura pessoal, seu conhecimento pessoal da língua, da geografia e da política de seu tempo, seus laços pessoais e familiares, suas experiências profissionais (carpinteiro, agricultor, pastor de ovelhas, etc). Tudo isto está presente no texto bíblico como pano de fundo a ressaltar a importância da mensagem nele contida.

2. Como interpretar corretamente um texto biblico?
Parte-se do contexto do autor, depois, da intenção do autor, depois da intenção de Deus ao inspirar aquele texto, depois do próprio texto que nunca deve ser lido estanque, mas sempre dialogado com outros textos similares. Assim, pode-se chegar a ter alguma visão mais ampla do texto o que ajuda a fugir da leitura literal e da interpretação unilateral do texto sagrado. A bíblia é toda sagrada e inspirada por Deus, porém, isto não dispensa o trabalho humano de compreendê-la em seu contexto vital (sitz in leben), ao contrário, exige-o para não falar asneiras como estas dos ateus/neo-ateus.

3.Deus mandou ou não matar pessoas?
A resposta é obviamente não. Ainda que um texto ou outro se pareça a uma crônica, ele não é uma crônica histórica no sentido moderno do termo. Pode se tratar de uma novela, uma saga, uma etiologia, um oráculo de salvação, uma lenda, um mito, um relato de vocação, uma ação simbólica, um vaticínio apocalíptico, etc. As formas e gêneros literários do Antigo Testamento são a fôrma dentro da qual o texto foi composto e como tal possuem características suas, próprias, o que as diferenciam umas das outras, óbvio! "Ah, então a Palavra de Deus não é histórica" ou "Ah, tudo o que está escrito no Antigo Testamento (e por correspondência no Novo) é mentira?". Calma! Tudo o que está escrito na Bíblia é a mais pura verdade. Porém, uma verdade que não é necessariamente uma verdade histórica, factível, porque o autor sagrado não é preocupado em escrever uma crônica (estou aqui me referindo exclusivamente ao Antigo Testamento). A bíblia é, sobretudo em seu Antigo Testamento, uma memória da fé de Israel que enxerga em seus portentos nacionais os mesmos portentos de Deus em favor de seu povo (relativo à segunda e terceira etapa da revelação: teologia da prosperidade e da retribuição). Todavia, esta leitura de fé dos eventos nacionais não exclui que estes tenham acontecido de fato, como a própria arqueologia bíblica hoje aponta. A pouca compreensão de todo este contexto não permite compreender os textos supra-citados como fruto do tempo, da cultura e da experiência do povo de Deus, pois, Deus é o mesmo e não pode mudar. Ele não pode mandar matar num dia e parar depois. Portanto, a falha está no homem (escritor sagrado, povo de Israel, leitor e intérprete da bíblia hoje) e não em Deus.

4. O processo revelatório
"Deus dá-se a conhecer, revela-se, entra na história, agindo por meio de mediadores, como Moisés, os Juízes, os Profetas, que comunicam ao seu povo a Sua vontade. Esta revelação alcança a sua plenitude em Jesus Cristo. N’Ele, Deus vem visitar a humanidade, de um modo que excede tudo o que se podia esperar: fazendo-Se homem" (Papa Bento XVI).

"Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), mediante o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso no Espírito Santo ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4). Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1 ,15; 1Tm 1,17), no seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão" (Dei Verbum, n.2)

"Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas" (Hb 1,1-2).

Estes três textos que coloquei o fiz de modo intencional para compreender que de fato houve uma revelação de Deus na história do homem que aconteceu de modo processual, gradual, levando em consideração a condição do homem em acolher e compreender esta mesma revelação. Deus não chegaria, por exemplo, a se revelar em mandarim ao povo brasileiro, ninguém o entenderia. Também não chegaria falando de elevadores, escadas rolantes e aviões a um jeca como Pedro ou um colérico como Jeremias. Cada homem de cada tempo compreende Deus e sua revelação à sua maneira, com suas categorias de conhecimento, de cultura e ambiente. Isto posto, porque básico, vamos às etapas sucessivas da revelação. Inicialmente eu poderia seguir o esquema do Catecismo da Igreja Católica para explicar a revelação. Ele (o Catecismo) usa a sequência: criação e alianças com Noé, os patriarcas e os profetas. Assim, o Catecismo quer ensinar que Deus começa a se revelar à humanidade na criação mesma e depois nas sucessivas alianças que fez com Noé, com Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué e os profetas, Davi, Josias, Esdras e Judas Macabeu. Mas creio que esta explicação é por demais causal e teológica para o neófito a quem, espero, este texto possa iluminar. Por isso vou seguir outra via de explicação das etapas da revelação começando por aquela primeira experiência de Deus que teve o povo santo ao pé do monte Sinai. Uma primeira experiência de Deus terrificante e ao mesmo tempo fascinante. A percepção da onipotência divina, da absoluta alteridade e transcendência de Deus sobre seu povo. Assim se expressa o livro do Êxodo: "Moisés levou o povo para fora do acampamento ao encontro de Deus, e pararam ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas; o fumo que subia do monte era como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia com violência. O som da trombeta soava ainda mais forte; Moisés falava e os trovões divinos respondiam-lhe. O Senhor desceu sobre o cume do monte Sinai; e chamou Moisés ao cume do monte. Moisés subiu, e o Senhor lhe disse: “Desce e proíbe expressamente o povo de precipitar-se para ver o Senhor, para que não morra um grande número deles" (cf. Ex 19,17-21). Esta primeira etapa se dá no primeiro contato do povo com seu Deus. É de fato no deserto que o Senhor forma seu povo: “Foi num deserto que o Senhor achou seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e carinhos, e o guardou como a pupila de seus olhos” (Dt 32,10). Catecismo n. 62: "Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e juiz justo, e para que esperasse o Salvador prometido". Esta experiência do deserto é fundante para Israel e a ciência exegética a identifica como a experiência-raiz da fundação e estabelecimento da identidade e eleição do povo como povo de Deus. Esta primeira etapa da compreensão da revelação comporta os limites que lhe são próprios: Deus ainda é visto como um Deus distante, terrível e ao mesmo tempo fascinante, um Deus de força e poder capazes de fazer tremer todo o mundo (Salmo 28/9):

3 Eis a voz do Senhor sobre as águas, *
sua voz sobre as águas imensas!
= 4 Eis a voz do Senhor com poder! †
Eis a voz do Senhor majestosa, *
sua voz no trovão reboando!

– 5 Eis que a voz do Senhor quebra os cedros, *
o Senhor quebra os cedros do Líbano.
– 6 Faz o Líbano saltar qual novilho *
e o Sarion como um touro selvagem!

= 7 Eis que a voz do Senhor lança raios, †
8 voz de Deus faz tremer o deserto, *
faz tremer o deserto de Cades.
= 9 Voz de Deus que contorce os carvalhos, †
voz de Deus que devasta as florestas! *

A segunda etapa identificada pela exegese já dá um passo a mais na compreensão da revelação de Deus. É a teologia da prosperidade. Nesta etapa Deus é aquele que caminha com seu povo, é um Deus guerreiro que dá os despojos das guerras e entrega reinos e terras a Israel. A base desta teologia/compreensão de Deus é que Deus premia os bons com riquezas. Tais "bons" são os cumpridores estrictos da Lei, abençoados por Deus. a bênção do Senhor passou a ser objeto de distinção social via teologia da prosperidade que funcionava assim: Os abençoados por Deus eram os bons cumpridores da Lei e dos costumes de Israel; os desafortunados e desfavorecidos eram os amaldiçoados por causa de sua má conduta (Dt 30,15ss) ou - no extremo - por causa de um pecado de seus pais (cf. Jo 9,2). Assim, o documento javista do Pentateuco, que é responsável por boa parte do livro do Gênesis, situa a figura de Abraão dentro do contexto da bênção: "Abençoarei os que te abençoarem e amadiçoarei os que te amaldiçoarem" (cf. Gn 12,1-3). A bênção de Deus era, portanto, algo precioso sem o qual o homem ficaria desprotegido contra os intempéries da vida. Dada a precariedade da vida na antiguidade - escassez de comida, doenças, invasões de exércitos inimigos, etc - podemos supor que a busca da bênção de Deus que fazia o homem prosperar se tornava imprescindível.

No entanto, esta teologia começou a entrar em crise com a constatação de que o ímpio prospera enquanto o justo passa fome. "Porque o caminho do ímpio prospera" (Jr 12,1) se Deus abençoa e faz prosperar apenas os bons? Por que Deus não impede que as mazelas que acometem aos que não O amam caiam também sobre os que procuram viver do lado dEle? Esta foi a grande dúvida que inspirou Asafe a escrever o Salmo 73 (Sl 73,3-5): "porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens". Aqui é também compreendido o sucesso e o insucesso militar. Deus, nesta etapa, caminha com o povo para o campo de batalha através da arca da aliança que acompanha o exército. É aqui que se compreende os textos que causam espanto e furor logo no topo deste texto: são resquícios da segunta etapa da revelação, quando esta ainda não estava concluída, mas, parcialmente concretizada. Nesta etapa também se torna presente a exclusão dos não prósperos entendidos como amaldiçoados por Deus.

