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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O cravo não brigou com a rosa


Texto de Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.
Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha.
Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.
Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não.
Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

Abraços,
Luiz Antônio Simas

(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Antropologia Filosófica: O homem atual



Eu, pensando em escrever sobre os tempos atuais, optei pela antropologia. Quando estudava no seminário me lembro que na obra do Pe. Edvino Rabuske "Antropologia filosófica" se identificava o homem como um ser multi ou pluridimensional. Estes sufixos são muito usados hoje, porém, não no contexto que aprendi em Rabuske. Rabuske como um ótimo catalizador das idéias afirmava o homem como um ser paradoxal em si mesmo. Aquele que pode ser uma coisa e outra ao mesmo tempo. Por isso o homem é um ser racional, mas, também passional. Um ser político, mas, também tendente ao individualismo. Um ser religioso, mas, também agnóstico. Todas estas e outras tentativas de definição ajudam a elucidar quem somos. Meu interesse de pensamento, porém, me faz remontar aos gregos. Na clássica definição de Protágoras o homem é a medida de todas as coisas, como última instância e parâmetro de decisão. Lembremo-nos que Protágoras cunhou este axioma no contexto da sofística grega, criticada por Platão por buscar os interesses pessoais ou dos filósofos ou de seus alunos. Ao contrário de Platão que supunha uma política em vista da construção do ideal da polis grega, assim como Aristóteles, Protágoras preconiza um estado de coisas que se adéqüem ao homem onde quer que este se encontre e não o contrário. Assim, o que vale para um ateniense pode não valer para um estagirita conforme o pensamento do sofista de Abdera.

Depois da Política de Aristóteles que define o homem como um ser em relação para seu próprio bem e bem da pólis – dada inclusive sua veia “empírica” para as demonstrações – a filosofia, a teologia escolástica e toda a compreensão cristã de mundo define o homem como um ser em relação. Um ser contingente em relação a um determinado Outro Absoluto. Esta certeza psicológica de saber-se pequeno e importente em relação a um ser transcendente e Onipotente trouxe ao homem medieval o desejo incessante de conhecer os mistérios da vida, motivo pelo qual em pleno século XIII nasce o método de observação científica com o franciscano Roger Bacon. Não somente o homem medieval se compreende na relação com a Divindade, mas esta relação molda em certa medida a ação do homem medieval. Este modo singular de auto-compreensão o faz meter-se na relação com o seu semelhante com a consciência de estar diante de um outro ser criado à imagem e semelhança do próprio Deus. Ainda que a precariedade da vida no medievo sugira outra compreensão, a relação entre os semelhantes não tinha como finalidade Ab-usar (frui) com intuito pragmático-hedonista contemporâneos, mas como meio de subsistência diante de uma natureza muitas vezes indomável, hostil e desconhecida. Assim o afirma o polêmico Hilário Franco Jr na obra “A Idade Média. Nascimento do Ocidente” pg. 190.

Na ebulição que fomenta o nascimento da idade moderna na falsa oposição entre fé e razão (todo o contexto de iluminismo e revolução francesa aqui incluído) o homem começa a alçar vôos no ambiente desconhecido fora do mundo conhecido. A dita “emancipação” da razão, do homem, trouxe uma auto-compreensão ligada à autonomia do indivíduo. O indivíduo ganha espaço ante o coletivo. Nascem os direitos individuais e se buscam direitos coletivos. As demandas pessoais sobressaem ante as necessidades da coletividade. Começa a esboçar-se um novo sujeito colocado no pódio das definições sobre quaisquer outra: o homem é aquilo que ele faz de si (Sartre), mas, também um pouco do que fizeram com ele (Freud, Rosseau). Sobretudo, o homem moderno é aquele que se admira do céu estrelado acima de si buscando as razões convictas de uma lei moral – ainda que personalista e atéia – dentro de si (Kant). E o homem contemporâneo?

Cheguei onde pretendia quando iniciei este texto. O homem contemporâneo não é kantiano ou sartreano, tampouco nietzscheniano ou cristão. O homem contemporâneo é tudo isto e nada disto! Que espécie de ser pode pensar em si antes que no feto que carrega em seu ventre? Que espécie de ser pode pensar em si antes que na coletividade? Que espécie de ser desonera-se de quaisquer responsabilidades para com a divindade no ritmo do indiferentismo ou mesmo do agnosticismo? Que espécie de homem cultua o vício no lugar da virtude; o sexo desregrado no lugar da continência; a anarquia no lugar da ética e da moral; o pragmatismo utilitarista no lugar da dignidade humana; o bem-estar temporal acima das leis, das religiões, dos dogmas e dos valores? Certamente que a resposta para todas estas perguntas é uma só: o homem contemporâneo. Noutro texto meu [link] eu escrevia sobre a morte da razão no ocidente através de uma observação do cotidiano. Noutro nível, escrevo hoje, percebo que a razão não morreu, acomodou-se, cansou-se ou perdeu-se e se contenta com os conteúdos pré-digeridos sem fazer-lhes crítica.

