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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Existe uma única religião revelada!

video


Ainda que seja Padre Quevedo... o vídeo é muito interessante.

"O mais interessante do tema da incorrupção [cadavérica] entre os cismáticos [protestantes, ortodoxos e cia], pelo seu aspecto claríssimo de sinal ou assinatura de Deus, é que todos os cadáveres que estiveram ou estão verdadeiramente incorruptos entre os cismáticos são de santos falecidos antes do cisma. Depois que se separaram do Primado Romano não houve novos incorruptos de cismáticos. Só de santos católicos. É a assinatura de Deus a favor do Primado do Pontífice de Roma ou do Catolicismo em geral. Como em todos os tipos de milagres"
[Os Milagres e a ciência. Pe Oscar G. Quevedo. Loyola. 2000]

quinta-feira, 3 de maio de 2012

É bíblica a missa? Parte I


Há muito tempo eu quis escrever sobre este tema. Resolvi escrever este texto devido o fato de alguns Protestantes Neopentecostais e Pentecostais afirmarem peremptoriamente que Jesus nunca mandara rezar missa! Pasmem! Embasados no dogma do Sola Scriptura criado por Martinho Lutero no seu escrito "A Liberdade de um Cristão" de 1520, negam qualquer interpretação ou aplicação da Sagrada Escritura que não esteja nela mesma prevista. Aqui já há um problema de frente: A premissa Protestante Neopentecostal e Pentecostal para se negar a missa, parte do pressuposto dogma luterano que não está na Bíblia mas, em um escrito de Martinho Lutero. Mas, vamos fazer de conta que aceitamos o erro formal da premisssa protestante e vamos nos perguntar: a missa é bíblica?

[Sobre a doutrina da Sola Scriptura ler mais aqui: Link1 - Link 2 - Link 3]

Levando adiante o pressuposto Protestante Neopentecostal e Pentecostal, nem o dito "culto" ali realizado o poderia ser, pois, Jesus ensinou apenas três formas de orar segundo a Sagrada Escritura: A primeira, pública, utilizando o Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). O segundo modo que Jesus ensina orar é em particular, entrando para o quarto (metáfora para coração) e orando ao Pai como está em Mt 6,5-6. Há um terceiro modo que Jesus utiliza para orar: Ele toma o pão, abençoa, dá graças, reparte o pão e o entrega aos seus. A este modo particular a Igreja chamou Eucaristia "porque as palavras Eucharistein e Eulogein (Lc 22,19; 1Cor 11,24 e Mt 26,26; Mc 14,22 respectivamente) lembram as bênçãos judaicas que proclamam [...] a criação, a redenção e a santificação" (Catecismo da Igreja Católica, doravante CIC, n. 1328). Os textos bíblicos nos evangelhos sinóticos que demonstram Jesus realizando Eucaristia são: Lc 24,30 (os discípulos de Emaús); Mc 6,41 que acrescenta: "elevou os olhos ao céu" (primeira multiplicação dos pães); Mc 8,6 (segunda multiplicação dos pães); Mc 14,22 (instituição da Eucaristia); Mt 14,19 (primeira multiplicação dos pães); Mt 26,26-29 (instituição da Eucaristia); Lc 22,14-20 (instituição da Eucaristia).

Este modo de orar foi ainda chamado de Ceia do Senhor "por se tratar da ceia que o Senhor fez com seus discípulos às vésperas de sua paixão" (CIC, n. 1329). Chama-se ainda "Assembléia Eucarística (gr. Synaxis) porque a Eucaristia é celebrada na Assembléia dos fiéis, expressão visível da Igreja" (CIC, n. 1329).

A Igreja ainda deu a este modo particular de orar, ensinado por Jesus, o nome de "Santo Sacrifício, Santo Sacrifício da Missa, Sacrifício de Louvor, Sacrifício espiritual, Sacrifício Puro e Santo, pois realiza e supera todos os sacrifícios da Antiga Aliança" (CIC, n. 1330).

Tem ainda, este modo próprio da Igreja orar o nome de Missa, pois, termina com o envio dos fiéis para a vida e a missão de anunciar o Cristo: "Ide...", como Jesus no enviou a todos, somos por ele enviados ao término daquela ação litúrgica.

Sem me deter mormente no Sacramento Augustíssimo da Eucaristia que por si mesmo já pede outro texto, irei expor ainda que suscintamente a estrutura da Missa, Eucaristia, Ceia do Senhor... Antes, porém, devo responder a uma objeção que se impõe: Se não há na Bíblia mandato explícito para se celebrar a Missa, porque a Igreja o faz? Ela desobedece a Sagrada Escritura?
1. Há o mandato explícito de Jesus para os Apóstolos: "Fazei isto em minha memória". (Lc 22,19; 1Cor 11,24). Tal mandato de Jesus não é para que se lembre, somente. Se assim o fosse, não teria São Paulo escrito: "Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha" (1Cor 11,26). E ainda, se tal celebração fosse apenas para lembrar o que Jesus fez um dia, sem nenhum sentido sacramental, salvífico, São Paulo também não teria escrito: "Eis porque todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação." (1Cor 11,27-28). Ora, se o cálice que tomamos e o pão que partimos fossem meros vinho e pão não teríamos com o que nos preocupar, pois, um pão pode nos condenar? Uma alface pode nos tornar réus do Corpo do Senhor? O arroz que você come precisa ser comido somente depois de ter sido discernido? O suco de uva que você bebe só o poderá ser bebido se você estiver digno para tal? Um condenado à morte não come e bebe como o mais santo dos homens e, no entanto, a comida nada lhe acrescenta ou lhe tira. Se a Eucaristia fosse uma simples lembrança e o pão e o vinho, corpo e sangue do Senhor, meros enfeites e símbolos, então esta página da Sagrada Escritura seria inútil e São Paulo um desentendido das coisas do Senhor e, portanto, indigno de qualquer crédito (cf. 1Cor 11,23).
2. A Igreja obedece o que a Tradição e a Sagrada Escritura afirmam, pois, uma complementa a outra.
(ops, já vejo um Pentecostal ou Neopentecostal gritar: Mas a Tradição é coisa de homens e não se pode aceitar doutrinas humanas... blá... blá... blá... Cale-se, irmão. É humana a doutrina de Lutero da Sola Scriptura e você a segue sem questionar! Use outro argumento.)

