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quinta-feira, 17 de março de 2011

A noite do mundo


Extraído de Zenit, o presente texto é uma interessante reflexão a respeito do homem contemporâneo, a-religoso, e que no entanto perambula na "nostalgia" do Absoluto! Boa leitura!

ROMA, quarta-feira, 16 de março de 2011 (ZENIT.org) - "O homem busca a Deus, sente nostalgia da sua presença": esta constatação, apoiada por estudos sociológicos dos últimos anos, deu à luz o primeiro encontro de "Diálogos na catedral", compostos por três reuniões propostas pela diocese de Roma, na Basílica de São João de Latrão, com diversos expoentes da cultura.

Sobre a nostalgia de Deus na cultura contemporânea discutiram, em 10 de março, Dom Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, e Pietro Barcellona, ​​da Universidade de Catania.

"O homem contemporâneo - disse o cardeal vigário de Roma, Agostino Vallini, apresentando o encontro -, mesmo no drama das situações existenciais, espera conhecer e encontrar não um deus genérico, mas o Deus dos vivos." Sua nostalgia "nasce da desilusão dos deuses, mas também das propostas culturais insatisfatórias da nossa época". Em seu coração, de fato, "existe ainda a esperança viva de ser amado e de ser parte da construção de uma história que se desenvolve ao longo do tempo e continua para além dele".

A noite do mundo

"O ocaso das ideologias - disse Dom Forte - deu lugar ao ‘tempo da noite do mundo', um tempo tão pobre, que não reconhece a falta de Deus como ausência." Já foi demonstrado que a "morte de Deus", comemorada por Nietzsche, não gerou "um homem mais feliz, e sim mais solitário e mais violento, como evidenciado por guerras e massacres perpetrados pelos totalitarismos, tanto de direitas quanto de esquerdas, durante o século XX".

A pobreza que se segue à "crise das grandes narrativas ideológicas", portanto, "não é tanto a percepção da ausência de Deus, e sim o fato de que os homens não sofrem mais por essa falta". Desapareceu o "sentimento de pertença". "E por isso - sublinha Forte -, as mentes mais alertas advertem a necessidade de um retorno ao sagrado, reconhecendo diversos sinais de esperança, por exemplo, o canto dos poetas." Dever do poeta é "suscitar a nostalgia de Deus, cantar a sua ausência".

"É verdade - diz Forte - que da noite não se sai facilmente." De fato, "em sua rejeição crítica dos mundos ideológicos, a pós-modernidade nada mais é do que uma forma invertida deles", de maneira que "a sede de plenitude da razão emancipada pode tornar-se uma nova totalidade, a do negativo que abrange todas as coisas".

"No entanto, aparece na inquietude pós-moderna - continuou ele - uma espécie de busca do Outro, do hóspede pelo qual se anseia e, ao mesmo tempo, que perturba." Percebe-se que "fugir da presunção totalitária da razão moderna exige confessar uma alteridade que destrua o domínio do sujeito e se ofereça como a origem e fim".

"O resultado do moderno e do pós-moderno - disse Forte - é a fome e a sede de sentido, declaradas ou não", ou seja, "a necessidade de dar sentido a uma vida tão frágil".

Um Deus em quem confiar

Qual é, então, o Deus "de quem se pode falar aos homens e mulheres do nosso tempo?". "Um Deus de confiança - destacou o arcebispo de Chieti-Vasto -, que não nos violenta, porque quer para si somente homens livres." O cristianismo, de fato, "é a religião da liberdade, radicalmente diferente, por isso, entre outras coisas, do Islã, no qual tudo está predestinado".

"Na pergunta que cada um carrega dentro de si sobre a inevitabilidade da morte - disse Forte -, vai se perfilando a imagem de um pai-mãe no amor, alguém em quem confiar sem reservas, quase um porto para repousar nosso cansaço e nossa dor, certos de não ser lançados ao abismo do nada. Por que, então, essa necessidade é tão forte, surge em tantos a rejeição inclusive visceral da figura do pai?" Essencialmente, pelo "medo de ter de depender d'Ele".

A escolha é crucial para aceitar "um pai-mãe que nos ame tornando-nos livres". "Escolher de que lado se quer estar": isso é, para Dom Forte, "o risco da fé". "Não fomos nós que amamos a Deus em primeiro lugar, e sim Ele quem nos amou".

"O anseio por Deus no mundo contemporâneo - concluiu o arcebispo - não está dirigido a um juiz, mas ao Crucifixo." O Homem do Sudário atrai "porque nessa fraqueza se revela o amor infinito de Deus". Qual é, então, o passo a ser dado? "Render-se a este amor, que não é fraqueza, mas ‘boa notícia'. Os cristãos que o experimentaram, como o ministro paquistanês Shahbaz Bhatti, sabem que é a única razão pela qual vale a pena viver e morrer."

