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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sobre o que realmente importa...


Não é surpresa para ninguém que eu sou um apreciador do Senhor dos Anéis, aliás, fã. Gosto muito de cotejar coisas da vida com o que eu apreendi daquela estupenda obra. Vou abrir um parêntese: Não leia literatura fast-food. Só serve para encher a barriga e anestesiar a mente. Leia o que te irá construir como pessoa, aquilo que possui sentido e que pode dar sentido. Bom, continuando... Esta semana estivemos no retiro do clero na cidade de Hidrolândia-Go e na quinta-feira eu preparava a homilia deste domingo, o VIII do Tempo Comum. O Evangelho (Mt 6,24-34) está dentro do Sermão da Montanha de Jesus (Mt 5-7) e este trecho é o que diz explicitamente: “não vos preocupeis com o que haveis de comer, de beber ou de vestir. Pois, são os pagãos que se preocupam com isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6,31-33).
 
O sentido religioso do texto é claro: Jesus exorta a que seus discípulos coloquem sua confiança total e irrestrita no Pai do qual provém toda justiça, sendo a maior delas o amor ao próximo como vimos nos três domingos anteriores. Portanto, sendo Deus um Deus-Amor ele é justo por aquilo mesmo que Ele é e nada deixa faltar aos seus. Mas aqui quero pintar com você, caro leitor, um quadro singular. A pergunta-título nos guiará: O que realmente importa? Pouco antes do texto desta liturgia dominial, lemos em Mt 6,21: “Onde está o teu tesouro aí está o teu coração”. O que realmente importa? O que é o nosso tesouro, o teu tesouro?
 
Quando o expectador no cinema ou em casa, vendo a Trilogia “O Senhor dos Anéis” ou lendo a Obra de Tolkien, se depara com o ambiente da Terra-Média, logo reage com algumas impressões e desejos que já pude verificar em muitas pessoas e até em mim: em alguns um sentimento melancólico de algo que deveria ter sido belo e maravilhoso; noutros a sensação de que não poderia ter terminado assim com idas sem volta, mortes sem ressurreição; ainda a sensação do sacrifício por força do dever e da responsabilidade; a amizade sincera e fiel pronta a se sacrificar pelo bem do outro sem pestanejar. Valores como honra, lealdade, sacrifício por aquilo “de bom e de belo que ainda há neste mundo e que merece ser salvo” (Sam). Tudo isso suscitado em torno a uma literatura, um mito criado para refletir a atual situação humana. E porque isso é suscitado em nós? Porque você sente saudade de lealdade e de amizade honesta? Porque o sacrifício por uma causa nobre te parece tão viril e justificável? Porque temos saudade do belo e horror ao mal? Porque a morte de personagens bons mexe contigo? Porque você chorou ao ver Frodo, Gandalf, Galadriel, Celeborn partirem dos Portos Cinzentos? Porque seu coração ficou apertado naquele momento? Bom, se você não viveu nenhum desses sentimentos pode ficar tranqüilo (a). O texto segue adiante...

O que realmente importa? O que é essencial? Somos homens, não máquinas. Isso todos o sabemos. Porém, a vida corre para nós como se fôssemos máquinas em uma linha de produção. Cada qual deve produzir X coisas, caso contrário não serve mais. Além disso, se o Fulano não consumir o produto Y ele também não serve mais! Se o Cicrano não pegar x2 de garotas, ele também não serve mais! Se os namorados não fizerem sexo, o namoro também não serve mais! Se o outro não se tornar um produto utilizável, o outro também não serve mais. Se o indivíduo não se tornar excelente em tudo, também não serve mais. Se alguém não tem dinheiro, nem ser humano é considerado. Se você não luta por garantir o seu “lugar ao sol” você é um maluco! As relações estão saindo da reciprocidade, da gratuidade, para um tipo “comercial”, de interesse. Hoje nada mais precisa ser sacrificado, pois, tudo é permitido! Nada mais possui honra, pois, isso é antiquado. Será que ainda há algo “de bom e de belo neste mundo que mereça ser salvo”? O que realmente importa?