Do Catecismo da Igreja Católica, n. 1345
Desde o século II temos o testemunho de S. Justino Mártir sobre as grandes linhas do desenrolar da Celebração Eucarística, que permaneceram as mesmas até os nossos dias para todas as grandes famílias litúrgicas. Assim escreve, pelo ano de 155, para explicar ao imperador pagão Antonino Pio (138-161) o que os cristãos fazem:

"No dia 'do Sol', como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos. Lêem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas. Depois, quando o leitor terminou, o que preside toma a palavra para aconselhar e exortar à imitação de tão sublimes ensinamentos. A seguir, pomo-nos todos de pé e elevamos nossas preces  por nós mesmos (...) e por todos os outros, onde quer que estejam, a fim de sermos de fato justos por nossa vida e por nossas ações, e fiéis aos mandamentos, para assim obtermos a salvação eterna. Quando as orações terminaram, saudamo-nos uns aos outros com um ósculo. Em seguida, leva-se àquele que preside aos irmãos pão e um cálice de água e de vinho misturados. Ele os toma e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, no nome do Filho e do Espírito Santo e rende graças (em grego: eucharístia, que significa 'ação de graças') longamente pelo fato de termos sido julgados dignos destes dons. Terminadas as orações e as ações de graças, todo o povo presente prorrompe numa aclamação dizendo: Amém. Depois de o presidente ter feito a ação de graças e o povo ter respondido, os que entre nós se chamam diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água 'eucaristizados' e levam (também) aos ausentes"

A seguir, reproduzo quase que textualmente o Cap. I do Livro "O Banquete do Cordeiro. A missa segundo um convertido" de Scott Hahn, professor de teologia e de Escritura na Universidade Franciscana em Steubenville. Neste capítulo, o ex-pastor comenta como foi se convertendo paulatinamente à fé católica justamente indo à missa:

Ao estudar os escritos dos primeiros cristãos, Scott, encontra inúmeras referencias à "liturgia", à "Eucaristia", ao "sacrifício". Foi então a santa missa (logicamente incognito, visto que era um ministro protestante, calvinista), como um execício academico. Como calvinista, foi instruído para acreditar que a missa era o maior sacrilégio que alguém poderia cometer. Pois para eles a missa era um ritual com o propósito de "sacrificar Jesus Cristo outra vez". Entretando a medida que a missa prosseguia, alguma coisa o tocava. A Bíblia estava diante dele! Nas palavras da missa! Isaías, Salmos, Paulo... Não obstante, manteve sua posição de espectador, à parte, até que ouve o sacerdote pronunciar as palavras da consagração: "Isto é o meu corpo... Este é o cálice do meu sangue".

Então sentiu todas as suas dúvidas se esvairem. Quando viu o sacerdote elevar a hóstia, percebeu que uma prece subia do seu coração em um sussurro: "Meu Senhor e meu Deus. Sois realmente vós!" Como não foi maior sua emoção ao ouvir toda a igreja orar: "Cordeiro de Deus... Cordeiro de Deus... Cordeiro de Deus" e o sacerdote dizer: "Eis o Cordeiro de Deus...", enquanto elevava a hóstia. Em menos de 1 minuto a frase "Cordeiro de Deus" ressoou 4 vezes. Graças a longos anos de estudo bíblicos, percebeu imediatamente onde estava. Estava no livro do Apocalípse, no qual Jesus é chamado de Cordeiro nada menos que 28 vezes em 22 capítulos. Estava na festa de núpcias que João descreve no final do último livro da Bíblia. Estava diante do trono do céu, onde Jesus é saudado para sempre como o Cordeiro. Entretanto, não estava preparado para isso - Ele estava na MISSA!

Scott volta à missa por 2 semanas, e a cada dia "descobria" mais passagens das Escrituras consumadas diante de seus olhos. Contudo, naquela capela , nenhum livro lhe era tão visível quanto o da revelação de Jesus Cristo, o Apocalípse, que descreve a adoração dos anjos e santos de céu. Como no livro, ele vê naquela capela, sacerdotes paramentados, um altar, uma assembléia que entoava: "Santo, Santo, Santo". Viu a fumaça do incenso, ouviu a invocação de anjos e santos... ele mesmo entoava os aleluias, porque se sentia cada vez mais atraído a essa adoração.

A cada dia se desconcertava mais, e não sabia se voltava para o livro ou para a ação no altar, que pareciam cada vez mais ser exatamente a mesma! Mergulhou nos estudos do cristianismo antigo e descobriu que os primeiros bispos, os Padres da Igreja, tinham feito a mesma descoberta que ele fazia a cada manhã. Eles consideravam o livro de Apocalípse a chave da liturgia e a liturgia a chave do livro do Apocalípse. Scott começava descobrir que o livro que ele mais achava desconcertante, agora elucidava as idéias mais fundamentais de sua fé: A idéia da aliança como elo sagrado da família de Deus.