Derrotar a morte

Não são diferentes as conclusões de Pietro Barcellona, ​​professor de Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Catania, ex-membro do Conselho Superior da Magistratura e já deputado do Partido Comunista Italiano.

"A nostalgia - disse Barcellona - nasce do sentimento de perda." A nossa é uma época caracterizada pela "perda da dimensão interior e da memória, e inclusive do contato com o mundo real". A oferta, de fato, é "a ‘Second Life', uma vida virtual".

"O iluminismo tecnológico - disse Barcellona - ​​é a última tentativa da arrogância do homem de lidar com a avassaladora angústia da morte, que invade desde os primeiros momentos de sua vinda ao mundo."
 
Na realidade virtual, de fato, "não aparecem, de forma alguma, nem a experiência dolorosa da existência como seres mortais nem a experiência da imaginação como capacidade de pensar outra maneira possível de estar no mundo". As mais avançadas tecnologias funcionam como "um grande dispositivo anestésico", na medida em que "os homens não gostam de pensar, porque isso os leva a manter contato com suas próprias contradições".

"Na época da atual miséria - interrogou-se Barcellona -, em que o niilismo parece ter vencido qualquer tentativa de reabrir o ânimo à esperança, de que Deus se pode sentir nostalgia?" O Deus por quem se sente "a atração irresistível", segundo Barcellona, ​​é "o Filho de Deus que se fez homem e que, assumindo a carne e o sangue dos seres mortais, compartilhou, até as últimas consequências, a dor e a miséria, escolhendo deixar-se crucificar como o último dos delinquentes".

"Somente um Deus que aceita ser derrotado pela morte - concluiu Barcellona - ainda é capaz de se comunicar com seres humanos."

segunda-feira, 14 de março de 2011

Dom de línguas, repouso no Espírito e outras questões


Primeiramente quero deixar bem claro que meu intuito não é retirar a fé de nenhuma pessoa neste ou naquele aspecto do pentecostalismo. Apenas quero dar uma resposta a partir da teologia bíblica para esta questão que muito me tem sido perguntada ultimamente. De início cito que estou usando para esta postagem o texto da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia) comentada.

Para falar sobre o dom das línguas e o repouso no Espírito vou partir do contexto no qual a primeira carta aos Coríntios foi escrita, uma vez que é nela que se apóia a maioria dos argumentos sobre este tema. Nós Católicos seguimos por muitos anos a exegese histórico-crítica que busca os fundamentos das coisas, o contexto e as intenções. O Papa Bento XVI a conhece bem e a utiliza no seu livro “Jesus de Nazaré” cuja segunda parte foi lançada recentemente. Conheço os limites de tal abordagem e também o Papa. Mas, é o instrumental teórico que por ora possuo e espero contribuir para deixar mais claro este controverso tema.

O Contexto da Primeira Carta aos Coríntios

A primeira carta aos Coríntios foi escrita por São Paulo em sua terceira viagem, por volta do ano 56 quando este estava na cidade de Éfeso, acompanhado de Apolo por meio de quem soubera dos acontecimentos que motivaram a carta. A cidade de Corinto era uma Metrópole portuária com cerca de meio milhão de habitantes. A pregação de São Paulo decorreu por 18 meses entre 50 e 52 numa cidade cosmopolita. A maior parte de sua população era de trabalhadores e escravos, provindos de todas as partes do Império Romano, da Ásia Menor e doutras partes do Adriático e do Egeu com quem se comunicava pelos portos. Era uma população bastante heterogêna nos costumes e nos cultos, abrigando desde os cultos de fertilidade da deusa Greco-romana Cibele aos cultos da deusa egípcia Ísis.

A pregação cristã, primeiro de Paulo e depois de Apolo, era fecunda e sólida, mas, lançava raízes em um terreno heterogêneo e um tanto relativista em relação aos costumes. A primeira carta é um reflexo, quase uma fotografia, deste contexto social-religioso: os grupos conflitantes dentro da comunidade (cap. 1), vida sexual dissoluta (cap. 6), a erudição da filosofia pagã e do gnosticismo (cap. 1-2) que contrastavam com a firmeza e clareza da fé cristã genuína (cap. 15). A isso se acresça os costumes dos cultos pagãos que, sutilmente, iam entrando na assembléia cristã (cap. 11-14). É para dar resposta a estas questões que São Paulo escreve esta epístola que, de tão veemente no seu modo de expressar, capta a alma pungente do Apóstolo.