Com a crise da prosperidade, veio a terceira etapa: a teologia da retribuição. Nesta teologia fica mais explícito que Deus premia os bons e castiga os maus. Esta teologia é uma reelaboração da teologia anterior (properidade) e um anelo para a solução do problema: "porque o justo sofre e o ímpio prospera?". Manifesta confiança em Deus e demonstra uma compreensão de Deus pela via da barganha. Nesta etapa da compreensão de Deus, ele é visto como aquele que pode ser comprado pelas atitudes puras, retas e justas do homem, sendo assim obrigado a dar-lhe o shalon: paz, prosperidade finaceira e saúde nesta vida. Mas logo esta terceira etapa entra em crise.

A crise da retribuição/prosperidade é captada pelos livros sapienciais: "A vida do homem é ilusão e correr atrás do vento" (Qohélet). O livro que mais agudamente apresenta o problema é a novela Jó, ou o livro de Jó. Um escrito do tempo sapiencial para meditar sobre a prosperidade para o justo sendo este justo um homem não próspero, Jó. Aqui volta a pergunta: porque o justo sofre? Nesta etapa do conhecimento de Deus, o homem compreende que a retribuição intra-terrena (Deus premia os bons e castiga os maus) não resolve o problema do mau e da injustiça. Quanto ao livro de Jó se encontra um excelente e breve resumo aqui. A teologia judaica ainda não é capaz de dar esta resposta e a quarta etapa, do período Macabeu/Asmoneu vai relegar para a vida eterna a retribuição que, anteriormente, era intraterrena.

Perceba o leitor que nesta suscinta e pobre apresentação das primeiras quatro etapas da revelação não toquei no tema "compaixão" que, embora seja presente no Antigo Testamento (duas vezes) vai ser revelada totalmente em Cristo Jesus (29 vezes no novo testamento). "Misericórdia" aparece 166 vezes com inúmeras referências no antigo testamento. Bondade (de Deus) aparece 29 vezes (no N.T. apenas 5 vezes). O verbo grego ágapa (amor ao próximo, caridade) aparece 38 vezes com inúmeras referências no A.T. Isto posto uma pergunta se impõe: Será que Deus inspirou errado o povo que escreveu o antigo testamento? Claro que não! Ele inspirou certíssimo! Porém, como você pode perceber com sua razão, a consciência e o conhecimento a respeito de Deus foi crescendo com o passar do tempo. É como na nossa vida. Ninguém nasce adulto ou velho. Nascemos bebê e vamos crescendo, adquirindo consciência e conhecimento das coisas, da vida, etc. E isto é porque somos humanos!!! Exatamente por isso que a Revelação se fez tão pausada, respeitando os tempos e processos humanos, os avanços e retrocessos que o povo de Deus fazia durante a aliança com Deus. É do mesmo modo que Ele age hoje: Ele não invade nem exclui nossa liberdade. Espera nossos tempos e momentos, nossos avanços e retrocessos no seguimento D'Ele.

Mas, vamos à quinta etapa. Aqui colocarei um excerto da minha monografia de teologia:
Foi vontade do Pai revelar-se bondoso e misericordioso em seu filho Jesus. Mateus diz no capítulo 1, versículo 21 o nome do Messias. Com isso diz que a missão do Filho de Deus é salvar o povo de seus pecados. Jesus, Yehoshú’a, quer dizer Deus salva (Yehoshú’a). O nome e a missão do Filho de Deus estão ligados não como simples etiqueta, mas com sua identidade mesma. Seu nome é expressão de seu ser. Em consonância com a Revelação veterotestamentária, Jesus salva porque é Deus Conosco, o Emanuel (cf. Is 7,14; 8,8). A mesma presença salvífica de Deus a podemos encontrar em Ex 3,7-8. Deus que vê a opressão pela qual passa seu povo escolhido e não fica indiferente: decide libertá-lo. A libertação temporal no Egito prefigura a libertação essencial realizada por Jesus. Jesus é a resposta de Deus aos clamores do pobre que anseia pela libertação plena de seu ser. Deus se revelou para que o homem o pudesse conhecer e assim conhecendo-o pudesse praticar o bem, a justiça, o ágape. Tivesse fé e esperança para viver na honradez de uma vida íntegra (cf. Fl 3,7-9). Jesus, cume desta revelação, a plenifica dando-lhe seu sentido último (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 592), consumando a obra trinitária da salvação (cf. DV n. 4) em continuidade com a intenção primeira de Deus ao criar: para que tudo fosse bom (cf. Gn 1,31a).

Desde o início de seu ministério, Jesus se apresenta como o “hoje” da libertação proclamada pelo profeta para os tempos messiânicos (Lc 4,16-21 com Is 61,1-2). Os milagres realizados são os “sinais” desse cumprimento (Lc 7,18-23) e dessa libertação, que concerne em primeiro lugar ao pecado, mas diz respeito também a todo o homem, alma e corpo (Lc 5,17-26). O evangelho que Cristo proclama aos homens é o evangelho da libertação e da liberdade dos filhos de Deus (Jo 8,31-36; cf. também Hb 3,5-6). A expressão suprema da libertação de Cristo é constituída pelo mistério da cruz e da ressurreição da morte. Aquilo que se realiza no mistério pascal de Jesus é o acontecimento decisivo da história do mundo. Nada terá maior importância para a humanidade do que a libertação que se realiza naquele acontecimento. A existência finalmente é resgatada de sua condição de pecado e morte sendo “lavada” no sangue de Cristo para constituir a existência redimida, a existência de graça: “Não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, como cordeiro sem defeito e sem mácula” (1Pd 1,18-19) (ROCCHETTA, 1991, p. 101-102).

5. Quem é Deus? (Lc 15)
As atitudes de Jesus estavam levantando suspeitas e com isso ele estava se tornando incômodo (cf. Mc 1,40-42; Mt 15,3-9; Lc 13,15-16; 14,3-4; Jo 8,2-11) para aqueles que praticavam uma religião legalista, que dividiam a vida entre o puro e o impuro e os homens entre bons, cumpridores da Lei, e ímpios - todos os outros. Jesus de fato viveu num tempo em que crer em Deus e, sobretudo, trabalhar para Ele era um lucrativo negócio (cf. Lc 19,45-46). Como revelar a face misericordiosa de Deus a homens inteligentes, religiosos e convictos de suas verdades? Jesus ensina lições como um Rabi, um mestre.

Primeiro mostra quem é Deus. Compara-o a um extremoso pai de família com dois filhos (cf. Lc 15,11). Depois mostra o pecador como aquele que tem tudo na casa paterna, mas livremente prefere outra vida, outro caminho distante desta mesma casa (cf. v. 12-13). Depois mostra os filhos de Israel, os herdeiros da promessa (cf. Jo 1,11), os escribas e fariseus do versículo 2 do nosso texto, identificados com as atitudes do filho mais velho, mais ranzinza, mais amargo e que não entende o amor do Pai nem a queda do irmão (cf. v. 30).

As atitudes do Pai, de imediato, contrastam com as atitudes dos filhos: da liberalidade do Pai a dissolução de um filho. Da compaixão do Pai ao fechamento e falta de amor do outro filho. Da alegria do Pai à tristeza do filho mais velho e à vergonha do filho mais moço. Jesus pinta Deus com cores vivas: um Deus que se compadece dos mais fracos, sejam eles os fracos por causa dos pecados ou os fracos na compreensão do amor. O Rabi ensina quem é Deus, como Ele age, como Ele nos vê. Como Ele espera a resposta humana e o quanto ainda o homem carece de conhecê-lo. Ele ensina que a alegria no céu é por um pecador que se converte e não porque se condenou alguém em flagrante. Ensina que o Pai sabe esperar o tempo de cada filho voltar a casa e quando este volta, o que passou já não é mais lembrado. O Pai sabe entender o limite de cada filho sem julgar ou condenar a cada um por suas debilidades. O Pai sabe abraçar e beijar, ou seja, sabe demonstrar seu amor ao filho que volta. Amor-compaixão que restitui a humanidade e a filiação perdidas nas ondas da poeira do tempo. Por fim, Jesus ensina que o Pai não sabe fazer contas a respeito dos pecados cometidos quando o filho sinceramente se arrepende. Esse Pai que Jesus revela é simples: abraça, ama, perdoa e faz festa. Não anda com listas de deveres e obrigações, com listas de chamadas ou coisa semelhante. Anda somente com o coração aberto para amar e ser amado porque Ele é amor (cf. 1Jo 4,8; Ap 3,20).

É desta humanidade salva e resgatada com o abraço do amor que o Papa João Paulo II fala no número 6 da Dives in Misericordia. Comentado Lc 15,20 o Papa diz que é por ser fiel a si que Deus resgata a humanidade decaída, faz o homem reencontrar o sentido mais profundo de sua existência e reconhecer que o que se perde com o pecado não é somente uma lei transgredida, mas algo mais profundo e fundamental: perde-se a própria essência de homem e de filho. Como vimos, Cristo inaugurou o tempo da nova aliança em seu sangue (cf. Lc 22,20). Ele trouxe a libertação radical revelando um Pai que ama a todos. Em Cristo, o amor-compaixão de Deus se mostra capaz de salvar o homem através da celebração de um novo pacto. A encarnação do Verbo eterno do Pai representa o fundamento da nova e eterna aliança: em Jesus, é o próprio Deus que une irrevogavelmente a si a natureza humana. E nada mais poderá desfazer essa união, realizada “uma vez por todas”. Cristo é, em si mesmo, a aliança nova e eterna. Graças a Moisés, fora dada a lei aos pés do Sinai; graças a Jesus foram-nos dadas “a graça e a verdade” (Jo 1,17). Com efeito, a encarnação direciona-se inteiramente para o mistério da morte e ressurreição, que constitui o mistério fundamental da salvação, adquirida definitivamente para toda a humanidade (ROCCHETTA, 1991, p.111).