Além disso, a ação que ele considerava a maior das blasfêmias - a missa - agora se revelava como a celebração litúrgica do acontecimento que ratificou a aliança de Deus: "Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna alinça". Scott estava aturdido, pois durante anos tentou compreender esse livro como uma espécie de mensagem codificada a respeito do fim do mundo, a respeito do culto no céu distante, algo que os cristãos não poderiam experimentar aqui na terra! Agora , queria gritar a todos dentro daquela capela durante a liturgia: "Ei, pessoal.Quero lhes mostrar onde vocês estão no livro do Apcalípse! Consultem o cap.4, vers. 8... Isso mesmo! Agora mesmo vocês estão no céu!!!

Os padres da igreja mostraram que essa descoberta nao era de Scott! Pregaram a respeito há mais de mil anos. Scott, no entanto, estava convencido de que merecia o crédito pela redescoberta da relação entre missa e o livro do Apocalípse! Então, para sua surpresa, descobre que o Concílio Vaticano II o tinha passado para trás! Reflitam nestas palavras da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: "Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos. Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda milícia do exército celestial entoamos um hino de Glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo até que ele, nossa vida, se manifeste e nós apareçamos com Ele na glória"

Espere um pouco.Isso é céu. Não, isso é missa. Não, é o livro do Apocalípse. Espere um pouco: Isso é tudo o que está acima! Scott, se acalma, para não ir rápido demais, para evitar os perigos aos quais os convertidos são susceptíveis! Pois, ele estava rapidamente se convertendo à fé católica! Contudo, essa descoberta não era produto de uma imaginação superexcitada; era o ensinamento solene de uma "Concílio da Igreja Católica".

Com o tempo, Scott descobre que essa era também a conclusão inevitável dos estudiosos protestantes mais rigorosos e honestos. Um deles, Leonard Thompson, escreveu que "até mesmo uma leitura superficial do livro de Apocalípse mostra a presença da linguagem litúrgica disposta em forma de culto...". Basta as imagens da liturgia para tornar esse extraordinário livro compreensível. As figuras litúrgicas são essenciais para sua mensagem, escreve Thompson, e revelam "algo mais que visões de 'coisas que estão por vir'".

O livro do Apocalípse tratava de Alguém que estava por vir. Tratava de Jesus Cristo e sua "segunda vinda", a forma como, em geral, os cristãos traduziram a palavra grega parousia. Depois de passar horas e horas naquela capela, Scott aprende que aquele Alguém era o mesmo Jesus Cristo que o sacerdote católico erguia na hóstia. Se os cristãos primitivos estavam certos, ele sabia que, naquele exato momento, o céu tocava a terra: "Meu Senhor e meu Deus. Sois realmente vós!"

Ainda assim, restavam muitas perguntas sérias na mente e no coração de Scott: Quanto à natureza do sacrifício. Quanto aos fundamentos bíblicos da missa. Quanto a continuidade da tradição católica. Quanto a muitos dos pequenos detalhes do culto litúrgico. Essas perguntas definiram suas investigações nos meses que levaram a sua admissão na Igreja Católica. Em certo sentido, elas continuam a definir seu trabalho de hoje.

"Porém, agora ele não faz mais perguntas como acusador ou curioso, mas como filho que se aproxima do pai, pedindo o impossível, pedindo para segurar na palma da mão uma estrela luminosa e distante." Scott não crê que Nosso Pai nos recuse a sabedoria que buscamos a respeito de sua missa. Ela é afinal de contas, o acontecimento no qual ele confirma sua aliança conosco e nos faz seus filhos. Este livro é mais ou menos o que Scott descobriu enquanto investigava as riquezas de "nossa tradição católica".

Nossa herança inclui toda a Bíblia, o testemunho ininterrupto da Tradição, os constantes ensinamentos dos santos e do Sagrado Magistério, a pesquisa dos teólogos e estudiosos. Na missa , você e eu temos o céu na terra. As provas são prodigiosas. A experiencia é uma revelação!

Na segunda parte vamos percorrer as partes da missa para explicar cada uma.


É bíblica a missa? Parte II - As partes da missa


Continuando a exposição para responder à pergunta: "É bíblica a missa?" vamos ao rito da Missa parte por parte para ver se há algo de bíblico nele. Isto aqui já é por si mesmo desnecessário por tudo quanto se disse anteriormente na I Parte, mas, para alimentar a espiritualidade católica e a curiosidade dos nossos leitores, vamos ao rito da missa. Farei uma terceira parte sobre o rito e a ritualidade litúrgica na Igreja

1. Procissão e cântico de entrada. Lembra o caminhar do povo no deserto rumo à terra prometida. Enquanto estamos nesta terra, peregrinamos todos rumo àquela terra prometida por Jesus, o céu: "Vou preparar-vos um lugar e quando eu meu for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós" (Jo 14,2-3). Ademais, sempre foi costume do povo de Deus caminhar, peregrinar aos Santuários e ao Templo de Jerusalém conforme encontramos nos salmos das subidas (Sl 120 a 134). Quando se inicia a Santa Missa e têm-se início a procissão de entrada, está nos lábios dos fiéis: "Que alegria quando ouvi que me disseram: vamos à casa do Senhor. E agora nossos pés já se detém, Jerusalém, em tuas portas" (Sl 122,1-2). A missa, portanto, é um peregrinar ao coração do mistério. Não é um caminhar sem sentido, às escuras ou perdido por 40 anos em um deserto escaldante. É um caminhar à luz da fé e para a luz da Vida: "Vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou" (cf. CIC, n. 732).

