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quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Por eles eu me santifico..." (Jo 17,19)


No contexto da oração sacerdotal de Jesus no Evangelho de João (Jo 13-17), há no capítulo 17 o momento em que, dirigindo-se ao Pai, Jesus declara aos Apóstolos que eles foram por Ele escolhidos e santificados. Esta mesma escolha deliberada de Jesus aparece no cap. 3 do Evangelho de Marcos quando Jesus, tendo subido ao monte, chamou a si os que quis para que ficassem com Ele (cf. Mc 3,13-15). A escolha destes 12 personagens é envolta no mistério da liberdade do Filho de Deus ao chamá-los e deles ao responderem sim.

Jesus, homem-Deus, vive os mistérios da vida plenamente humana que assumira: O Pai dera a Jesus não somente Apóstolos, Servidores, Trabalhadores, mas dera amigos (cf. Jo 15,15). Os mais próximos, os mais chegados, os mais ligados inclusive afetivamente a Jesus. A estes amigos Jesus dá o que Ele tem de mais excelente: a Palavra, a Vontade do Pai (cf. Jo 15,15. 17,6). De algum modo a vida humano-divina de Jesus possui também dois pontos de convergência: O Pai e "aqueles que Tu me deste". O Filho ama incomensuravelmente o Pai e lhe é em tudo obediente porque ama (cf. Fl 2,8). Àqueles que do Pai recebeu manifesta imenso amor a ponto de transparecer que a estes amara até o fim, até o último instante, até o limite de sua humanidade e de sua missão (cf. Jo 13,1).

"Mas agora, diz Jesus, vou para ti e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos" (cf. Jo 17,13). Jesus não quer partir sem deixar marcas indeléveis no coração dos Apóstolos e dos discípulos. Marcas que ele sabe que já ficaram impressas para sempre naqueles corações. Por eles, disse Jesus, por eles eu me santifico. Santificar neste contexto de João significa doar a vida na cruz. É a mediação sacerdotal de Jesus que atua nesta Hora. Ao pedir ao Pai a santificação "dos seus" Jesus os une a si e ao Pai naquela conhecida oração pela Unidade da Igreja: "para que todos sejam Um..." com Ele e o Pai.

Não é este, afinal, o sentimento que está no fundo do coração de quem ama verdadeiramente? Não há no coração dos esposos o desejo de ser Um com seu cônjuge uma vez que um tal e imenso amor toma conta de sua existência? Não há no coração de quem ama a Deus o desejo de fundir-se Nele, ser Nele absorvido, ser Nele assumido, acolhido e abraçado de tal modo que Nele se perca? Perder-se em Deus é encontrar-se, disse Jesus (cf. Mt 10,39).

Escrevo esta meditação como fruto de uma vivência pessoal em meu ministério sacerdotal! E coloco isto justamente aqui, no final do texto, para que o descubram não os curiosos, mas, somente os que vieram ler estas palavras com a finalidade de enriquecer-se. É um tesouro escondido que somente os interessados encontrarão.

No Seminário ouvíamos o formador falar sobre o sentimento de paternidade que experimentaríamos no sacerdócio. Ele fala-nos que o sacerdócio não é estéril e que o Padre é verdadeiramente Pai. No entanto, apesar de ouvir isto com grande frequência, isto ainda não era uma realidade viva e madura em meu coração. Foi somente a alguns dias que esta realidade tornou-se palpável. Sim, sou Pai! Pai de uma multidão! Tenho filhos e mães e irmãos e irmãs... recebi o cêntuplo prometido por Jesus em Mateus (cf. Mt 19,29).

Por eles eu me santifico... por estes filhos e irmãos, estas mães e irmãs eu encontro razão mais que suficiente para me santificar na Obra do Senhor, dando-lhes a conhecer sua Palavra e sua Vontade como Jesus o fez a 2 mil anos. Por eles a renúncia não é um peso, o celibato é uma dádiva e a pobreza o único caminho para realizar-se e ser feliz. Por amor ao Pai que me escolheu deliberadamente e me quis seu sacerdote e por eles eu me santifico. Compreendo agora, mais do que nunca, esta frase do evangelho de João. Ela faz todo sentido em minha vida... Me santifico, renuncio, anuncio, amo, perdôo, dou e recebo para que todos sejamos Um Nele e Um entre nós.

Obrigado Senhor por me fazer teu sacerdote! Amém.