Pronto. Explicadas as 5 etapas da revelação, o processo lento e contínuo de aprendizagem de "Quem é Deus?" espero que algumas dúvidas tenham sido sanadas. Ao mesmo tempo espero ter ficado claro a inconsistência da dúvida/pergunta dos ateus e neoateus quanto à suposta maldade em Deus. Sem entrar no mérito lógico da questão (Deus é bom e nele não há nenhum mal - princípio de não-contradição) e permanecendo apenas no campo escriturístico e racional, é possível compreender a revelação de Deus, o processo de conhecimento humano e como estes dois mundos se uniram em Cristo Jesus.

"Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade" (cf. Ef 2,13-16)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Patologias religiosas

 
Ouve-se por aí no universo religioso do momento frases do tipo: "Eu quero mais de Deus", "venha buscar o seu milagre", "venha buscar a realização da Promessa", "eu tenho a marca da promessa", "venha determinar a vitória da sua vida finaceira", "o melhor de Deus ainda está por vir", etc. A esta sequência de balela neopentecostal se juntam testemunhos do tipo: eu pedi carro e Deus me deu; eu pedi dinheiro e Deus pagou as minhas contas; eu pedi emprego e Deus me deu; eu pedi cura e Deus me curou; etc. Nada mais contrário à efetiva fé cristã! Para refutar estas idéias estapafúrdias bastaria citar os argumentos do Novo Testamento, como citarei a seguir.

A) Seguir Jesus é decisão de renunciar a si mesmo todos os dias e tomar sobre si a cruz (sinal da própria existência): "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (cf. Mt 16,24);

B) Jesus não faz a sua vontade, nem reza para o Pai fazer a vontade dele, mas a sua vontade é fazer a vontade do Pai: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e fazer a sua vontade" (cf. Jo 4,34);

C) Jesus nada possuía de seu e nem por isso se achava um derrotado: "As rapozas tem tocas, as aves do céu tem ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20);

D) Jesus não veio para fazer o que ele queria. Veio para fazer em tudo a vontade do Pai ainda que isto significasse a morte: "Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e vigiai comigo. E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" (cf. Mt 26,38-39).

Seguir Jesus como aparece nos evangelhor, contudo, é para pessoas adultas na fé, muito diferente das infantilidades que norteiam grande parte do discurso e da prática religiosa dos nossos dias marcados fortemente pelo subjetivismo religioso. O relacionamento com Deus típico do nosso tempo é narcísico cujo conteúdo é fortemente subjetivista e antropocêntrico. Com a autonomia do sujeito na modernidade emerge um homem senhor de si, livre do mundo, das leis naturais, religiosas e sociais. Na contemporaneidade passa-se à recusa da Lei, das instituições e, consequentemente, da Igreja como mediadora do encontro do homem com Deus. Este ser contemporâneo não quer aceitar uma instituição que esteja entre ele e a divindade. Veremos como estas duas posturas estão diretamente vinculadas à estrutura mental da contemporaneidade.

A pessoa profundamente religiosa do tempo atual está à procura da satisfação de suas necessidades imediatas. Basta olhar as inúmeras seitas neopentecostais que abrem as portas dia-a-dia. Isto se depreende do frenético ritmo com que se muda de "igreja", sobretudo, entre os evangélicos. O utilitarismo pragmático enforma (coloca dentro de uma fôrma) algumas propostas religiosas para o tipo consumista, sobretudo no meio evangélico neopentecostal ainda que resquícios deste pensamento venha também penetrar uma certa espiritualidade narcisista dentro da Igreja Católica. Nesta postura predomina o uso/consumo do fato "religião". O crente não vê mais a religião ou a Igreja como mediador entre ele e Deus. Ele quer ir diretamente a Deus escolhendo dentro do grande supermercado religioso os produtos que melhor satisfaz sua necessidade psicológica sem obedecer a qualquer Lei ou Instituição heterônoma.

Usando aqui um pouco do material que a psicanálise nos fornece, apontamos para as duas primeiras fases do desenvolvimento psíquico humano e transportaremos este resultado para a relação com Deus. Em tal análise acompanhamos o estudo do Padre Alfonso García Rubio.

A relação infantil com Deus projeta nele a figura da mãe que dá mamadeira, peito, faz carinho e proteje do mundo. Relação única e fechada. Relação de dependência total e absoluta, fechada, na qual não há responsabilidade do indivíduo. Note aqui o leitor o conteúdo das letras das músicas neopentecostais e que também tocam em algumas de nossas Paróquias, infelizmente! Neste tipo de relação a criança experimenta a onipotência face a mãe: chora e a mãe dá comida, faz birra e a mãe mima. Aqui aparece o desejo de fusão com a mãe. Este é o primeiro estágio do nosso amadurecimento como pessoas e tal é, em muitos casos como apontados acima, projetado na relação com Deus. Deus na melhor das hipóteses, é visto como aquele que está à disposição da pessoa para dar-lhe o que quiser: "um Deus providente cujo poder estaria sempre a serviço do crente, para defender seus interesses  satisfazer os seus desejos, alimentando, destarte, o narcisismo infantil. Cabe aqui acenar para a realidade do enorme egoísmo vivido e expressado em forma de orações" (Alfonso García Rubio).

No segundo nível do amadurecimento humano aparece a figura do pai que constitui para a criança um mixto de sentimentos e experiências ambivalentes: a criança experimenta o amor porque o pai é apoio e segurança, ao mesmo tempo experimenta ódio porque o pai representa a lei que lhe impõe limite e lhe toma a mãe - sempre na perspectiva psicanalítica -, a repressão, ele é tudo, é forte e a criança frágil e obediente. Esta ambivalência faz a criança experimentar o sentimento de culpa em relação ao pai. A criança amadurece nesta etapa crescendo na aceitação dos seus limites e garantindo, pari passu, a independência, autonomia e liberdade interior na relação com o pai e a mãe. Este conflito não resolvido na infância e transportado para a relação com Deus faz o homem nosso contemporâneo culpabilizar Deus por todas as suas mazelas: porque me tirou isto ou aquilo (como o pai me tirou o mamá da mãe); porque Deus me infringiu uma Lei me proibindo isto e aquilo (como o pai se tornou limite em minha infância); porque Deus me fez pecador sabendo que eu iria pecar? (culpabilizar Deus e a si mesmo - drama do ateu). Esta imagem de Deus é ambivalente como a segunda fase do amadurecimento humano: Deus aparece como carrasco, juiz implacável, ao mesmo tempo bom e mantenedor da vida. É uma imagem de Deus que acaba incindindo na vida religiosa da pessoa e gera culpa patológica onde a pessoa não se vê como sujeito de seus atos, não percebe a própria responsabilidade sobre a vida e quer reputar tudo a Deus. É uma retro-alimentação do ego (Alfonso García Rubio).

Como transpor estes limites próprios do homem e sua psiquê?

A psicanálise afirma que ainda que estas fases sejam superadas na fase seguinte, ainda permanecem latentes. Da primeira fase permanece, por exemplo, a abertura ao infinito, à capacidade de abertura mística ao mistério de Deus e o desejo de ser Um com Ele como, por exemplo, em São João da Cruz. Somente um amadurecimento gradual da própria personaliddade ou o auto-conhecimento, um amadurecimento do contato pessoal e comunitário com Deus pode levar a uma prática sadia e realista da religião.

O problema destes tipos de "religião"

Ao mesmo tempo que estas seitas apresentam solução dos problemas imediatos dos indivíduos, geram um grupo de dependentes bem aos moldes da dependência química. O problema inicialmente insolúvel encontrará alívio parcial e isto manterá a pessoa presa ali naquela seita. Este processo retro-alimentado fará com que a pessoa necessite voltar cada vez e a fará dependente deste processo sem que isto lhe faça assumir um compromisso concreto de fé. O cristão lê e interpreta o Antigo Testamento a partir de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo o que lá está escrito precisa ser filtrado pela plenitude da revelação (cf. Gl 4,4). Por isto a teologia que sustenta este discurso, além de já ter sido superada pela vinda de Cristo é, ademais, desmascarada por sua flagrante má intenção: não se intenciona dar libertação, saúde ou prosperidade financeira a ninguém. A intenção clara é manter a pessoa presa a este esquema retro-alimentador dos bolsos de quem o mantém funcionando. Para concluir, vou lançar, alhures, alguns textos significativos para a elucidação definitiva acerca da morte da teologia da prosperidade:

2Cor 8,9: "Já conheceis a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós"
FL 2,5: "Tende em vós o mesmo sentimento de Nosso Senhor Jesus Cristo"
Fl 2,6-7: "Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo"

Nestes três textos da cristologia paulina São Paulo deixa translúcido a realidade da encarnação: Jesus era divino - sua riqueza - e se fazendo homem assumiu nossa humanidade esvaziando-se de si mesmo - de sua divindade/riqueza - fazendo-se pobre. É este o primeiro sentimento que deve ter o cristão: um severo imitador de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Senhor, o Kyrios estabelecido por Deus(cf. At 2,36), por meio de quem nos vem unicamente a salvação (1Tm 2,5). Ele é o princípio (alfa) eo fim (ômega) da história humana (cf. Ap 1,8; 21,6; 22,13), ou seja, nele é que TODA a história humana encontra a sua plenitude, como está escrito: "tendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés" (cf. Hb 10,2-13). "Deus que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo, pois, pela graça sois salvos" (cf. Ef 2,4-5). Assim, este Senhor e Cristo constituído pontífice, mediador da salvação dos homens, que se fez pobre e plenamente obediente, nos salva na Graça e por graça (que é ele mesmo) e por misericórdia. Portanto, a lei da graça abroga a teologia da prosperidade que funciona sem a graça divina. Já não se compra Deus nem se barganha com Deus. Ele é livre de nós e justamente, nos deu de sua liberdade. Se há de acontecer um milagre é por pura gratuidade de Deus e não por conta do tamanho da sua fé ou do tanto que você reze. Podemos encher o Maracanã com padres rezando por um milagre, cheios de fé, se não for da vontade gratuita de Deus, este milagre não acontece porque Ele não é um pai para atender nossas necessidades infantis, mas um Pai que nos quer dar o melhor presente: a salvação. E se para nos dar este presente for necessário que você sofra um câncer, então que este câncer seja bem-vindo, "pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?" (cf. Mt 16,26). "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (cf. Mt 10,28). "Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la" (cf. Mt 10,38-39). "Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?’ Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo" (cf. Mt 6,31-33).

