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domingo, 1 de janeiro de 2012

Maria, mãe pobre abençoada?

Antes de sair de férias por alguns dias, deixarei uma reflexão. A primeira de 2012. Esta idéia veio a mim quando da preparação da homilia da missa do dia 1º de Janeiro, a festa de Santa Maria Mãe de Deus. Os textos bíblicos que mexeram com meu pensamento foram: Nm 6,22-26 (a bênção aaraônica); Sl 66 (Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção); Gl 4,4-7 (Deus enviou seu filho nascido de uma mulher...) e Lc 2,16-21 (a visita dos pastores). A questão que proponho nesta reflexão é: O que é a bênção de Deus, segundo estes - e outros textos bíblicos - e a Tradição da Igreja?

1. A título de introdução...
A bênção no Antigo Testamento, Berakah, encontra algumas nuances. Primeiro era somente o favor do Senhor para a boa colheita e o gado, pedido este feito via sacrifícios conforme Gn 4,3-4 que relata os primeiros sacrifícios dos pastores nômades e dos agricultores semi-sedentarizados. Depois que o javismo se estabeleceu em Israel, sobretudo após e com o reinado de Davi (século X a.C.), a bênção do Senhor passou a ser objeto de distinção social via teologia da prosperidade/retribuição que funcionava assim: Os abençoados por Deus eram os bons cumpridores da Lei e dos costumes de Israel; os desafortunados e desfavorecidos eram os amaldiçoados por causa de sua má conduta (Dt 30,15ss) ou - no extremo - por causa de um pecado de seus pais (cf. Jo 9,2). Assim, o documento javista do Pentateuco, que é responsável por boa parte do livro do Gênesis, situa a figura de Abraão dentro do contexto da bênção: "Abençoarei os que te abençoarem e amadiçoarei os que te amaldiçoarem" (cf. Gn 12,1-3). A bênção de Deus era, portanto, algo precioso sem o qual o homem ficaria desprotegido contra os intempéries da vida. Dada a precariedade da vida na antiguidade - escassez de comida, doenças, invasões de exércitos inimigos, etc - podemos supor que a busca da bênção de Deus se tornava imprescindível.

2. A crise da bênção relacionada à Prosperidade: Jó
A realidade da vida mostrou que nem sempre os bons, seguidores da Lei e cumpridores da Torah eram afortunados, bem-sucedidos, isentos de dores e sofrimentos. Ergue-se Jó gritando esta dura realidade: um homem bom, justo e íntegro diante dos homens e de Deus que tem toda a sua vida dilacerada. Sua mulher, voz dos que não entendem porque as coisas não são como deveriam ser, lhe diz: "Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre de uma vez!" (Jó, 1,9). Ora, será que Deus seria sádico a ponto de exaurir as forças, a vontade e a fé de um pobre Jó somente para o testar? Não vira Deus quão justo e reto era Jó? Esta resposta não convence nem o próprio Jó! Sua pergunta de fundo é: porque a vida não é simples como nos promete a teologia da retribuição? Querendo salvaguardar ainda esta teologia, diz Jó: "Se Deus recebemos os bens, não devemos receber também o males?" (Jó 1,10).

3. O que é, afinal, a bênção de Deus para o cristão?
Nós podemos ouvir todos os dias a propaganda: "Venha determinar o ano da sua vitória!"; ou "Deus tem uma bênção esperando por você"; ou ainda "Deus quer te abençoar". Nesta propaganda - que sempre usa textos bíblicos do Antigo Testamento para ilustrá-la - está embutida a falida teologia da prosperidade e da bênção de Deus como algo negociável, individualista e egoísta.