2. O sinal da Cruz e a saudação inicial. A ação litúrgica começa em nome da Santíssima Trindade. A liturgia é obra da Santíssima Trindade! Nada se faz na Igreja sem a ação de Deus. A Assembléia é reunida no amor de Cristo pela ação do Espírito Santo para prestar o eterno culto de louvor ao Pai: "O cântico de louvor, que ressoa eternamente nas moradas celestes, e que Jesus Cristo, Sumo Sacerdote, introduziu nesta terra de exílio, foi sempre repetido pela Igreja, durante tantos séculos, constante e fielmente, na maravilhosa variedade das suas formas" (Laudis Canticum, Paulo VI, PP.). Tal cântico de Louvor é a Liturgia da Igreja em sua "maravilhosa variedade de formas". Quem presta o culto a Deus é uma comunidade cultual e não apenas um indivíduo. Desde o Antigo Testamento, as Assembléias de culto ali descritas, sobretudo no Deuteronômio e Crônicas, evocam a proximidade de Deus com seu povo e a sua convocação para o culto em sua presença: QHL-IHWH (Qahal-Iahweh) (cf. Dt 4,10; 9,10; 18,16). Reunida pela primeira vez no Sinai por Deus, a comunidade cultual hebréia se tornou, em Cristo, a nova Jerusalém (cf. Ap 21, 1-8). A tradução dos LXX em Alexandria faz passar QHL-IHWH (Qahal-Iahweh) no hebraico à EKKLESIA, Igreja, no grego, com o mesmo sentido. Por isso a Assembléia reunida para a Eucaristia responde: "Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo". A saudação inicial é sempre tirada de uma das cartas de São Paulo, como esta, por exemplo: "O Deus da esperança vos cumula de todo gozo e paz em vossa fé, até transbordar de esperança pela força do Espírito Santo" (cf. Rm 15, 13).

3. O Ato Penitencial ou exame de consciência. É o momento no qual toda a Assembléia convocada pede ao Senhor a purificação do coração para celebrar dignamente aqueles santos mistérios. Reconhecendo a própria indignidade e a absoluta transcendência de Deus, todo o povo ali reunido invoca o Senhor em sua Misericórdia e perdão. É o cumprimento do preceito de São Paulo em 1Cor 11,28.

4.O Glória. Neste Hino composto pela Igreja exalta-se a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. É entoado nas festas e solenidades. É entoado por todo o povo. Não é, como muitos pensam, uma expressão de alegria pelo perdão recebido no exame de consciência. Mas, é a exaltação de Cristo por aquilo mesmo que Ele é: Senhor (cf. Fl 2,11), Cordeiro (cf. Jo 1,36), Filho de Deus Pai (cf. Mc 1,11). Aqui vale uma nota importante: O Glória não pode ser substituído por um hino de louvor qualquer que não corresponda à natureza mesma deste Hino Católico.

5. A Palavra. Depois todos ouvimos as leituras do Antigo Testamento, dos Apóstolos, o Evangelho e a homilia de quem preside. De fato, desde Justino Mártir (supra citado) e a Traditio Apostólica de Hipólito de Roma (séc. III) que esta ordem não muda. Aliás, muito antes deles. Nas Assembléias litúrgicas dos Atos dos Apóstolos já era comum o ouvir juntos a Palavra, a comunhão fraterna dos alimentos (partilha), a eucaristia (fração do pão) e as orações (cf. At 2,42).

6. A profissão de fé. Aqui caberia um texto somente sobre o Credo. Tendo sido composto a partir da Sagrada Escritura todo ele é uma afirmação, uma proclamação da nossa fé. É dividido em 3 partes: Afirma-se a fé na Trindade Santa: Pai, Filho e Espírito Santo; afirma-se crer a Igreja como obra da Santíssima Trindade e, por fim, afirma-se a fé escatológica da Igreja: a ressurreição e a vida eterna. Sobre o Credo, uma exposição mais detalhada se encontra aqui: Link.

7. As preces. São orações compostas pela Igreja, pelas necessidades da Igreja e do mundo que são elevadas a Deus. De fato, são importantes porque expressam a confiança filio-paternal na Divina Providência como ensina At 2,42.

8. As oferendas: pão e vinho e a Oração Eucarística. Usamos pão e vinho porque Jesus mandou que se o fizesse em sua Memória (como explicado anteriormente). A respeito da Oração Eucarística, vou transportar um breve texto sobre a Oração Eucarística II que possui a seguinte estrutura:

[ROCCHETTA, Carlo. Os sacramentos da fé. Ensaio de teologia bíblica sobre os sacramentos como “maravilhas da salvação” no tempo da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1991. pg. 317-320]

A segunda prece eucarística
 Esta prece se distingue por sua brevidade e simplicidade. Ela foi composta levando em conta antigo formulário constante da “Traditio Apostólica”, de santo Hipólito romano, que remonta aproximadamente ao ano de 215. Quanto ao conteúdo, destaca-se pelo relevo que dá ao mistério de Cristo. Tem prefácio próprio, que pertence ao corpo geral, mas que pode ser substituído por outros em consonância com o ano litúrgico.

a) Ação de graças

Introduzido pelo diálogo celebrante-comunidade, o prefácio é verdadeira ação de graças pelas “maravilhas da salvação” realizadas pelo Pai com o envio do Filho, "feito homem por obra do Espírito Santo”, de cujo sangue brotou o novo povo de Deus, que, a uma só voz, pode agora proclamar a infinita santidade de Deus. Depois de afirmar o dever de “dar graças sempre e em toda parte” ao Pai por Jesus Cristo, Filho do seu amor, recorda em uma só visão tanto a “maravilha” da criação como a “maravilha” da redenção: "Por meio dele, tua Palavra viva, criaste todas as coisas e o enviaste a nós, Salvador e Redentor, feito homem por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria”.