Depois destas palavras do próprio evangelho, duvido que subsista ainda alguma teologia da prosperidade infantilizando as pessoas por aí!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Cristo criou uma Igreja?! Se a criou, ela é Igreja visível ou invisível?




Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem, Factórem cæli et terræ, Visibílium ómnium et invisibílium. Et in unum Dóminum Iesum Christum, Fílium Dei Unigénitum, Et ex Patre natum ante ómnia sæcula. Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero, Génitum, non factum, consubstantiálem Patri: Per quem ómnia facta sunt. Qui propter nos hómines et propter nostram salútem Descéndit de cælis. Et incarnátus est de Spíritu Sancto Ex María Vírgine, et homo factus est. Crucifíxus étiam pro nobis sub Póntio Piláto; Passus, et sepúltus est, Et resurréxit tértia die, secúndum Scriptúras, Et ascéndit in cælum, sedet ad déxteram Patris. Et íterum ventúrus est cum glória, Iudicáre vivos et mórtuos, Cuius regni non erit finis. Et in Spíritum Sanctum, Dóminum et vivificántem: Qui ex Patre Filióque procédit. Qui cum Patre et Fílio simul adorátur et conglorificátur: Qui locútus est per prophétas. Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam. Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum. Et exspecto resurrectionem mortuorum, Et vitam ventúri sæculi. Amen.

Corpo: 182 recorrências no Bible Works 5.1
1ª referência: Gn 47,18: "Quando terminou aquele ano, no ano seguinte voltaram a ele (a José) e lhe disseram: 'Não podemos ocultá-lo a meu senhor: esgotou-se, na verdade, o dinheiro e os animaisjá pertencem a meu senhor, nada mais resta à disposição de meu senhor senão nossos corpos e nossos terrenos". Contexto: O povo do Egito e de Canaã enfrentam grande seca e fome (cf. v. 13-15). José cuja vida vem sendo contada desde o capítulo 39 fora elevado a administrador do Egito (cf. Gn 41,40). No versículo citado a palavra CORPO (gr. soma) se refere à força de trabalho que os egípcios estavam dispostos a vender ao Faraó, através de seu administrador José, para garantir pão e trigo. No entanto, José compra os terrenos e não reduz os egípcios à escravidão (em contraponto ao que o Faraó fará aos hebreus).
Última recorrência: Jd v. 9: "O arcanjo Miguel quando disputava com o diabo pelo corpo de Moisés não se atreveu a pronunciar uma sentença injuriosa contra ele, mas limitou-se a dizer: 'O Senhor te repreenda'". A nota explicativa da Bíblia de Jerusalém diz que Judas neste trecho parece depender da tradição de um apócrifo chamado "Assunção de Moisés" no qual o Arcanjo Miguel tem uma altercação com o diabo que, depois da morte de Moisés, reclamava seu corpo (gr. sómatós).

Para início da conversa é preciso delimitar o significado de Sóma, corpo, em grego. Termo do qual dependerá Paulo que nós vamos seguir daqui a diante. Sóma significa o corpo grosseiro, o corpo terrestre, a mortalidade e finitude do homem ou como se pode dizer no latim, a nossa res extensa. Há outro termo, em grego, para designar o corpo. É o termo sarx que provém do hebraico bashar, que em Grego quer dizer: carne, pedaço de carne, corpo vivo, como está em Jo 6,51: "o pão que eu darei é a minha carne (sarx) para a vida do mundo"; Jo 6,55: "porque a minha carne (sarx) é verdadeiramente comida e meu sangue verdadeiramente bebida".

Tendo feito as devidas distinções, vamos agora ao objeto do nosso estudo: A Igreja, Corpo Místico de Cristo (cf. Ef 1,23), é uma realidade visível ou invisível? Está em quaisquer dois que se reunem em seu nome ou está visivelmente presente em uma instituição? Esta pergunta é pertinente, sobretudo hoje, quando se ouve: "Cristo sim, Igreja não". Outra pergunta pertinente: A instituição derroga a Igreja espiritual, invisível? A Igreja espiritual, mística, deixa de existir por conta da Instituição? Perguntas que extrapolam os textos bíblicos que vamos usar na argumentação, pois partem de um problema não presente na preocupação paulina, mas, presente na preocupação contemporânea. No entanto, a Sagrada Escritura é um dos pés da fé da Igreja e é dela que partiremos para alcançar e compreender a elaboração doutrinária da fé pela Tradição e pelo Magistério.

A carta aos Hebreus, citando livremente o Salmo 40,7-9, afirma categoricamente a superioridade do sacrifício de Cristo face aos sacrifícios do antigo testamento. Aqui o autor de Hebreus usa o termo sóma (corpo terrestre, corpo físico, mortal): "Por isso, ao entrar no mundo, ele afirmou: Tu não quisestes sacrifício nem oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo (sóma). [Note aqui o leitor que em nenhum momento nos evangelhos é citado este salmo como tendo sido falado por Jesus como pressupõe o autor de Hebreus. No entanto, a alta teologia que nesta carta é desenvolvida aplica o cumprimento deste salmo à encarnação do Verbo, como que aos moldes do prólogo do Evangelho de João]. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram de teu agrado. Por isso eu vos digo: Eis-me aqui [...] eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade" (cf. Hb 10, 5-7). Noutra perspectiva, levando-se em consideração a compreensão teológica desta carta, o termo empregado do salmo 40, "formaste-me um corpo, pode ser perfeitamente bem compreendido da seguinte forma: O Verbo tomou forma em carne humana no seio de Maria por obra do Espírito Santo. Assim formou o corpo humano de Jesus. O mesmo Espírito formou o Corpo Místico para o mesmo Jesus. Veja: "formaste-me um corpo". Para Ele foi formado este Corpo.

Vamos cotejar este texto de Hebreus com a carta aos Efésios. O Hino Cristológico do primeiro capítulo da carta aos Efésios exalta a Divindade de Cristo, sua descendência do Pai e a obra da salvação operada pelo Filho. Paulo faz tudo vir do Pai pelo Filho. Note os termos: "nele, por ele, seu sangue (de Jesus)". No versículo 23 Paulo chama a Igreja de plenitude de Cristo, o seu Corpo, o seu sóma: corpo terreste, corpo físico, mortal. É neste corpo físico, terrestre e mortal que se encontra a plenitude daquele que em si plenifica tudo: êtis êstin tô, autón tô pléroma tôu tá pánta èn pásin pleroménon. Aqui a tradução protestante do João Ferreira de Almeida traiu o original grego. Almeida traduz assim: "Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos" enquanto o grego faz dizer: a plenitude (pléroma) daquele que plenifica (pleroménon) tudo. Em Ef 3,6 Paulo afirma que os gentios chamados à fé participam do mesmo corpo (sôusóma) e da mesma promessa. Ora, é impossível que este corpo seja invisível uma vez que dele participam aqueles que em gerações passadas não conheciam este mistério e que foi dado a conhecer apenas aos Apóstolos e profetas da Igreja (cf. Ef 3,5). Como estes Apóstolos e profetas chegaram a conhecer tal coisa? Evidente que a resposta a esta pergunta é: pela Tradição passada de Apóstolo aos sucessores, de discípulo a discípulo, de profeta a discípulo, de cristão a cristão. Só para citar 2Ts 3,6: "Nós vos ordenamos irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos afasteis de todo irmão que leva vida desordenada e contrária à tradição que de nós receberam". Esta era a tradição oral ou, no máximo, por carta que tinha como finalidade acorrer às situações concretas vividas na comunidade, como esta 2Ts escrita em torno de 50-52 quando ainda não havia nenhum evangelho escrito! Mas, como os Apóstolos passaram esta Tradição para frente se não havia ainda Evangelho escrito para ser a única regra de fé da Igreja nascente?