A oração em línguas

O que é a oração em línguas? Em bom e claro português, segundo a TEB (cf. 1Cor 12,1 nota o), a Bíblia do Peregrino (cf. 1Cor 12,8-10 nota) e a Bíblia de Jerusalém (cf. 1Cor 12,10 nota f), é a articulação de sílabas ou fonemas de modo não compreensível em um estado mais ou menos extático, ou seja, em estado de êxtase religioso. Tecnicamente é dado o nome de glossolalia. Este particular da comunidade de Corinto não é compartilhado por nenhuma outra comunidade com a qual São Paulo se corresponde. A visibilidade dos eventos extáticos dos cultos pagãos interpela a nascente comunidade cristã de Corinto a ser também ela “produtora” do divino. De fato, naqueles cultos pagãos, o sacerdote ou a sacerdotisa e os participantes “produziam” a presença do divino através do êxtase religioso, da embriaguês e de eventos extáticos como a glossolalia, o desmaio, a predição do futuro, etc.

A argumentação de São Paulo parte da analogia do corpo (cap. 12). O corpo é um, assim como a Igreja deve ser una. Os membros do corpo são co-dependentes do mesmo modo que os membros da Igreja são co-dependentes. Cada membro do corpo exerce uma função distinta do outro, do mesmo modo que o único Espírito de Deus distribui seus dons aos membros da Igreja conforme a utilidade destes dons para a edificação da Igreja (cf. 1Cor 12,7. 14,4). Ao final do cap. 12, São Paulo realiza o esclarecimento de toda esta comparação: as funções na Igreja são dons do Espírito e não são todas as pessoas que receberam os mesmos dons para realizar todas as coisas.
 
No capítulo 13 São Paulo faz a hierarquia das coisas: o que é mais importante? É o ágape. A caridade. O amor fraterno. O versículo 11 – a comparação das coisas de criança com as coisas de adulto – é o recado para os Corintos: Eles já não são mais crianças na fé. Podem deixar as coisas de criança, ou seja, os costumes herdados do paganismo, para aderir completamente a Jesus Cristo. Muitos dos cristãos de Corinto eram pagãos antes de sua conversão. Isto mostra-nos que conversão não é algo instantâneo como vemos acontecer por aí. O versículo 11 está estreitamente ligado à argumentação do v. 8 quanto à ordem das coisas.
 
Depois de dialogar com a ordem do corpo místico, a Igreja, no capítulo 12 e a ordem dos dons do corpo místico no capítulo 13, São Paulo redige a conclusão óbvia do cap. 14. Como conseqüência lógica da correta ordem no corpo místico de Cristo no qual todos os membros possuem o dom dado para o bem de todos, no qual Ele é a cabeça (cap. 12; Col 1,18), o ágape deve ser a lei básica do cristão, um caminho que é o mais excelente dentre todos (cf. 1Cor 12,31). O ágape permanece junto a fé e a esperança como o fundamento do crer e do agir cristão: ágape = modo de relacionar com o próximo; fé = modo de relacionar com Deus; esperança = modo de relacionar com Deus e o próximo. Seguindo este caminho traçado por São Paulo, o capítulo 14 dá então a regra prática para o exercício do amor fraterno também no culto: é melhor edificar o irmão na assembléia que edificar-se a si mesmo (cf. 1Cor 14,4-5.26); o falar em línguas no culto cristão é inútil, visto que este não é um culto no qual aquele que dele toma parte necessita entrar em êxtase para se comunicar com a divindade. Pelo contrário, é Deus que se comunica conosco. O Espírito manifesta-se no conhecimento das escrituras através das quais se dá o conhecimento de Jesus Cristo (cf. Jo 15,13). São Paulo ainda define que as profecias devem ser ditas uma por vez, uma pessoa por turno, sem confusão e a partir do senso comum. Tudo deve ser feito para edificação de todos: quando se fala em língua este falar em línguas deve ser interpretado para a comunidade, caso contrário o irmão deve se calar; quando se profetiza esta profecia deve ser julgada pela assembléia (cf. 1Cor 14,27-29). Por fim, São Paulo orienta os Corintos a seguir a tradição de todas as Igrejas cristãs que seguem, por sua vez, a orientação dos apóstolos (Cf. 1Cor 14,36-38).