Cristo é o centro do culto cristão, pois é, ao mesmo tempo, o centro da criação e da redenção, já que tudo foi feito por meio dele, nele e em função dele e tudo foi reconciliado no seu sangue (cf. CI 1,13-20). O prefácio continua, destacando que a encarnação do verbo alcança seu cumprimento no mistério de sua páscoa, da qual, como de uma fonte, deriva todo o mistério da Igreja: "Para cumprir a tua vontade e adquirir para ti um povo santo, ele estendeu os braços na cruz e, morrendo, destruiu a morte e proclamou a ressurreição”. Desse modo, "a aquisição de um povo consagrado, e a paixão, na qual o crucificado estende os braços na cruz como para abençoar e abraçar o universo: assim ele anuncia a morte e manifesta a ressurreição. A concisão dessa descrição une a morte e  a ressurreição de Cristo em um só ato, libertador e vitorioso”. Essa evocação conclui com o louvor à santidade e à grandeza de Deus, de cuja glória o céu e a terra estão cheios.

b) Passagem e epiclese sobre as oferendas

 A fórmula de passagem, "Pai verdadeiramente Santo, fonte de toda santidade”, retorna a idéia da santidade de Deus, mas a desenvolve, destacando que toda santidade e santificação deriva do Pai. Assim, estamos em cheio no âmbito das “maravilhas de Deus”, pois a santidade é uma delas. Dessa convicção de fé nasce a epiclese (ou invocação )do Espírito. Com efeito, se Deus Pai é a fonte de toda santidade, é perfeitamente lógico que ele seja invocado para a santificação e a consagração dos dons (pão e vinho). E o agente dessa obra é o Espírito Santo: “Santifica estes dons com a efusão do teu Espírito, para que se tornem para nós o corpo e o sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor”.

Assim, a santidade de Deus se transmite aos dons, por meio do envio da Pessoa do Espírito, que tem o poder de transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue do Senhor. Com efeito, o Espírito de Deus é Espírito criador: assim como no princípio pairou sobre o cosmos para operar a primeira criação e assim como na plenitude dos tempos “pousou” sobre Maria para nela operar a criação da humanidade de Jesus, início da nova criação, agora ele é invocado sobre os dons do pão e do vinho para operar essa “maravilha” da nova criação e da graça que é a transubstanciação”: Aqui se mostra com grande evidência que a consagração, cerne da celebração eucarística, é obra das três pessoas divinas, da Santíssima Trindade, assim como a encarnação do Verbo, enviado pelo Pai e feito homem por intervenção do Espírito Santo.”

“A expressão ‘para nós’ não deve levar ao engano: ela não tem caráter subjetivo, como se significasse que o corpo e o sangue têm para nós valor simbólico; ela conserva todo o seu valor objetivo, como, aliás, sugere o verbo 'tornar-se', no sentido que atua concretamente a presença do corpo e do sangue de Cristo. A frase pretende sublinhar que o corpo e o sangue de Cristo tornam-se presentes em função de nossa participação sacramental. Não nos encontramos diante de espetáculo, mas de uma ação que nos empenha profundamente’’

c) Relato da instituição

‘’Entregando-se livremente à sua paixão, ele tomou o pão, deu graças, partiu-o, deu-o aos seus discípulos e disse: Tomai e comei, todos: este é o meu corpo, oferecido em sacrifício por vós".

"Depois da ceia, do mesmo modo, tomou o cálice, deu graças, deu-o aos discípulos e disse: Tomai e bebei, todos: este é o cálice do meu sangue, para a nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos pela remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim’’.

Quase de imprevisto, chega-se ao relato da instituição, mas a invocação do Espírito e a menção do corpo e do sangue de Cristo o haviam preparado. Trata-se da anamnese propriamente dita, que atualiza nos sinais o mistério da páscoa, e nos empenha a revivê-lo em toda a sua intensidade e em todas as suas conseqüências. A aliança é renovada na oblação de Cristo. A eucaristia é a nova shekinah, a morada de Deus entre os homens. Pode-se agora aceitar o convite de Cristo (‘’Tomai... comei... bebei...’’) e participar do seu banquete de salvação, pois a "maravilha"’da páscoa já foi atualizada sobre o altar. Naturalmente, trata-se de "maravilha sacramental" e, como tal, só é alcançada pelo altar da fé. Por isso, logo depois das palavras da consagração, o sacerdote acrescenta: ‘’Mistério da fé!’’, ao que o povo responde afirmando o conteúdo da eucaristia em consonância com o anúncio paulino de 1Cor 11,26: morte, ressurreição, espera da parusia: "Anunciamos a tua morte, Senhor, e proclamamos a tua ressurreição, à espera da tua vinda".

d) Memória e oferenda

“Celebrando o memorial da morte e ressurreição do teu filho, te oferecemos, ó Pai, o Pão da vida e o cálice da salvação e te damos graças por nos teres admitido em tua presença para o cumprimento do serviço sacerdotal”.

Depois de ter afirmado que tudo o que se realizou é a “memória” do mistério pascal de Cristo, o celebrante, juntamente com toda a comunidade, oferece ao Pai o “pão da vida” e o cálice da salvação” como “ação de graças” pelo que Jesus realizou por nós com sua páscoa. E, assim, retorna o tema da berakah, a “ação de graças”, que perpassa toda a celebração eucarística e agora acompanha o gesto da oferenda.

e) Epiclese sobre os comungantes

 “Suplicamos-te humildemente: que o Espírito Santo nos reúna em um só corpo para a comunhão no corpo e no sangue de Cristo”.