A experiência pós-pascal dos Apóstolos e discípulos traz luz nova às palavras de Jesus. De fato, os evangelhos afirmam que muita coisa só será entendida pelos Apóstolos e discípulos após a ressurreição. Com o "Ide" escrito em Mt 28,18-19 percebemos que após a ressurreição e o Pentecostes os Apóstolos saíram anunciando o Evangelho, mas não de qualquer modo! Paulo assevera em Gl 1,18-19, que três anos após a sua conversão (provavelmente por volta do ano 40/43) ele subiu a Jerusalém para estar com Cefas (Pedro, pedra). No versículo 20 ele assevera que não está mentindo. Oras, Paulo gozava de boa reputação junto aos Gálatas, basta ver a admoestação que este escreve no capítulo 1,6-10. Então porque precisava asseverar que não estava mentindo? Porque estar com Cefas significava estar em unidade com toda a Igreja, consciência esta mui precisa em Paulo. Vejamos: "procurando convervar a UNIDADE pelo vínculo da paz" (Ef 4,3). A seguir, fiel a este pensamento Paulo delineia as consequências da Unidade: "Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos" (cf. Ef 4,4-6). João ainda não havia escrito seu evangelho que só o será por volta do ano 95, no qual afirmará a doutrina da unidade na oração sacerdotal de Jesus: "Pai, que todos sejam um para que o mundo creia que tu me enviaste" (cf. Jo 17,21) ainda que, em tese, João e Paulo não tivessem se conhecido. Efésios, escrita por volta de 61 a 63, sugere que Paulo esteja preso em Roma (cf. Ef 3,1) de onde envia esta carta. A unidade da fé é o tema destes versículos. Ao insistir na única fé, no único batismo, no único Deus e no único corpo, Paulo quer os cristãos de Éfeso unidos como os Apóstolos ao Senhor. Mais uma vez Paulo usa Sóma, o corpo terrestre, físico, para indicar a Igreja: "Ên sóma kai ên pneuma, katós kai ekletête ên mía elpídi tês kléseus ûmón".

Aqui chegamos inexoravelmente ao texto fundamental de Mateus 16,15ss, no qual não aparece o termo corpo para designar a Igreja, mas, a materialidade do homem, da qual não parte esta argumentação. De fato, ali encontramos: "Então lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo". Jesus respondeu-lhe: Bem-aventurado és tu Simão filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus" (Cf. Mt 16,15-19). As tentativas de espiritualizar este texto ou mesmo de psicologizá-lo afirmando que Jesus não quis de fato fundar uma Igreja sua, instituição visível e orgânica, mas, apenas fazer dos discípulos um grupo, é tão aquém do próprio texto que carece de fundamento escriturístico. Aqui, deixo o argumento com o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Ratzinger, na Declaração Dominus Iesus:

5.  Para fazer frente a essa mentalidade relativista, que se vai difundindo cada vez mais, há que reafirmar, antes de mais, o carácter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo. Deve, de fato, crer-se firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, que é « o caminho, a verdade e a vida » (cf. Jo 14,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina: « Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o queira revelar » (Mt 11,27); « A Deus, ninguém jamais O viu. O próprio Filho Único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer » (Jo 1,18); « É em Cristo que habita corporalmente toda a plenitude da divindade e n'Ele participais da sua plenitude » (Col 2,9).

Fiel à palavra de Deus, o Concílio Vaticano II ensina: « A verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação ».9 E sublinha: « Jesus Cristo, portanto, Verbo Encarnado, enviado como “homem aos homens”, “fala as palavras de Deus” (Jo 3,34) e consuma a obra da salvação que o Pai Lhe confiou (cf. Jo 5,36; 17,4). Por isso, Ele — ao qual quem vê, vê o Pai (Jo 14,9) — com a sua total presença e manifestação pessoal, com as palavras e as obras, com os sinais e com os milagres e, sobretudo, com a sua morte e gloriosa ressurreição de entre os mortos, enfim, com o envio do Espírito de Verdade, completa perfeitamente a revelação e a confirma com o seu testemunho divino [...]. A economia cristã, portanto, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não mais se deve esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tim 6,14 e Tit 2,13) ».10

6.  É, por conseguinte, contrária à fé da Igreja a tese que defende o carácter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. A razão de fundo de uma tal afirmação basear-se-ia no fato de a verdade sobre Deus não poder ser compreendida nem expressa na sua globalidade e inteireza por nenhuma religião histórica e, portanto, nem pelo cristianismo e nem sequer por Jesus Cristo.

7.  A melhor resposta à revelação de Deus é a « obediência da fé (Rom 1,5; cf. Rom 16,26; 2 Cor 10,5-6), com a qual o homem se entrega livre e totalmente a Deus, oferecendo a Deus “revelador a submissão plena da inteligência e da vontade” e dando voluntariamente assentimento à revelação feita por Ele ».15 A fé é um dom da graça: « Porque para professar esta fé, é necessária a graça de Deus que previne e ajuda, e os outros auxílios internos do Espírito Santo, o qual mova e converta para Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê “a todos a suavidade no aderir e dar crédito à verdade” ».16

9.  Na reflexão teológica contemporânea é frequente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria para alguns um dos tantos vultos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em termos de salvação com a humanidade.

Além disso, para justificar, de um lado, a universalidade da salvação cristã e, do outro, o fato do pluralismo religioso, há quem proponha uma economia do Verbo eterno, válida também fora da Igreja e sem relação com ela, e uma economia do Verbo Encarnado. A primeira teria um plus-valor de universalidade em relação à segunda, que seria limitada aos cristãos, se bem que com uma presença de Deus mais plena.

10.  Semelhantes teses estão em profundo contraste com a fé cristã. Deve, de fato, crer-se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o Filho e o Verbo do Pai. O Verbo, que « estava no princípio junto de Deus » (Jo 1,2), é o mesmo « que Se fez carne » (Jo 1,14). Em Jesus « o Cristo, o Filho do Deus vivo » (Mt 16,16) « habita corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col 2,9). Ele é « o Filho unigénito, que está no seio do Pai » (Jo 1,18), o seu « Filho muito amado, no qual temos a redenção [...]. Aprouve a Deus que n'Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus » (Col 1,13-14.19-20).

Fiel à Sagrada Escritura e refutando interpretações errôneas e redutivas, o primeiro Concílio de Niceia definiu solenemente a própria fé em « Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigénito do Pai, ou seja, da substância do Pai; Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por meio do qual foram criadas todas as coisas do céu e da terra. Por nós homens e pela nossa salvação, desceu do céu, encarnou e Se fez homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, voltou a subir ao céu, donde virá para julgar os vivos e os mortos ».28 Seguindo os ensinamentos dos Padres, também o Concílio de Calcedónia professou « que o único e idêntico Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, é Ele mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem [...], consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade [...]; gerado do Pai antes dos séculos segundo a divindade e, nos últimos dias, Ele mesmo por nós e pela nossa salvação, de Maria, a virgem Mãe de Deus, segundo a humanidade ».29

Por isso, o Concílio Vaticano II afirma que Cristo, « novo Adão », « imagem de Deus invisível » (Col 1,15), « é o homem perfeito, que restituiu à descendência de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado [...]. Cordeiro inocente, pelo seu sangue voluntariamente derramado, mereceu-nos a vida e n'Ele Deus nos reconciliou consigo e connosco, libertando-nos da escravidão do diabo e do pecado, de tal sorte que cada um pode dizer com o Apóstolo: o Filho de Deus “amou-me e entregou-Se a Si mesmo por mim” (Gal 2,20) ».30

A esse respeito, João Paulo II declarou explicitamente: « É contrário à fé cristã introduzir qualquer separação entre o Verbo e Jesus Cristo [...]: Jesus é o Verbo Encarnado, pessoa una e indivisa [...]. Cristo não é diferente de Jesus de Nazaré; e este é o Verbo de Deus, feito homem para a salvação de todos [...]. À medida que formos descobrindo e valorizando os diversos tipos de dons, e sobretudo as riquezas espirituais, que Deus distribuiu a cada povo, não podemos separá-los de Jesus Cristo, o qual está no centro da economia salvadora ».31

É igualmente contra a fé católica introduzir uma separação entre a ação salvífica do Logos, enquanto tal, e a do Verbo feito carne. Com a encarnação, todas as ações salvíficas do Verbo de Deus fazem-se sempre em unidade com a natureza humana, que Ele assumiu para a salvação de todos os homens. O único sujeito que opera nas duas naturezas — humana e divina — é a única pessoa do Verbo.32

Portanto, não é compatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se realizasse « à margem » e « para além » da humanidade de Cristo, também depois da encarnação.33

11.  Do mesmo modo, deve crer-se firmemente na doutrina de fé sobre a unicidade da economia salvífica querida por Deus Uno e Trino, em cuja fonte e em cujo centro se encontra o mistério da encarnação do Verbo, mediador da graça divina no plano da criação e da redenção (cf. Col 1,15-20), « recapitulador de todas as coisas » (cf. Ef 1,10), « tornado para nós justiça, santificação e redenção » (1 Cor 1,30). De fato, o mistério de Cristo tem uma sua unidade intrínseca, que vai da eleição eterna em Deus até à parusia: « N'Ele [o Pai] nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d'Ele » (Ef 1,4); « Foi também n'Ele que fomos feitos herdeiros, segundo os desígnios de quem tudo realiza conforme decide a sua vontade » (Ef 1,11); « Pois àqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de que Ele fosse o Primogénito de muitos irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e, àqueles que justificou, também os glorificou » (Rom 8,29-30).