O Pentecostes
 
Alguns podem argumentar com o texto de At 2,1-13 a favor da glossolalia com a finalidade de justificar seu uso nos dias atuais. Há neste texto, segundo a TEB, duas experiências distintas: uma que pode ser identificada com a glossolalia (cf. At 2,4) e a outra é a expressão na língua dos povos representados pela lista de At 2,5.8-11. A teologia do texto de Pentecostes liga a dispersão de Babel (Gn 11,1-9) com a universalidade da salvação levada pela Igreja até os confins do mundo (cf. At 1,8). A experiência da glossolalia em At 2,4 liga-se à experiência profética do período pré-monárquico no qual os profetas e Israel e das religiões dos povos circundantes entravam em êxtase para proferir as profecias (cf. 1Sm 10,5-6). Com o tempo, a profecia em Israel foi deixando de lado este caráter extático e tomando os contornos que conhecemos dos grandes profetas, a saber, de ser boca de Deus. Portanto, a glossolalia neste contexto não quer dizer nada mais que um simples evento desencadeado pela abundância do Espírito no princípio da Igreja. Nem Atos dos Apóstolos nem Paulo institucionalizam a glossolalia como um dom do Espírito Santo para toda a Igreja. Paulo ainda o considera, com muita reserva, na comunidade de Corinto muito mais pela sensibilidade pagã daquela comunidade recém-convertida do que por ser um dom para toda a Igreja (cf. 1Cor 13,11).
 
O papel do Espírito na Igreja
 
Afinal de contas, para quê serve o Espírito Santo na Igreja? Faço esta pergunta aparentemente sem sentido em virtude da interpelação que este tema me traz: O Espírito serve para fazer as pessoas balbuciarem coisas sem nexo e desmaiarem quando estão por ele tomadas? O Espírito de Deus precisa deste modo de comunicação para se fazer sentir, notar e entender? As pessoas precisam desmaiar e falar em línguas para crer que Deus existe e que o Espírito Santo é real? Afinal, o que significa isto: “passa fogo no meu braço agora...”; “eu quero sentir o seu Espírito...”; “eu quero mais de Deus...”; “toma meu ser, Senhor...”?
Quero reproduzir textualmente o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica acerca do papel do Espírito Santo na Igreja. Vamos lá:

737 A missão de Cristo e do Espírito Santo realiza-se na Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo. Esta missão conjunta associa a partir de agora os fiéis de Cristo à sua comunhão com o Pai no Espírito Santo: o Espírito prepara os homens, antecipa-se a eles por sua graça, para atraí-los a Cristo. Manifesta-lhes o Senhor ressuscitado, lembra-lhes sua palavra, abrindo-lhes o espírito à compreensão de sua Morte e Ressurreição. Torna-lhes presente o mistério de Cristo, eminentemente na Eucaristia, a fim de reconciliá-los, de colocá-los em comunhão com Deus, a fim de fazê-los produzir "muito fruto".

739 Por ser o Espírito Santo a unção de Cristo, é Cristo, a Cabeça do Corpo, que o difunde em seus membros, para alimentá-los, curá-los, organizá-los em suas funções mútuas, vivificá-los, enviá-los a testemunhar, associá-los à sua oferta ao Pai e à sua intercessão pelo mundo inteiro. É pelos sacramentos da Igreja que Cristo comunica aos membros de seu Corpo o seu Espírito Santo e Santificador.

O Catecismo ainda acrescenta que é função do Espírito socorrer a nossa fraqueza para que oremos ao Pai como convém. Pergunto: onde estão os desmaios, as línguas sem nexo, o fogo no braço e o “entorpecente” divino? Os sacramentos da Igreja não são suficientes para manifestar o Espírito? São ineficazes?

Os Grupos de Oração e o Pentecostalismo

Os grupos de Oração e a própria Renovação Carismática Católica nasceram de um evento numa universidade norte-americana no qual se uniram católicos e evangélicos. A experiência evangélica trouxe o pentecostalismo que não se aproxima da doutrina bíblica ou católica acerca do Espírito Santo, ao contrário, distancia-se uma vez que o Espírito passa a ser compreendido não mais como um dom do Pai e do Filho para a Igreja (Qui ex Patre Filióque procédit), mas, como uma unção particular de Deus para o crente. Evidente que esta visão do Espírito Santo está estreitamente ligada à visão Protestante de mundo que se firmou a partir dos cinco solas: sola fide, sola Christus, sola scriptura, soli Deo gloria, sola Gratia e do livre-exame das escrituras sem a interferência/necessidade de um Magistério e da Tradição.
 