Agora, com estilo simples e conciso, invoca-se segunda vez o Espírito Santo para que os que participam da comunhão com o corpo e o sangue de Cristo sejam reunidos, com a graça do Espírito, ”em um só corpo”. Como participação no próprio corpo e sangue de Cristo, a eucaristia é sinal e fonte de unidade eclesial, a qual, porém, não pode ser obtido sem a obra do Espírito Santo, que é vínculo e selo de unidade, porque é Espírito de Cristo e princípio de vida e caridade. A imagem do corpo aplicada à igreja - note-se o duplo sentido correlato da palavra “corpo” - deriva da epístola aos Romanos: ”Nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros” (Rm12, 5).

f) As intercessões

Depois da epiclese, as intercessões, para que os frutos do sacrifício de Cristo, morto pela salvação de todos, derramem-se sobre a Igreja, sobre o mundo inteiro e sobre os falecidos. pede-se igualmente por "todoss nós", para que possamos ser partícipes da Igreja dos santos, que já canta, na bem–aventurança, a glória do Pai, por meio do Filho, no Espírito. E é precisamente com essa doxologia que se conclui a prece eucarística: "Por Cristo,com Cristo e em Cristo, a ti, Deus Pai onipotente, na unidade do Espírito Santo, toda honra e glória pelos séculos dos séculos”.

Ao que se segue o amém dos fiéis, expressando sua adesão de fé ao mistério da salvação, atualizado sobre o altar e repercutindo agora em toda a Igreja e pela eternidade.

[ ~ ]

9. O Pai-Nosso. Depois de termos sido inebriados do Espírito de Cristo pela epiclese (invocação) do sacerdote, agora como filhos adotivos rezamos ao Pai como Jesus ensinou aos seus discípulos. Por fim, O sacerdote pede que sejamos livres dos males, pela paz na Igreja e no mundo e conclui-se o embolismo com a proclamação cristológica: "Porque vosso é o reino, o poder e a glória..."

10. Cordeiro de Deus. Antes de nos aproximarmos da comunhão, rezamos ou cantamos "Cordeiro de Deus... tende piedade de nós" como João Batista, como o cego Bartimeu... não nos podemos aproximar do Deus justo e santo sem que ele mesmo nos convide por sua misericórdia e sem que nos purifique de nossa cegueira. Ele, o Filho de Davi, há de ter piedade de seu povo para aceitá-lo à sua mesa. Neste momento o pão eucarístico é partido e assim, significa o Sacrifício Pascal de Cristo nos foi entregue.

11. O ato de comungar. Recebemos pão e vinho, corpo e sangue de Cristo. Sobre a Eucaristia farei um texto a parte para não delongar muito. Aqui basta dizer que o pão abençoado, eucaristizado, transubstanciado, sobre o qual foi dado graças e partido é agora distribuído como fora a ordem de Jesus: "tomai todos e comei...", "tomai todos e bebei...".

12. "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe". Aqui começa a segunda missa. Aquela que devemos viver no nosso cotidiano. Aquele evangelho ouvido, aquele Corpo e Sangue comungados, devem ser agora, vida na nossa vida.

É bíblica a missa? - Parte III. Excerto. A ritualidade e a liturgia.


Concluindo neste excerto o tema "É bíblica a missa?" trato do tema da ritualidade litúrgica. Posto aqui um pequeno texto de um artigo que escrevi e que já postei neste mesmo blog. A despeito da acusação Protestante Pentecostal e Neopentecostal de que o rito é tão-somente a caracterização das vãs repetições condenadas por Jesus (cf. Mt 6,7), reitero: se assim o fosse Jesus não teria usado ele mesmo o rito pascal para a ceia que celebrou com os Apóstolos (uma vez que ele celebrara com os apóstolos a ceia pascal conforme o rito judaico!); os evangelhos sinóticos e São Paulo não reportariam a eucaristia como um rito tal qual ali se encontra (como exaustivamente explorado na Parte I) e, por fim, Jesus não teria ensinado uma oração, o Pai-Nosso, para ser repetida pelos seus.

O que é o rito?

Muitos há que acham a Santa Missa, por exemplo, tediosa. Um poema de Adélia Prado intitulado “Missa das 10” nos dá uma idéia:

Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os moços ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir a missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
da certeza marota de que ao final de tudo
urna confissão "in extremis" garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem frei Jácomo.

Ao nos depararmos com a beleza dos ritos na Liturgia, seu fulcro exatamente transcendente e ao mesmo tempo imanente vai aos pouquinhos nos separar de uma participação morna na missa do Frei Jácomo. Nossas liturgias deveriam resplandecer de nobre simplicidade, como nos recomenda a Sacrossanctum Concilium n. 34. De tal modo deveríamos viver a ritualidade litúrgica que ela tudo impregnaria de eternidade e de beleza. O Padre Valeriano Santos Costa assim afirma:

Quem participa de um rito litúrgico entra numa outra categoria de tempo e espaço. O tempo cronológico significa dissolução e cansaço no encadeamento das horas, dias, meses e anos: o envelhecimento. [...] No rito, a ordem do espaço [...] se altera, transformando a idéia de limite, barreira, divisão, prisão em aconchego, proteção, libertação, plenitude.
[COSTA, V. S. Viver a ritualidade litúrgica como momento histórico da salvação. Participação litúrgica segundo a Sacrossanctum Concilium.São Paulo: Paulinas, 2005. pg. 46-47 (Col Viver a fé)]

Vivenciar os ritos é, portanto, de importância capital para perceber a beleza da Liturgia que faz do cronos o Kairós, ou seja, do tempo cronológico o tempo/estado da Graça. O dado antropológico da liturgia nos diz que o homem serve-se de sinais sensíveis para exprimir o indizível. De fato, ao olharmos o aspecto aparente da liturgia podemos nos deparar com coisas muito simples como uma vela, uma toalha branca ou um crucifixo. Todavia, estes são pontes do efêmero para o eterno. A beleza do rito litúrgico deve começar de dentro, do coração humano e nos levar ao coração do Mistério. De fato, afirma Corbon: “reza-se como se vive e vive-se como se ama; tudo depende do lugar onde habitualmente nos centramos e em torno do qual tudo toma o seu sentido (...) o coração é o lugar da decisão, do sim ou não”. Sabendo que a Liturgia começa no coração, chamo nossa atenção para o outro lugar da manifestação da beleza, ou seja, para o “fazer” na Liturgia.