O Magistério da Igreja, fiel à revelação divina, afirma que Jesus Cristo é o mediador e o redentor universal: « O Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, encarnou, a fim de, como homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular todas as coisas. O Senhor [...] é aquele a quem o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e colocou à sua direita, constituindo-O juiz dos vivos e dos mortos ».34 Esta mediação salvífica implica também a unicidade do sacrifício redentor de Cristo, sumo e eterno Sacerdote (cf. Hebr 6,20; 9,11; 10,12-14).

16.  O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério salvífico: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja n'Ele (cf. Jo 15,1ss.; Gal 3,28; Ef 4,15-16; Actos 9,5); por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor. Jesus Cristo, com efeito, continua a estar presente e a operar a salvação na Igreja e através da Igreja (cf. Col 1,24-27),47 que é o seu Corpo (cf. 1 Cor 12,12-13.27; Col 1,18).48 E, assim como a cabeça e os membros de um corpo vivo, embora não se identifiquem, são inseparáveis, Cristo e a Igreja não podem confundir-se nem mesmo separar-se, constituindo invés um único « Cristo total ».49 Uma tal inseparabilidade é expressa no Novo Testamento também com a analogia da Igreja Esposa de Cristo (cf. 2 Cor 11,2; Ef 5,25-29; Ap 21,2.9).50

Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: « uma só Igreja católica e apostólica ».51 Por outro lado, as promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (cf. Mt 16,18; 28,20) e de guiá-la com o seu Espírito (cf. Jo 16,13) comportam que, segundo a fé católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da Igreja, jamais virão a faltar.52

Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica53 — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele ».54 Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmar-se que « o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57

17.  Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele.58 As Igrejas que, embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares.59 Por isso, também nestas Igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja.60

As Comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico,61 não são Igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas Comunidades estão pelo Batismo incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja.62 O Batismo, efetivamente, tende por si ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja.63

« Os fiéis não podem, por conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma — diferenciada e, de certo modo, também unitária — das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma, tornando-se, assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades ».64 « Os elementos desta Igreja já realizada existem, reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades ».65 « Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito Se não recusa a servir-Se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».66

A falta de unidade entre os cristãos é certamente uma ferida para a Igreja; não no sentido de estar privada da sua unidade, mas « porque a divisão é um obstáculo à plena realização da sua universalidade na história ».67

Desta longa citação da Dominus Iesus, depreende-se que a Igreja como instituição visível foi querida pelo Senhor e por Ele constituída. Este argumento derruba o argumento psicológico da Igreja como representação da vontade de muitos supostamente reunidos em nome de Jesus. É este o Corpo que o Senhor formou, indissociável dele mesmo, a Cabeça! Pois, ainda que quisésemos formar uma Igreja à nossa vontade não o poderíamos fazê-lo, pois, que esta não parte "nem da vontade da carne nem da vontade do sangue, mas de Deus mesmo" (Jo 1,12-13)!

Referências Bibiográficas da Dominus Iesus:

(9) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 2.
(10) Ibid., n. 4.
(15) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 5.
(16) Ibid.
(28) Conc. de Niceia I, Symbolum Nicaenum: Denz., n. 125.
(29) Conc. de Calcedónia, Symbolum Chalcedonense: Denz., n. 301.
(30) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.
(31) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 6.
(32) Cf. S. Leão Magno, Tomus ad Flavianum: Denz., n. 294.
(33) Cf. S. Leão Magno, Litterae « Promisisse me memini » ad Leonem I imp.: Denz., n. 318: « In tantam unitatem ab ipso conceptu Virginis deitate et humanitate conserta, ut nec sine homine divina, nec sine Deo agerentur humana ». Cf. ainda ibid.: Denz., n. 317.
(34) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 45. Cf. ainda Conc. de Trento, Decr. De peccato originali, n. 3: Denz., n. 1513.
(47) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14.
(48) Cf. ibid., n. 7.
(49) Cf. S. Agostinho, Enarrat. in Psalmos, Ps. 90, Sermo 2,1: CCL 39, 1266; S. Gregório Magno, Moralia in Iob, Praefatio, 6, 14: PL 75, 525; S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 48, a. 2 ad 1.
(50) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 6.
(51) Símbolo da fé: Denz., n. 48. Cf. Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam: Denz., n. 870-872; Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 8.
(52) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 4; João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 11: AAS 87 (1995) 921-982.
(53) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 20; cf. ainda S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 3, 1-3: SC 211, 20-44; S. Cipriano, Epist. 33, 1: CCL 3B, 164-165; S. Agostinho, Contra advers. legis et prophet., 1, 20, 39: CCL 49, 70.
(54) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 8.
(55) Ibid., cf. João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 13. Conc. Vaticano II, Const. Dogm. Lumen gentium, n. 15 e Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(56) É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. « O Concílio, invés, adotou a palavra “subsistit” precisamente para esclarecer que existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas “elementa Ecclesiae”, que — por serem elementos da própria Igreja — tendem e conduzem para a Igreja Católica » [Congr. para a Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume “Igreja: carisma e poder” do P. Leonardo Boff: AAS 77 (1985) 756-762].
(57) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(58) Cf. Congr. Para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1: AAS 65 (1973) 396-408.
(59) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, nn. 14 e 15; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17: AAS 85 (1993) 838-850.
(60) Cf. Conc. Vaticano I, Const. dogm. Pastor aeternus: Denz., n. 3053-3064; Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 22.
(61) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 22.
(62) Cf. ibid., n. 3.
(63) Cf. ibid., n. 22.
(64) Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1.
(65) João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 14.
(66) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(67) Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17. Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 4.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Resposta a Gregor - Assuntos relativos à fé católica. Questões protestantes.

Caro Gregor, gostaria que o senhor me informasse onde soou agressivo meu texto (a minha resposta ao professor DyCastro). Eu relatei ali somente o que é de praxe da fé católica durante os ritos que precedem a Ordenação Sacerdotal sem agredir nenhuma pessoa. Uma segunda questão: o senhor colocou o tema "Maria" arbitrariamente em seu comentário, uma vez que não toquei neste tema em minha resposta ao referido professor e tão arbitrário quanto seu tema são suas pretensas dúvidas, eivadas de dicta probantia. Em todo caso vou tentar respondê-las a contento.

Para começo de conversa: Nenhum Papa, Bispo, Cardeal ou Padre mandou adorar Maria. Não há nenhum documento da Igreja que mande colocar Maria no lugar do Altíssimo. Em segundo lugar o sr. evoca a doutrina Luterana do Sola Scriptura para respaldar seu argumento contra a devoção legítima a Maria na Igreja. Devo lhe advertir senhor, que esta doutrina é de Lutero e não encontra respaldo na Sagrada Escritura. Jesus não mandou os discípulos seguirem a bíblia, tampouco mandou-os escrevê-la. Ele os mandou pregar o Evangelho (ainda não escrito) ou seja, a boa nova do Reino que Ele inaugurou e isto se fez pela via oral e aí começou a Tradição da Igreja que o herege Lutero precisou rejeitar toda para poder acomodar seu novo dogma. O mesmo Lutero que pregou em 1532 (15 anos após o início da Reforma) se utiliza do penhor da Tradição no seguinte sermão a respeito de Maria: "Ela, a Dama acima do céu e da terra, devia ter um coração tão humilde que não se envergonhava de lavar a roupa de baixo ou de preparar um banho para São João Batista, como uma moça servente. Que humildade! Com certeza teria sido mais justo ter preparado para ela uma carruagem de ouro, puxada por 4.000 cavalose bradar e proclamar enquanto a carruagem andasse: 'Aqui vai a mulher que está MUITO ACIMA de todas as mulheres e, com certeza, acima de TODA a raça humana." E cinco anos mais tarde, em 1537, ele mesmo pregaria o seguinte: "Ela não estava cheia de orgulho por esse elogio, por este imenso elogio: 'Nenhuma mulher é como você! Você é mais que uma IMPERATRIZ ou que uma RAINHA... abençoada acima de toda nobreza, de toda sabedoria ou de toda santidade!" (Fonte: LUTHER'S WORKS 36:208; 45:107 citado em REFUTING THE ATTACK ON MARY de Fr. Mateo, disponível em Catholic Answers).

Veja de onde Lutero retira sua pregação:

Das cartas de São Cirilo de Alexandria, bispo
(Epist. 1: PG 77, 14-18.27-30)    (Sec. V - 375-444)

Muito me admiro de que haja quem duvide se efectivamente a Virgem Santíssima deve ser chamada Mãe de Deus. Na verdade, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que motivo é que a Virgem Santíssima, que O deu à luz, não há-de ser chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que os discípulos do Senhor nos transmitiram, embora não usassem esta mesma expressão. Assim nos ensinaram também os santos Padres. Em particular Santo Atanásio, nosso pai na fé, de ilustre memória, no livro que escreveu sobre a santa e consubstancial Trindade, na terceira dissertação a cada passo dá à Santíssima Virgem o título de Mãe de Deus.

Sinto-me obrigado a citar aqui as suas próprias palavras, que são do teor seguinte: «A Sagrada Escritura, como tantas vezes fizemos notar, tem como finalidade e característica afirmar de Cristo, nosso Salvador, estas duas coisas: que é Deus e nunca deixou de o ser, uma vez que é o Verbo do Pai, seu esplendor e sabedoria; e também que nestes últimos tempos, por causa de nós Se fez homem, assumindo um corpo da Virgem Maria, Mãe de Deus».