Conclusão
 
A Igreja reconheceu o sopro do Espírito na Renovação Carismática Católica através do reconhecimento Pontifício de várias das novas comunidades a ela ligadas. Este brevíssimo texto não quer exaurir o dom de Cristo à Igreja, pelo contrário. Quer somente dar uma contribuição da teologia bíblica acerca deste fenômeno. Uma coisa é patente: falar em línguas, curar, entre outros dons, são dons particulares que estão no final da lista de São Paulo e que devem, igualmente, estar no último lugar da busca e do interesse do cristão. Antes de tudo a mútua e contínua caridade. Não duvido que o Espírito sopre onde quer e que dê seus dons (sejam eles quais forem) a quem quiser. O que me interroga é o modo quase abusivo como isso é feito hoje em dia. Muitas pessoas que frequentam cultos neo-pentecostais e G.O. agem como se a glossolalia fosse quase obrigatória para o ingresso ali. Outras posturas depessoas que catalogam e condenam aqueles que não entendem, não aceitam e não praticam os “carismas”. Estes carismas, como orientou a Igreja, são particulares e são dados por Deus a algumas pessoas. Logo, nem todos os possuem. Eles são dados para o bem do corpo místico e não para o deleite pessoal do crente.
 
É errado o que acontece hoje em dia: noites de derramamento do Espírito, encontros de batismo no Espírito Santo, etc. O derramamento do Espírito se dá no batismo e o batismo é o batismo no Espírito Santo e não há outro. O que se faz, desculpem-sem, é heresia. Pois, o Espírito Santo é invocado como se fosse um espírito ou um demônio para possuir, entrar, no corpo de uma pessoa, dominá-la e dar-lhe seu poder. Isto é absurdo! O Espírito nos dá poder sim, mas é outro! O poder de amar como Jesus, sacrificar-se como Jesus, viver como Jesus. Ele nunca precisou orar em línguas ou desmaiar e, sabemos, o Espírito Santo estava sempre com Ele.

Caríssimos, espero poder ter ajudado a esclarecer alguma coisa com este texto. Qualquer dúvida, postem-na.



quinta-feira, 10 de março de 2011

Opúsculo - O caminho quaresmal


Papa Bento XVI


Este itinerário que somos convidados a percorrer na Quaresma é caracterizado, na tradição da Igreja, por algumas práticas: o jejum, a esmola e a oração. Jejuar significa abster-se de comida, mas inclui outras formas de privação que visam a uma vida mais sóbria. Tudo isso não é ainda a realidade plena do jejum: é o sinal exterior de uma realidade interior, do nosso compromisso, com a ajuda de Deus, de abster-nos do mal e de viver o Evangelho. Não jejua de verdade quem não sabe se nutrir da Palavra de Deus.

O jejum, na tradição cristã, está intimamente ligado à esmola. São Leão Magno ensinou, em um de seus discursos sobre a Quaresma: "Aquilo que todo cristão faz sempre, deve agora praticar com maior dedicação e devoção, para cumprir a norma apostólica do jejum quaresmal, que envolve a abstinência não apenas da comida, mas sobretudo a abstinência dos pecados. A este obrigado e santo jejum, não se pode acrescentar um trabalho mais útil do que a esmola, que, sob a denominação única de ‘misericórdia', inclui muitas obras boas. Imenso é o campo de obras de misericórdia. Não só os ricos e abastados podem beneficiar os outros com a esmola; também os de condição modesta ou pobre. Assim, apesar de desiguais nos bens, todos podem ser iguais aos sentimentos de piedade da alma" (Discurso 6 sobre a Quaresma, 2:PL 54, 286). São Gregório Magno lembrou, em sua "Regra Pastoral", que o jejum é santo pelas virtudes que o acompanham, principalmente pela caridade, por cada gesto de generosidade, que dá aos pobres e necessitados o fruto de nossa privação (cf. 19,10-11).

A Quaresma é também um momento privilegiado para a oração. Santo Agostinho diz que o jejum e a esmola são "as duas asas da oração", que lhe permitem ganhar maior impulso e chegar a Deus. Ele afirma: "Assim, nossa oração, feita com humildade e caridade, no jejum e na esmola, na temperança e no perdão das ofensas, dando coisas boas e não retornando as más, afastando-se do mal e fazendo o bem, busca a paz e a alcança. Com as asas dessas virtudes, nossa oração voa segura e é levada com mais segurança até o céu, onde Cristo, nossa paz, nos precedeu" (Sermão 206, 3 sobre a Quaresma: PL 38,1042). A Igreja sabe que, pela nossa fraqueza, é muito fatigante fazer silêncio para colocar-se diante de Deus e tomar consciência da nossa condição de criaturas que dependem d'Ele e de pecadores que precisam do seu amor; por isso, na Quaresma, ela nos convida a uma oração mais fiel e intensa, e a uma meditação prolongada sobre a Palavra de Deus. São João Crisóstomo nos exorta: "Embeleza tua casa com modéstia e humildade, através da prática da oração. Torna tua casa esplêndida com a luz da justiça; adorna suas paredes com as boas obras, como se fossem pátina de ouro puro e, em vez de muros e de pedras preciosas, coloca a fé e a sobrenatural magnanimidade, pondo sobre todas as coisas, na parte superior do frontão, a oração como decoração de todo o complexo. Assim, preparas para o Senhor uma morada digna, assim o acolhes em um esplêndido palácio. Ele te concederá transformar tua alma no templo da sua presença" (Homilia 6 sobre a Oração: PG 64, 466).