A lucidez de São Paulo é estonteante: “Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4 12-13). O cristão não vive para o seu ventre (Fp 3,9), mas, para Deus. Quando na liturgia de hoje se lê os textos acima, não é para involuir à teologia da prosperidade. É evidente que Deus quer abençoar a todos. Deus a ninguém quer amaldiçoar, porque Deus é bom e não mau. Se Deus amaldiçoasse seria mau, logo, não seria Deus! A questão é que não somos nós que temos que determinar a Deus o que Ele deve nos dar ou fazer por nós, mas nós é que devemos nos converter a Ele para fazer a vontade D'Ele, como Jesus que não veio fazer a sua própria vontade, mas, a vontade do Pai que está no céu (cf. Jo 4,34). O modo de Deus se relacionar conosco é o da gratuidade, do amor livre, não coagido por nenhuma lei externa, senão que regido e ordenado por aquela Lei que parte do coração do Evangelho que é o amor a Deus e ao próximo (cf. Lc 10,27; Jo 13,34). Portanto, nós cristãos nos livramos do jugo da lei, embora não estivéssemos sob aquele jugo diretamente, Cristo nasceu para nos libertar dele incondicionalmente (cf. segunda leitura de hoje).

No salmo pedíamos: "Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção...". O que isto significa? Na Igreja, o padre diz à Assembléia: "O Senhor esteja convosco" e a mesma responde: "Ele está no meio de nós!" Esta resposta cada vez mais se assenhora de significados profundos. Vamos compreendendo que o Senhor está no meio de nós, porque somos sua Igreja, o corpo Místico de Cristo. E não só está na Igreja, mas também na pequena Igreja doméstica, onde dois ou três se reunem e rezam em seu nome. Assim, já estão abençoados os que N'Ele se encontram reunidos. Não temos que esperar outra bênção. Não temos que querer outra bênção pessoal, particularizada e egoísticamente pedida. Fazê-lo aos moldes dos cultos neopentecostais seria a maior blasfêmia que atentaríamos contra o próprio Deus, pois, atestaríamos que Ele não abençoa a todos porque não quer e somente abençoará os que o pedirem insistemente!

A bênção do Pai não é uma coisa, é uma pessoa. Maria, mãe grávida da bênção do Pai foi agraciada por Deus (cf. Lc 1,28) para ser a mãe do Salvador. Ela trouxe ao mundo aquele cujo nome dado pelo profeta Isaías é: "Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz" (cf. Is 9,5). Ele é a nossa bênção. Ele é a nossa paz. O salmo 95 da missa da Vigília de Natal convidava toda a terra a cantar um canto novo a Deus por sua salvação e não há outro meio de salvação para toda a terra que não seja Jesus, o único Senhor e Salvador do gênero humano, aquele que rompeu a cadeia do pecado e da maldição e se fez pecado e maldição em nosso lugar, como nos reporta a carta aos hebreus.

Se Cristo, a bênção do Pai, veio para abençoar com a salvação todo o gênero humano, porque ele nasceu pobre numa estrebaria? Se a bênção de Deus - como diz a propaganda neopentecostal - é para a vida financeira como vemos na Tv, então porque Maria - a bendita entre todas as mulheres (cf. Lc 1, 42.48) - fora uma mulher pobre do princípio ao fim de sua vida? Ela, por trazer ao mundo o salvador da humanidade foi a mais agraciada por Deus, segundo o arcanjo Gabriel. Se fora agraciada por Deus, porque não quis Deus abençoá-la com riquezas, dádivas materiais, vida confortável? Se a bênção de Deus para os homens se mede na prosperidade financeira, então Maria, Jesus e José foram os maiores desafortunados e os mais amaldiçoados por Deus, porque sempre foram pobres. Porque Jesus - a bênção do Pai - não nasceu em um berço de ouro, coberto de lençois de cetim para todos poderem perceber quão poderoso é Deus e o quanto "ele quer abençoar" todos os quantos dele se aproximam?

A resposta é bastante simples: Somos cristãos e não judeus. Não estamos mais sob o jugo da lei da retribuição/prosperidade. Como Maria, guardamos todas as coisas e as meditamos no coração com simplicidade. "Bendito seja Deus que nos consola em todas as nossas tribulações!" (2Cor 1,3-4). Sim! Não precisamos nos preocupar com o que comer ou com o que vestir, porque são os pagãos que se preocupam com isso! Nós devemos procurar em primeiro lugar o reino dos céus e a sua justiça e todo o resto nos é dado por acréscimo pela divina providência do Pai que ama gratuitamente a todos os filhos e se antecipa às suas necessidades (cf. Lc 12, 22-32). Esta é a bênção de Deus e não temos que esperar por outra, seja ela propagandeada na Tv ou nos outdoors da cidade.

Feliz 2012 com A Bênção de Deus!