E continua assim pouco mais adiante: «Houve muitos que foram santos e livres de todo o pecado: Jeremias foi santificado desde o seio materno; e também João, antes de ser dado à luz, exultou de alegria, ao ouvir a voz de Maria, Mãe de Deus». Estas palavras são de um homem inteiramente digno de fé, a quem podemos seguir com toda a confiança, pois seria incapaz de pronunciar uma só palavra contrária à Escritura divina.


Senhor Gregor, não é tão contraditório seguir um homem (Lutero) que em dado momento afirma uma coisa e noutro, outra?

Voltando às suas questões: Eu não afirmei em nenhum lugar em todo o meu blog - e não somente no texto "Sincretismo em Salvador" - que a Igreja supostamente tenha tirado o tema da virgindade de Maria de outras deusas. Aqui o senhor diz uma mentira deslavada. Exatamente por causa desta mentira é que é preciso repor a verdade, como agora o faço:

Não nasceram todos os deuses de mães virgens: Mitra da Pérsia, Adônis, Osíris e Khrisna?

Não. Ainda que algumas vezes haja traços de semelhança entre o Cristianismo e as várias religiões pagãs, não se dá isso com a Virgindade de Maria. O racionalista Harnack escreve: “A conjectura de Usener de que a idéia da virgindade de Maria é um mito pagão, recebido pelos cristãos, é inteiramente contradito pelo desenvolvimento da tradição cristã” (History of Dogma, I, 100). Antes de mais nada. Mitra nem sequer teve mãe humana: era invariavelmente considerado “filho de uma rocha”, representada por uma pedra cônica que figurava a abóbada celeste, onde apareceu a primeira vez o deus da luz.

Adônis, ou Tamuz (Ez. 8, 14), era um semideus que representava a luz do sol. Vários mitos o fazem o filho de Ciniras, de Fênix, e do Rei Teias da Assíria e de sua filha Mirra. Osíris era filho, ou de “Seb”, Terra, e de “ Nuit”, Firmamento, ou do coração do “Atum”, que foi o primeiro dos deuses e o primeiro dos homens. Khrisna, o mais popular entre os avatares ou encarnações de Vishnu, não nasceu de mãe virgem, pois a mãe deste deus, antes dele nascer, já tinha dado muitos filhos a seu marido Vasudeva. As lendas que o fazem semelhante a Jesus Cristo foram extraídas de documentos posteriores muitos séculos ao Cristianismo e aos Evangelhos (Trisdall: Mystic Christs, 27). Os antigos mitos pagãos foram tomados da natureza e representam a sucessão do dia e da noite, das várias estações do ano, o mistério da vida e sua transmissão de criatura a criatura. Não são datados, nem localizados, e pertencem geralmente a períodos vagos e imaginados, anteriores a aparição do homem sobre a terra. Mas o que se conta de Jesus Cristo – desde o seu nascimento até a sua Ascensão ao Céu – tem todas as características não de um mito, mas de história. Lugares, datas, pessoas, contemporâneos, sucessores, tudo especificado, tudo tão entretecido com a textura de história universal, que ela não pode prescindir dos fatos da vida de Jesus Cristo, contados pelo Evangelho. Fonte aqui.

Ainda sobre Maria, antes de entrar na última parte de seu comentário senhor Gregor, tenho a ressaltar que o dogma da Teotókos, da Virgem Mãe de Deus, tal como definido em Éfeso (431), não é para glorificar Maria. Ainda que o fosse com esta finalidade o teria sido muito bem definido pela Igreja. Este dogma fora definido porque Nestório, patriarca de Constantinopla, se negava a reconhecer em Jesus Cristo as duas naturezas: A divina e a humana unidas indissoluvelmente. Para Nestório, a natureza divina do Verbo não poderia ter sido gerada em Maria por ela ser humana (o mesmo erro protestante ao se recusar reconhecê-la Mãe de Deus). O Concílio reunido sob a direção do Espírito Santo definiu que Jesus Cristo é inseparavelmente homem e Deus, tendo sido assim gerado no ventre de Maria desde sua concepção. Portanto senhor Gregor, o dogma que afirma Maria como Mãe de Deus é completamente cristológico em seu centro e não advém de nenhuma cultura ou religião pagã. Depois disso, Nestório se retirou para um mosteiro onde defendeu a fé católica até o resto de sua vida, muito diferente dos que protestam hoje contra ela.

Quanto a ser rainha, vejamos:

ACUSAÇÃO PROTESTANTE: "Por que a religião católica chama Maria de 'RAINHA DO CÉU'? Não lemos no livro de Jeremias que quando os israelitas adoraram a deusa falsa e má chamada 'RAINHA DO CÉU' foram PUNIDOS por cultuá-la?"

Em primeiro lugar, os católicos não consideram a Santíssima Mãe do Senhor como deus nem deusa nem nada do gênero! Em segundo lugar, o fato de que uma divindade pagã fosse conhecida como a rainha do céu não significa que o termo não possa ser corretamente aplicado, num sentido completamente diferente, a Maria. O rei pagão da Babilônia, Nabucodonosor, é chamado de rei dos reis por Daniel (Daniel 2,37), mas isso não impede que Jesus receba o mesmo título (Ap. 17,14; 19,16).Terceiro, Maria, que todas as gerações "chamarão de abençoada." (Lucas 1,48) tem um motivo legítimo para reivindicar o título de Rainha do Céu. Como cristãos, reconhecemos Cristo como o rei do céu (Mat. 19,23-24). e como Rei da linhagem real de Davi: "Ele será grande, será chamado Filhon do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai (Lucas 1,32). As Sagradas Escrituras referem-se especificamente a Maria como a mãe de Cristo mais de 25 vezes.

Além disso, devemos notar que "a mãe do monarca reinante é conhecida como a Rainha Mãe," (World Book Encyclopedia 2000). Assim, vemos que "Rainha Mãe" denota a mãe (Maria) de um monarca reinante (O Divino Rei, Jesus Cristo).A Rainha Mãe, "Gebi Rah" em hebraico, era uma insigne honraria, e uma tradição iniciada com o filho de Davi, Salomão. As Sagradas Escrituras mostram que na Antiga Israel ou Judá a mãe do herdeiro designado gozava de um estatuto especial. Natã recrutou Betsebéia e não Salomão em seu plano de confirmar Salomão como rei (1 Reis 1,11-40). Rainha Mãe era uma posição oficial em Israel e Judá. Prestava-se muita atenção na preservação dos nomes das rainhas mães (1 Reis 14,21; 15,2,13; 22,42; 2 Reis 8,26). A destituição por parte de Asa de sua mãe por idolatria (1 Reis 15,13) indica seu caráter oficial. Quando da morte de seu filho, Atalia assassinou seus próprios netos, os herdeiros legítimos, para conservar o poder de que gozara como rainha mãe (2 Reis 11,1-2). A rainha mãe serviu de conselheira de confiança para seu filho [Prov. 31,1). Nas Escrituras, Deus dá uma enorme ênfase à rainha mãe da linhagem real de Davi. Nas Escrituras mais de 25 vezes após a apresentação do rei judeu, a rainha mãe é indicada, e isso todas as vezes. Em todos esses versículos , notem-se as palavras, "e o nome de sua mãe era". Note-se o que o rei faz por sua mãe, levanta-se para saudá-la, homenageia-a e manda porem um trono para ela a seu lado direito.

Vemos assim que Maria tem direito ao título de "Rainha do Céu". Mas onde nas Escrituras Deus diz que terá uma Rainha? Nos Salmos 45,9,12,17 lemos:"Filhas de reis estão entre suas damas de honra: à tua direita está a RAINHA em ouro de Ofir...mesmo os povos mais ricos IMPLORARÃO TEUS FAVORES. Farei TEU NOME SER LEMBRADO EM TODAS AS GERAÇÕES: portanto os povos TE LOUVARÃO para todo o sempre."

Seu nome será lembrado em todas as gerações. Caiu a ficha? A profecia é realizada em Lucas 1:48: "Pois considerou a humilhação de sua serva: pois sim, doravante TODAS AS GERAÇÕES ME CHAMARÃO abençoada". No Livro do Apocalipse lemos "Um sinal grandioso apareceu no céu, uma mulher vestida de sol, com a lua sob os pés, e com uma coroa de doze estrelas na cabeça." (Ap. 12,1-2) Que espécie de mulher usa coroa? As rainhas usam coroas, mas essa mulher parece estar coroada das 'mais altas jóias' da criação, as estrelas, tendo o próprio sol como traje real."Enfurecido com a mulher, o dragão foi guerrear contra o resto dos seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus" (Ap. 12,17). Satã não pôde vencer a mulher (Gen 3,16) então passou a combater seus filhos espirituais, os cristãos, gente que dá testemunho de Jesus Cristo. Fonte aqui.

As diferenças entre único mediador (Cristo) e os intercessores, os santos.