Aqui eu gostaria de tocar um pouco na nossa prática litúrgica. Nossas equipes de Liturgia nas Paróquias muitas vezes se transformam em ‘tarefeiros’ junto com o padre. Fazem muitas coisas, mas não as fazem bem. Nossos Ministros Extraodinários da Eucaristia permanecem numa odinária distração toda a missa. Os músicos esquecem-se do rito para procurar a folha de cântico. O calor faz a assembléia suar. O volume estridente do som faz todos sentirem o ouvido doer. As flores de plástico no presbitério, sujas de poeira, dão o tom da desordem, do desleixo e da despreocupação com aquilo que é expressão do Eterno! Os vasos sagrados sujos de zinabre demonstram quão desleixados são os que cuidam da sacristia. O andar apressado e sem a devida reverência e gravidade dos acólitos e do Padre, as toalhas puídas, a multiplicação de folhas, cadernos, lembretes, cartazes para todos os cantos... enfim, nossas Paróquias precisam romper este ciclo vicioso de feiúra que tem tomado conta do nosso “fazer” litúrgico.

A Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus é o acontecer do Mistério. O “véu” se rasgou e pela Ascensão o Filho nos leva ao coração aberto do Pai, donde jorra o rio de vida (cf. Ap 22,1), a Liturgia celeste, perene e eterna,  a beleza celeste que se fez nossa. A Liturgia é Cristo histórico, corpo místico e Filho de Deus. É justamente por causa dessas duas energias (divina e humana) que a Liturgia se torna ato salvífico de Deus na história dos homens. E se torna ato salvífico porque é memorial, porque O Vivente passou para além da morte e tornou o tempo impregnado de Eternidade. Neste aspecto, percebemos o quanto precisamos crescer na dimensão antropológica da manifestação da nossa fé. Valendo-me do axioma Lex Orandi Lex Credendi, trago um elemento de avaliação de nossas liturgias: O modo como estamos celebrando a fé expressa a fé que professamos? Avalie se o Memorial do Mistério Pascal de Cristo que se celebra na sua comunidade resplandece aquela nobre simplicidade da qual é dotado o Mistério da Paixão, Morte, Ressurreição e Glorificação do Filho de Deus?

“Nada deve ser afetado nem pela pressa nem pelo exagero. [...] Se numa celebração de uma hora introduzimos tantos adendos, [...] esgotamos o tempo e somos tentados a atropelar o rito [...] numa corrida olímpica” [Cf. COSTA, 2005. Pg.59]. A grave expressão de quem sobe o Calvário para o Sacrifício do Cordeiro deve acompanhar todo aquele que toma parte na Liturgia. A solenidade dos gestos, a tranqüilidade na execução dos ritos, ao Padre a clareza e solenidade na proclamação das orações e demais ofícios que lhe cabem na Liturgia, o canto liturgicamente ordenado e ensaiado, tudo isto contribui para uma participação eficaz, ativa e frutuosa na Divina Liturgia. O contrário disto também é igualmente verdade: quando não cuidada, a Liturgia passa de “a festa da alegria do Pai” como Corbon a classificou, à festa da tristeza e irritação dos que nela tomam parte.

Ao explanar sobre a participação ativa dentro do rito, o Padre Valeriano S. Costa joga luz sobre o modo de estar na Liturgia. Retomando o conceito grego “Leitourgia”, ele diz que Liturgia é essencialmente ação (ourgia) e não necessariamente discurso  (logia). A ação é sempre realizada por um sujeito. Como vimos o sujeito da Liturgia é o Pai, ao mesmo tempo ele é objeto da ação Sagrada realizada por nós, objeto da nossa fé. Como sujeito da Liturgia, a Assembléia não é só uma assistente, uma expectadora passiva, mas um sujeito ativo. Está envolvida na “leitourgia” na ação sagrada em favor do povo. Desse modo é preciso formar nossas Assembléias litúrgicas para este modo de participar, beber e contemplar o Acontecer do Mistério que ali é celebrado. As distrações, conversas paralelas, celulares ligados, crianças correndo e chorando, a pressa em começar e terminar a ação litúrgica, as homilias porcamente preparadas, tudo isso contribui para o empobrecimento da participação ativa da Assembléia. De fato, Pe Valeriano destaca  que todo o corpo deve entrar nesta ação ritual, ou seja, a pessoa toda: pensamento, emoção, postura, voz, razão, gestos, para que a participação seja de fato ativa e frutuosa para o fiel.

[ ~]

Após esta breve explicação do rito, concluo o meu contributo para a questão: "É bíblica a missa?". Espero que lhe ajude. Só peço a quem citar estes texto que lhe cite a fonte de onde retiraram.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Dúvidas bíblicas de um leitor

Um leitor do Blog me enviou um e-mail com algumas dúvidas acerca da figura de Pedro e como este evangelizou os judeus, sobretudo os judeus da diáspora. Segue minha resposta na qual, também, contém algumas de suas perguntas. Vou postar aqui porque talvez sirva de ajuda a algum leitor/a do Blog.