Queridos amigos, neste caminho quaresmal, fiquemos atentos para acolher o convite de Cristo a segui-lo de maneira mais determinada e coerente, renovando a graça e os compromissos do nosso Batismo, para abandonar o homem velho que está em nós e revestir-nos de Cristo, para, renovados, chegar à Páscoa e poder dizer com São Paulo: "Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20). Bom caminho quaresmal a todos vós! Obrigado!



quinta-feira, 3 de março de 2011

Sobre o que realmente importa... [2ª parte]

No texto anterior fiz uma constatação simples acerca da atual situação do espírito de nossa época sem me deter nos aspectos psicológicos, políticos, sociais ou econômicos em si mesmos. Porém, fiquei apenas na constatação, na consternação e susto diante do real. O real interpela uma resposta, penso. Ele pode ser reinterpretado para uma significação maior e mais apurada. Quero trazer a necessidade do Belo, do Verdadeiro, do Bem e da Justiça como meio de superação da atual laceração do real a partir da fé cristã.

O Belo como resposta – Um ensaio de estética cristã

Desde o idealismo alemão e Merleau-Ponty é ponto pacífico que a beleza está nos olhos de quem vê. Na modernidade, o subjetivismo do sujeito demanda o que é ou não belo. Outro dia vi um exemplo bom: se você vai a uma exposição de arte surrealista ou expressionista e, para dar um ar de entendido em artes, pára diante de uma tela completamente abstrata sem nada dela compreender, uma criança pode te retirar desta altíssima contemplação idiota com uma pergunta simples: “pai, o que é isso?” Ponto. Isso é arte. Mas, arte é isso, coisa, res inexpressiva? Não deve ser antes de tudo uma manifestação da beleza na qual o humano se reconheça, se eleve e contemple a divisa do mágico, do sublime? Se assim o é, um humano deveria entender o que uma pintura surrealista é do mesmo modo que uma peça de Bach é interpretada na Nova Zelândia, na Irlanda ou no Chile e leva seus auscultadores à imersão na Eterna e Imortal Beleza. A beleza como expressão d’O Belo tornou-se artigo privado e vendável, por isso mesmo cultua-se hoje o bizarro.

Para que o Belo possa ser proposto como resposta a esta “noite coletiva e cultural”, deve ser apresentado a partir do Belo Absoluto, Deus. A Beleza que é em si. Como é a beleza de Deus? Conheço-a a partir de Jesus Cristo “o mais belo dos filhos dos homens”. É a beleza dos sentimentos nobres, da misericórdia irrestrita, da intransigência para com o erro. No entanto, veja que a deformidade em Jesus parece ser a ausência da beleza e ao mesmo tempo constitui-se um caminho para a contemplação do Belo. Jo 8,1-11 é o texto da mulher que foi pega em adultério e, levada por uma multidão a Jesus, estava para ser apedrejada até a morte. A deformidade da vida daquela mulher foi lócus para a manifestação do Belo. Não rechaçada, mas, acolhida, curada, melhorada e ressuscitada. O curioso era que sua busca não era a da Beleza, mas, da dispersão no não-ser uma vez que sua posição de adultério adulterava o ser originário que Deus havia criado (cf. Mt 19,4-5). Ela tornara-se objeto de consumo. Com a transformação passara com Jesus, volta a ser de novo a bela mulher que pode contemplar novamente o Belo em si mesma.

Esta beleza não é extrínseca ao ser humano. Não está fora, mas, dentro. O bizarro, o doentio, o violento, dark e underground presentes na nossa cultura pós-moderna somente evidenciam a ausência da referência do Belo Absoluto. Segundo uma amiga psicóloga, o ser humano não vê o outro por uma janela no sentido que não somos uma janela, mas, o vê por um prisma, um espelho. O outro é um espelho de si que reflete o que o sujeito tem dentro. Logo, a busca da não-beleza, penso, é uma reprodução do vazio de valores presente dentro do ser humano. Jesus não era belo por ter uma bela forma física somente, mas porque ele era a beleza que emergia de dentro para fora e então refletia nos demais. Esta beleza externa movida a partir do Belo faz ver o mundo, contemplar e agir de um modo distinto dos que não a tem. Segundo a psicologia o ser humano tende à reprodução compulsiva dos fatos que lhe ocorrem. Logo, um ser violentado reproduzirá violência e assim sucessivamente. O culto da bizarrice, portanto, tem grandes chances de sobreviver entre nós! Ademais, a necessidade de uma nova estética se impõe diante deste quadro.