Muitos protestantes nos acusam de colocar Maria e os Santos no lugar do Único Mediador entre os homens e a Deus-Pai , que é Jesus Cristo, assim: I Timoteo 2:5 Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

Logicamente como todos os Cristãos, nós católicos acreditamos que as graças vem por meio de Jesus Cristo, como o mediador primário. Isto não quer dizer que nós não nos dirigimos a Deus Pai ou ao Espírito Santo diretamente. A inferência lógica da tradução de 1Timóteo 2,5 é aquela que nós precisamos sempre ir primeiro a Cristo. Mas também temos as palavras do próprio Cristo, que nos disse que, quando rezamos, precisamos dizer: “Pai nosso que estais no céu…” Que aquele texto de 1Timóteo 2,5 não é para ser tomado literalmente fica evidenciado em outra fonte, também do punho de São Paulo: “Rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas vossas orações por mim a Deus” (Romanos 15,30)

Atos 19,11-12 “Deus fazia milagres extraordinarios por intermedio de Paulo, de modo que os lenços e outros panos que tinham tocado o corpo eram levados aos enfermos e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espirtos malignos”

Atos 5,15 “Punham-nos em leitos e macas a fim de que, qdo Pedro passasse,ao menos sua SOMBRA cobrisse alguns deles”

Sem contar que se a pessoa viva pode interceder o proximo mesmo estando longe de Deus, então a oração de uma pessoa que ja esta na graça de Deus é muito mais eficaz.
Nosso Senhor nos manda “Orar uns pelos outros” (MT 5, 44).
S. Tiago nos ordena de “orar uns pelos outros” (Tg. 5, 16).
S. Paulo diz que “ora pelos colossenses” (Col. 1, 3).
2 Corinthios 1,11= Se nos ajudar tambem a vos com oraçoes em nossa intenção.Assim esta graça obtida por intervenção de muitas pessoas lhes será ocasião de agradecer a Deus a nosso respeito.

Existem diversas passagens da Sagrada Escritura em que Deus só atende por meio da intercessão dos santos, como no caso de Jó em que Deus expressamente mandou que o fiel pedisse através de seu servo Jó. Ou mesmo o caso do discípulo de Santo Elias, que só fazia milagres quando pedia através do Deus de Elias. Ou mesmo através da intercessão de Moisés que pediu a Deus não destruísse o povo, mas, que o perdoasse de seus pecados. É natural que Deus atenda àqueles que estão mais perto dele do que àqueles que estão mais distantes. Quanto maior a virtude de uma pessoa, tanto mais perto de Deus ela está e tanto mais pode interceder por nós. Até porque aquele que está mais longe de Deus nem sequer mais eleva seus pensamentos e orações. Fonte aqui.

Mas, será mesmo que os mortos não ouvem, não falam, não interagem? Vamos ver:

Gênesis 5, 23. A duração total da vida de Henoc foi de trezentos e sessenta e cinco anos. 24. Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou.

II Reis 2, 1: Eis o que se passou no dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu num turbilhão (…)

E mesmo no antigo testamento já temos uma menção a interseção dos Santos:

Jer 15, 1. Disse-me, então, o Senhor: Mesmo que Moisés e Samuel se apresentassem diante de mim, meu coração não se voltaria para esse povo. Expulsai-o para longe de minha presença! Que se afaste de mim!

Samuel já tinha até aparecido para Saul depois de morto para fazer uma revelação (I Samuel 28, 1-19). Não era nenhum demônio como alguns costumam dizer, era Samuel mesmo, o próprio texto sacro afirma ser Samuel! Quem somos nós para duvidar? E ainda mais, um demônio é onisciente para saber o futuro? Acaso os demônios já podem profetizar? A confirmação do que Samuel revelou no capitulo 28 se dá no 29. (I Samuel 29, 1-11)

E o novo testamento comprova que eles estavam no céu. Apareceram (Elias e Moisés) para Jesus e conversaram com ele conscientemente, sabendo que ele era o Messias, o que estava fazendo e o que iria acontecer com ele. Confira Mt 17,3;  Mc 9,4; Lc 9, 28-31. E o HOJE de Jesus expresso na cruz ao ladrão que se arrepende de seus pecados, será que o próprio Cristo mentiu ao ladrão com ele crucificado? Não podemos crer nesta hipótese! É mais legítimo crer, como está escrito no evangelho, que naquele mesmo dia o ladrão arrependido e Cristo entraram no Reino da Glória. Mas, só os dois?

Vejamos o Apocalipse de São João:

Ap 5,8: E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos (certamente aqui se refere aos santos escolhidos da Igreja que permanecem na tribulação descrita. No entanto estes 24 anciãos - que são os 12 patriarcas mais os 12 Apóstolos - falam, vêem e ouvem e apresentam as orações dos santos a Deus).

Ap 7,9-10: Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos; E clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro. (Aqui os santos não estão calados e estão diante do Trono de Deus naquele HOJE que Jesus pronunciou na Cruz. Não se pode crer que aquele Hoje pronunciado seja revogável por nenhum homem nesta terra!)

Ainda Ap 19,1;6 reclama esta grande multidão no céu diante de Deus a cantar seus louvores. Vejamos o que um ex-pastor protestante tem a dizer sobre esta multidão:

Como calvinista, foi instruido para acreditar que a missa era o maior sacrilégio que alguém poderia cometer. Pois para eles a missa era um ritual com o propósito de " sacrificar Jesus Cristo outra vez". Entretando a medida que a missa prosseguia, alguma coisa o tocava. A Bíblia estava diante dele nas palavras da missa! Isaías, Salmo, Paulo, Mateus... Não obstante, manteve sua posição de espectador, à parte, até que ouve o sacerdote pronunciar as palavras da consagração:"Isto é o meu corpo... Este é o cálice do meu sangue". Então sentiu todas as suas dúvidas se esvairem. Quando viu o sacerdote elevar a hóstia, percebeu que uma prece subia do seu coração em um sussurro: Meu Senhor e meu Deus. Sois realmente vós!" Quanto não foi maior sua emoção ao ouvir toda a igreja orar:"Cordeiro de Deus..Cordeiro de Deus...Cordeiro de Deus" e o sacerdote dizer: "Eis o Cordeiro de Deus..", enquanto elevava a hóstia. Em menos de 1 min.a frase "Cordeiro de Deus" ressoou 4 vezes. Graças a longos anos de estudo bíblicos, percebeu imediatamente onde estava. Estava no livro do Apocalipse no qual Jesus é chamado de Cordeiro nada menos que 28 vezes em 22 capítulos.Estava na festa de núpcias que João descreve no final do último livro da Bíblia. Estava diante do trono do céu, onde Jesus é saudado para sempre como o Cordeiro. Entretanto, não estava preparado para isso - Ele estava na MISSA! (Scott Hann. O banquete do Cordeiro).

Portanto, fica cabalmente comprovado que os santos já estão (Hoje!) diante do trono de Deus e do Cordeiro e como o próprio Lutero (pai da heresia protestante) disse, Maria é a mais excelsa e santa criatura humana e, portanto, ela está lá diante do Trono oferecendo a Deus as orações dos santos (nós)!

Acho que, por tudo quanto expliquei anteriormente, está esclarecida toda a questão proposta no seu comentário. Espero que lhe sirva de ímpeto para estudar a fé cristã com o intuito de conhecê-la para não arbitrar coisas sem sentido.

Paz em Cristo Jesus!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Homilia de São Cirilo de Alexandria - Defensor da Maternidade Divina da Virgem Maria


Liturgia das horas   
Das cartas de São Cirilo de Alexandria, bispo

(Epist. 1: PG 77, 14-18.27-30)    (Sec. V)

Defensor da maternidade divina da Virgem Maria

Muito me admiro de que haja quem duvide se efectivamente a Virgem Santíssima deve ser chamada Mãe de Deus. Na verdade, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que motivo é que a Virgem Santíssima, que O deu à luz, não há-de ser chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que os discípulos do Senhor nos transmitiram, embora não usassem esta mesma expressão. Assim nos ensinaram também os santos Padres. Em particular Santo Atanásio, nosso pai na fé, de ilustre memória, no livro que escreveu sobre a santa e consubstancial Trindade, na terceira dissertação a cada passo dá à Santíssima Virgem o título de Mãe de Deus.
Sinto-me obrigado a citar aqui as suas próprias palavras, que são do teor seguinte: «A Sagrada Escritura, como tantas vezes fizemos notar, tem como finalidade e característica afirmar de Cristo, nosso Salvador, estas duas coisas: que é Deus e nunca deixou de o ser, uma vez que é o Verbo do Pai, seu esplendor e sabedoria; e também que nestes últimos tempos, por causa de nós Se fez homem, assumindo um corpo da Virgem Maria, Mãe de Deus».
E continua assim pouco mais adiante: «Houve muitos que foram santos e livres de todo o pecado: Jeremias foi santificado desde o seio materno; e também João, antes de ser dado à luz, exultou de alegria, ao ouvir a voz de Maria, Mãe de Deus». Estas palavras são de um homem inteiramente digno de fé, a quem podemos seguir com toda a confiança, pois seria incapaz de pronunciar uma só palavra contrária à Escritura divina.
E de facto a Escritura, inspirada por Deus, afirma que o Verbo Se fez carne, isto é, Se uniu a uma carne dotada de uma alma racional. Por conseguinte, o Verbo de Deus assumiu a descendência de Abraão e, ao formar para Si um corpo vindo de uma mulher, fez-Se participante da carne e do sangue. Deste modo, já não é somente Deus, mas também homem semelhante a nós, em virtude da sua união com a nossa natureza.
Portanto o Emanuel, Deus-connosco, consta de duas realidades: divindade e humanidade. Mas é um só Senhor Jesus Cristo, um só verdadeiro Filho por natureza, ainda que ao mesmo tempo Deus e homem. Não é apenas um homem divinizado, como aqueles que pela graça se tornam participantes da natureza divina; mas é verdadeiro Deus que, por causa da nossa salvação, Se fez visível em forma humana, como também testemunha São Paulo com estas palavras: Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sob o jugo da Lei e nos tornar seus filhos adoptivos.