O homem caiu do ninho e não sabe como voltar. O homem contemporâneo, sobretudo os de alguma ilustração, debatem-se perdidos no niilismo.  Tal como prefigurou Nietzsche em "O crepúsculo dos deuses" e em "A Gaia Ciência", a morte dos valores transcendentais ou metafísicos abre o fosso do absurdo no-sense. Neste estado de coisas o que há é ausência de sentido, fragmentação, dissolução do Absoluto e da Verdade. É um pensamento que se faz notar na literatura, nas artes, nas ciências humanas, na ética e na moral. Que arte há numa exposição de um vaso sanitário sobre uma plataforma de concreto? Para a arte niilista isto é a própria arte. Com a emergência desse humano fragmentário e niilista, cresce a angústia e o desespero. Crescem a neurose, a depressão, o ressentimento, a negação das estruturas e instituições e a tristeza. Cresce o individualismo uma vez que cada um precisa encontrar o próprio sentido das coisas independente do outro. Neste estado de coisas onde "tudo vale" impõe-se a ditadura do relativismo, como inúmeras vezes afirmou o Papa Bento XVI e nele não há espaço para Deus, para a Verdade, a Beleza, a Justiça, o Bem. A nova religião é também ela niilista ainda que fale de Deus. Ela transfigura-se na imagem de seus persecutores que como ratos numa caixa d`água buscam a saída imediata do afogamento instrumentalizando a religião para uma finalidade egocêntrica.

De  modo totalmente arbitrário quero agora esboçar um pensamento de resposta ao niilismo contemporâneo. De nada nos adianta voltar aos parâmetros da cristandade. Uma vez que foram negados não mais serão aceitos. O niilista é aquele que testou a ausência, o nada e o vazio. É aquele que se define por si mesmo e se encontra sem direção. Um começo de resposta é a redescoberta do outro. Quem é o meu próximo ["para que eu o ame" fica para depois]? Perguntou um fariseu a Jesus. "É o teu mais próximo", foi a resposta de Cristo. Lèvinas argumenta com a interpelação do rosto do outro como lugar de encontro e descoberta da alteridade. É o outro naquilo mesmo que ele se revela, "uma interpelação ética que me responsabiliza" não apenas uma categoria de pensamento abstrata, mas uma realidade em afrontamento (de frente a) a um outro diferente que se quer Pessoa, como diria Mounier. Do reconhecimento da alteridade, do outro como um ser singular e não manipulável começa uma resposta ao niilismo. Buber afirmou que na relação Eu-Tu se dá o diálogo, o encontro e é justamente este encontro que possibilita uma real antropologia. De fato, não há uma antropologia que prescinda deste encontro com a alteridade. Todos estes exímios pensadores mesmo que em contextos diferentes, defendem o princípio da relação com o outro como instrumento da real emancipação humana. Exatamente aqui começa o erro niilista: o homem não se emancipa sozinho, ou nem mesmo se emancipa se isto for compreendido como ausência de leis, regras e valores. Para o bem da polis, dizia Aristóteles, é que se deve exercer a ars política. Havia a polis grega como instância máxima de valores e critério de vida. Hoje nem a polis, nem a política, nem a ética ou a moral. E tudo isto porque perdeu-se o princípio do respeito na alteridade.

Segundo Mounier, caracteriza-se como individualista “... o homem abstrato, sem vínculos nem comunidades naturais, deus supremo no centro duma liberdade sem direção nem medida sempre pronto a olhar os outros com desconfiança, cálculo ou reivindicações”, é um centro composto de vontades sobre o qual gira o universo (MOUNIER, E. O Personalismo. Martins Fontes. 1964, pg. 61/2). É exatamente nesta fissura que o cristão precisa intervir repropondo a cada indivíduo a prova da alteridade e de fato há que ser prova. Os indivíduos amealhados por este novo modo de pensar, o niilismo, não se contentam com verdades empacotadas, mas precisam comprová-las. A partir da prova da alteridade se busca então o encontro com a Revelação paulatina de Deus como aquele que não rouba a individualidade ou a liberdade, mas, o que a proporciona. Somos a criação de um Deus-Trindade que é relação e em si mesmo, por isso negador da solidão. Esta criação é um ato pessoal único e livre, não um fruto de Idéias ou simples combinação de forma e matéria, ou de um substare organizado por um demiurgo. Esse homem é criado por Deus à sua imagem e semelhança, ou seja, indissociável em si – corpo e alma –, uno e múltiplo, livre. Chamado a uma metanoia contínua e à relação pessoal com Ele a partir de uma liberdade criada na relação íntima e que faz com que a pessoa participe efetivamente da vida divina. Essa liberdade concedida ao homem é análoga à própria liberdade criadora de Deus que não se impõe sobre a debilidade humana, nem a aniquila, mas o chama a completar sempre o estreitamento dessa relação.

Sartre ao contrário de Lèvinas compreendeu que o olhar do outro tira a liberdade do indivíduo, um olhar que rouba seu universo, que escraviza, que é, propriamente, um inferno. O outro é, para este pensador existencialista ateu, uma ameaça constante de alienação e usurpação da integralidade do ser-eu. Por isso, o inferno é projetado no olhar do outro. A simples idéia da relação com ele é, para o existencialista ateu, uma usurpação ardilosa que sugere o medo sempre presente da enganação. Nesse medo, nega-se toda a realidade de outro e, o transcendente Absoluto também é negado ou ignorado: “A própria obsessão da alienação é a reação típica do paranóico. Talvez até o transcendente seja negado só pelo medo de usurpação” (Mounier). O imperioso trabalho de desconstrução desta falsa imagem do outro e de Deus é trabalho ingente do cristão engajado na realidade mais premente deste século: o niilismo.