Boa tarde Sr. Luiz. Me desculpe a demora em respondê-lo. Eu estou simplesmente abarrotado de trabalho e ainda ajudo cuidar de um tio doente. Mas, isto não vem ao caso. Vamos à questão. A mim pareceu que existem dois temas no seu texto. Um predominante e outro transversal. A sua questão mais importante é tentar identificar a Babilônia veterotestamentária com a Babilônia citada no Novo Testamento. A Babilônia veterotestamentária foi uma cidade conquistada pelo Império Persa em 530 a.C. e que conhecera, posteriormente, 200 anos de decadência tendo sido abandonada depois da morte de Alexandre, o Grande, naquela cidade em 323 a.C. O nome Babilônia que aparece no Novo Testamento tem, frequentemente, a intenção teológica de designar o modus vivendi daquela antiga cidade suméria: uma cidade eivada de vícios, poder corrupto, uma cidade sanguinária, violenta, opressora e pecaminosa aos olhos de Deus. A sua questão transversal é tentar provar que Pedro esteve na cidade veterotestamentária "Babilônia" como pregador da fé no Cristo como se a mesma ainda existisse. Pois bem, como os dados da História comprovam aquela cidade já estava destruída quando o Imperador Romano Septimo Severo aí esteve em 199 a.C e a encontrara desabitada e abandonada. Logo, é impossível que Pedro ali tivesse estado ou pregado. As questões menores se encontram respondidas no seu questionário. Espero que lhe ajude minhas respostas.

Paz em Cristo

Pe Luis Fernando

1)Segundo Gálatas 2:7-8 São Pedro foi a apostolo dos judeus e como existiam judeus na Babilônia seria lógico pensar que Sao Pedro tivesse ido para lá.
Não somente Pedro pregou aos da "circuncisão", mas também Tiago e João conforme a mesma carta. A cidade “Babilônia” fora destruída e encontrava-se completamente desabitada já no ano 199 a.C. quando o Imperador [Romano] Séptimo Severo aí esteve e constatou a sua ruína. A palavra Babilônia no Novo Testamento designa a cidade de Roma. Grande e imponente como a antiga Babilônia.
[ADIÇÃO À RESPOSTA: Também havia judeus em Alexandria no Egito, cidade onde a bíblia fora traduzida do hebraico para o grego; em Roma; na Macedônia; em Corinto por ser uma cidade portuária... enfim, é forçoso afirmar que Pedro esteve em Babilônia pelo mero fato de haver judeus espalhados pelo mundo. É o mesmo silogismo: O amor é cego. Deus é amor. Stevie Wonder é cego. Logo, Stevie Wonder é Deus!]

 2)No ínicio da carta de São Pedro ele indica o nome literal de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia se os nomes foram literias então o nome Babilônia também teria que ser literal.
Babilônia não é literal, pois, conforme os dados da História a cidade não existia mais.
[ADIÇÃO À RESPOSTA: Ademais, quem dá os critérios de literalidade ou não de um texto é seu autor e não o hermeneuta. Forçar que a palavra Babilônia corresponda à Babilônia veterotestamentária pelo argumento da literalidade geográfica da carta é arbitrário e não corresponde à verdade do escrito, à teologia neotestamentária, tampouco corresponde à verdade histórica acerca daquela cidade, fato este supracitado.]

3) Em Apocalipse, Roma é chamada de Babilônia, porém o livro de Apocalipse é rico em simbolismos e o nome de Babilônia seria  um nome simbólico para Roma, mas na 1ª Epístola de São Pedro ele não escreve de forma simbólica mas literal. Parece não haver nenhum motivo para não escrever o nome literal da cidade.
Já explicado anteriormente. O nome Babilônia faz referência apenas ao modus vivendi da cidade de Roma que se assemelhava, em muitos aspectos à antiga Babilônia: grande, imponente, opressora como a antiga Babilônia. Portanto, não pode ser literal posto que a dita cidade não existia há mais de duzentos anos.

4)Em Atos 2:9  fala de pessoas de vários lugares veja: "Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia". Então os habitantes da Mesopotâmia  i.e. Babilônia quando voltaram formaram um comunidade cristã na Babilônia, bom pelo menos o texto dá a entender assim.
A Mesopotâmia é a região inteira entre os rios Tigre e Eufrates e não designa apenas a cidade Babilônia [que fora capital de 4 Impérios ali estabelecidos antes de sua ruína]. O texto deixa claro que havia uma comunidade cristã na Mesopotâmia e não que havia uma cidade chamada Babilônia.

5)Ainda em Atos 2:10 repare: "E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos" O texto faz uma distinção entre os povos da Mesopotamia e os romanos.
Não somente entre os Mesopotâmicos e os povos semitas, mas, também entre os egípcios e os da Ásia Menor. Isso não significa absolutamente nada referente ao que o senhor deseja pretensamente provar.

6) Se São Pedro citou Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia porque estando em Roma não citou a Babilônia?

Como Babilônia era um pseudônimo para Roma, ele não era obrigado a chamar Roma por Babilônia. Pelo contrário. O uso de tal alcunha para Roma depreciava-a e, portanto, usá-la ou não deveria ser uma atitude sensata, de fé e por razões teologais e não passionais.

7) Em relação a pergunta anteiror a Ásia não incluiria a Babilônia?
Não. A Ásia Menor fazia divisa com a Mesopotâmia e não incluía a cidade veterotestamentária Babilônia.

8)Quando São Paulo escreve para Roma ele cita aos que estão em Roma.Por que ele identifica como Roma e nao como Babilônia?
Porque ele quer simplesmente identificar os cristãos da cidade de Roma. Não há naquele versículo nenhuma intenção teológica que justifique o uso de Babilônia no lugar de Roma.

9)O escritor de Hebreus também usa a palavra Itália e não Babilônia.Por que ele identifica como Itália e nao como Babilônia?
Pelo mesmo motivo da resposta 8.

10)No 1º Século da Era Comum não existiam muitos judeus na vizinhança da Babilonia ?  São Pedro era o Apóstolo de pregar aos da circuncisão conforme Epístola aos Gálatas  2:7-8.
Corrigindo: No Primeiro século da Era Cristã...
Segundo: A cidade da Babilônia já havia sido destruída, reitero. Se havia judeus na Mesopotâmia, eles habitavam outras cidades uma vez que a Babilônia já se encontrava destruída.
E? O que tem Pedro a ver com isso?!