Eu aludia no primeiro texto a uma beleza primeira, primordial, da qual se pode ter uma nostalgia. Esta beleza pode ser traduzida também, penso eu, por harmonia. Na arquitetura grega da época de ouro dos gregos, a harmonia das formas era expressa na simetria e perfeição com que se construía algo. O juiz era o olhar do expectador na busca da perfeição. Aliás, abro aqui um parêntese para dar uma nota importante: é notória a busca grega pela perfeição, pelo equilíbrio e pela felicidade durante o período da filosofia de Sócrates até as escolas helenistas. Continuando... A escadaria do Parthenon, por exemplo, foi projetada para que os que estivessem embaixo pudesse vê-la simétrica até o último degrau. Do mesmo modo as colunas ali colocadas foram construídas assimetricamente para que, de longe, dessem ao expectador a impressão da simetria. As estátuas gregas buscam reproduzir o humano na mais completa similaridade com o real, ainda que sejam estátuas de deuses. A pintura e a escultura da renascença também buscaram esse apelo ao concreto, harmônico e proporcional entre o que capta o olhar e a realidade. Esta visão da proporcionalidade das formas dava ao expectador a dimensão do universo circundante. É a proporcionalidade que, por sua vez equivale a Verdade. Da atividade dos mecenas da renascença nos vem o termo sinceridade. Ao avaliar a escultura de um artista, esta deveria ter sido confeccionada com uma única pedra, sem emendas. As emendas eram feitas com cera e depreciavam a obra do artista. Uma vez que a escultura não possuísse emendas não possuía cera, era sin cera. Sinceridade neste contexto equivale a verdade, lisura, honestidade, retidão.

Deste sobrevôo arbitrário pela Grécia e pela Renascença, voltamos ao presente no qual uma pergunta se me impõe: Porque dizemos que algo é belo? Porque dizer isso equivale a que este algo seja verdadeiro, puro e que de certo modo eleve a alma. Concorda? A objetividade do Belo e da Verdade em relação ao real remete imediatamente à fonte da Verdade e da Beleza. Deus. Hoje há uma gama de compreensão do que seja Belo. Aí se incluem conceitos de arte, concepção histórica do objeto e do contexto, pragmaticidade, uso e comércio. Definir o que é o Belo hoje não é tarefa fácil. Percebe-se neste ínterim que o Belo, sobretudo no Brasil, está ao alcance de quem pode comprá-lo: a roupa, o acessório, o sapato, o artigo de decoração, a cozinha X, o banheiro Y, etc. Mas, isto é kitsch ou belo de fato? O que faz a beleza deste ou daquele artigo? O seu preço, sua raridade, sua inacessibilidade às classes mais pobres da população? E os pobres se contentam com o que? Geralmente, a pobreza fica com o sub-produto da produção da “arte” em grande escala para as elites. Vide as músicas, roupas, sapatos, carros, etc. Tudo girando em torno do comércio.

Quero fazer passar por um teste muito simples o conceito contemporâneo de beleza:

Porque dizemos que algo é belo? Porque dizer isso equivale a que este algo seja verdadeiro, puro e que de certo modo eleve a alma. A objetividade do Belo e da Verdade em relação ao real remete imediatamente à fonte da Verdade e da Beleza. Deus.

Verdadeiro equivale à sinceridade, lisura, honestidade, retidão. Pergunta: É honesto e reto que somente o consumível seja Belo? Onde está a objetividade da verdade na beleza contemporânea que é consumível? É verdadeiro, ou seja, estável; ou somente efêmero, exótico e prazeroso? O efêmero pode ser belo? Sim, pode. Mas o belo não pode ser consumível! Pense no exemplo da flor: Ela é bela no seu habitat. Você a quer porque quer sua beleza e seu perfume para si. No fim, você não quer a flor, mas, aquilo que ela tem. Portanto, arrancá-la do pé é a melhor forma de consumir o que a flor pode lhe oferecer. Resultado: na sua mão ela morrerá mais depressa e sem ter realizado o fim para o qual ela fora criada. Ela fora criada para nascer, crescer e morrer ali no seu habitat. Sua beleza não foi criada para ser manipulada, por isso é fugidia. A flor eleva? Sim, porque é gratuita. A poltrona com um novo design eleva? Não. No máximo desperta satisfação pela compra. Por isso, não é honesto dizer que o belo é o pragmático, o consumível. A objetividade da verdade não se encontra no conceito contemporâneo de beleza, uma vez que o mesmo está centrado não no Belo em si ou na beleza em si da coisa, mas, no lucro que pode advir da manipulação da beleza.

Após realizar este teste simplório percebo que não temos o Belo hoje por um fator simples explicado pela teoria das religiões, pela teologia, pela teodicéia e até pela filosofia: Deus, Suma Beleza e Verdade, Sumo Bem e Justiça, é Amor conforme 1Jo 4,8. Amor-Ágape, capaz da kênosi absoluta, da pericorese perfeita. Cada um dos Divinos Três é para o Outro, voltado para o Outro. Suprema conformidade, abertura, generosidade, gratuidade, graciosidade, gentileza. Prontos a dar, dar, dar... Amar, amar, amar sempre e irrestritamente a cada um. O mundo perdeu a capacidade de contemplar, internalizar e externar esta realidade. A circunstancialidade é da ordem do dia. O Eterno fica para quando o indivíduo tiver tempo e que sejam somente 35 minutos por semana para que os outros compromissos não sejam atrasados! É por isso que a humanidade, hoje, adora as bestas, contempla o horror, medita a desgraça e reproduz bizarrice. Porque o Belo foi exilado do mundo que não tem tempo para mais nada, senão para consigo mesmo. É por isso que sentimos saudades de não-sei-o-quê quando lemos “O Senhor dos Anéis”: é porque vemos bestialidade onde deveríamos contemplar beleza gratuita!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Estudo em Harvard dá razão à Igreja - Sexo e Aids

ROMA, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Um estudo realizado pela Universidade Harvard deu razão à posição de Bento XVI sobre a AIDS, afirmando que um comportamento sexual responsável e a fidelidade ao próprio cônjuge foram fatores que determinaram uma drástica diminuição da epidemia no Zimbábue.

Quem explica, em sua última pesquisa, é Daniel Halperin, do Departamento de Saúde Global da População da universidade norte-americana, que, desde 1998, estuda as dinâmicas sociais que causam a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis nos países em vias de desenvolvimento.

Halperin usou dados estatísticos e análises sobre o estudo de campo, tais como entrevistas e focus group, o que lhe permitiu coletar depoimentos de pessoas que pertencem a grupos sociais mais desfavorecidos.

A tendência de dez anos é evidente: de 1997 a 2007, a taxa de infecção entre adultos diminuiu de 29% a 16%. Após sua pesquisa, Halperin não hesita em afirmar: a repentina e clara diminuição da incidência de AIDS se deve "à redução de comportamentos de risco, como sexo fora do casamento, com prostitutas e esporádico".

O estudo, publicado em PloSMedicine.org, foi financiado pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, da qual Halperin foi conselheiro, e pelo Fundo das Nações Unidas para a População e Desenvolvimento.

"Com este estudo, Halperin promove uma reflexão séria e honesta sobre as políticas até agora adotadas pelas principais agências de combate à AIDS nos países em desenvolvimento", afirma o jornal L'Osservatore Romano, ao dar a notícia, em sua edição de 26 de fevereiro.

Segundo o estudo, fica claro que a drástica mudança no comportamento sexual da população do Zimbábue "recebeu o apoio de programas de prevenção na mídia e de projetos educativos patrocinados pelas igrejas".

Poucos anos atrás, Halperin se perguntava como é possível que as políticas de prevenção "mais significativas tenham sido feitas até agora baseando-se em evidências extremamente fracas", ou seja, na ineficácia dos preservativos.

Em suma, segundo o estudo de Halperin, é necessário "ensinar a evitar a promiscuidade e promover a fidelidade", apoiando iniciativas que visem a construir na sociedade afetada pela AIDS uma nova cultura.

Como disse Bento XVI, é necessário promover uma "humanização da sexualidade".

Fonte: Zenit

P.S. Eu já sabia isso a bem mais tempo que o doutor de Harvard e sem necessidade de tantos estudos... rsrsrs... viram como a ilustração não quer dizer muita coisa?! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

terça-feira, 1 de março de 2011

Ciber-Navegação

Caro leitor, vou colocar algumas dicas de sites para boa leitura:

Este primeiro "Icones" (link aqui) contém textos filosóficos e de teodicéia muito bons. Aconselho a leitura! Eu o encontrei ao buscar na internet algum texto sobre Immanuel Kant e me deparei com o texto do dito site sobre Kant, a verdade e a subjetividade.

O segundo "Inter-Esse" (link aqui) na mesma linha do "Icones" contém textos filosóficos, teológicos e outros.

Aconselho a leitura destes dois sites/blogs!