Ainda me impressiona o personagem Frodo que leva o Um Anel que contém todo o mal do Senhor do Escuro! A menor criatura da Terra-Média, vindo de um povo sem expressão cultural, artística, arquitetônica ou bélica. Um hobbit sem poder algum e sem nem saber o caminho por onde andar. Ele simplesmente vai confiando nos amigos da Sociedade que logo se desfaz. É atraído, traído, tentado, dominado e quase vencido. Mas, o que realmente importa? “Não haverá uma volta, Sam. Pelo menos não para nós”, diz Frodo. Depois de colocar o pé na estrada, conforme a letra da música de Bilbo, a estrada vai sempre seguindo em frente e não tem volta! Pode-se pegar uma estrada de sacrifício sem volta, por amor, pela verdade e pela justiça. Mas, não vale a pena pegar uma estrada sem volta que leve ao abismo infernal da autodestruição provocada pelo egoísmo expresso na violência, nas drogas, no consumismo e no sexo desumano como hoje é vivido. Isto não tem honra, isto não tem valor por si mesmo, não possui nenhuma glória ou beleza. Apenas destruição, cinza e morte.
 
Nossos olhos não se saciam com a morte, com o feio ou o bizarro. É a beleza que enche nossos olhos de alegria, nos faz sorrir e ver encanto na vida. É a beleza dos elfos de Imladris ou de Gondolin que nos deixam estupefatos em Tolkien. É sua música, é sua inteligência, sua memória e seu semblante irremissivelmente triste por aqueles que morreram em eras passadas numa escuridão que tomara conta dos corações. Dotados de uma nostalgia da beleza e de paz antigas, da tristeza de mortes e eras sucessivas, eles nos passam essa mesma sensação como se perdêramos nós uma paz que tivéramos, uma beleza que cultiváramos e uma harmonia a muito esquecida nas ondas da poeira do tempo. E não é que esquecemos a beleza, a paz, a harmonia, a verdade, a amizade, a honradez e a justiça? Elas nós as substituímos por carros, dinheiro, trabalho, consumo, aparências e egoísmos. É isso que realmente importa? Vede, vede os lírios do campo...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Depois de um tempo, eu...

Não é de engajamento social ou político esta postagem. É sobre tudo o que é importante e que por isso mesmo, não interessa muito aos grandes. É sobre o tempo e a eternidade. É sobre novembros e janeiros; sobre fevereiros, lágrimas e alegria. Sobre Evangelho e vida, enfim, sobre a minha vida.

Tenho vivido dois anos de ministério sacerdotal muito intensamente. Vi dores, alegrias, tristezas e vitórias minhas e de outros ao meu redor. Quero escrever nestas linhas um pouco do que me transborda... É um dom, um presente... Não o use levianamente.

As palavras que acabei de listar não são somente palavras. Escondem uma realidade. Por trás delas existem nomes de pessoas que lutam, perdem, ganham, mas que não se abalam. Não são palavras. São vidas. É Evangelho. Vejo dores misturadas com esperança. Lágrimas com fé. Tristezas e desalento com compaixão e misericórdia. Vitórias e alegrias com simplicidade; como um raio de sol a aquecer uma fria manhã de julho. Vi novembros se transformarem em esperança e fevereiros em alegria. Vi dezembros de vitórias e janeiros de céu. Meu Deus! És Tu! És Tu que, sem o saber, trago em silêncio n`alma, que me configuras e reconfiguras ao teu divino jogo de amor. Meu Deus! Como existem pessoas que dizem não te conhecer?! E que mesmo te conhecendo, te negam e viram-lhe as costas? Porque me fizeste ver-te, Senhor, em cada um que me trouxeste? Eras tu...
Eras tu em desalento...
Eras tu em silêncio e lágrimas...
Eras tu em esperança...
Eras tu em dor...
Eras tu no luto, na perda doída...
Eras tu na alegria radiante e maravilhosa...
Eras tu na conquista simples e verdadeira...
Eras tu pobre e indefeso...
Eras tu jovem, com imensa vitalidade...
Eras tu velho com a larga experiência dos anos...
Eras tu brigão e eras tu dócil...
Eras tu...
Escolheste este modo de vir a mim, de me provar no cadinho do Evangelho como se me perguntasses a cada dia "crês nisso?" para que eu pudesse responder: "És tu!" Descobri o motivo pelo qual me chamastes a ser teu servo... Para que eu te veja e reveja em cada homem e mulher que passa no meu caminho e seja eu também, tu para eles. Você está no Sacrário e eu creio! Você está no outro e eu também creio e vejo! Você vê? Sim, você que lê agora esta página também o vê? Sabe aquele evangelho que você ouve na Igreja, lê em casa, mas que não sabe como praticar? Aquele evangelho difícil de entender e assimilar? Aquela lei da Igreja ou norma que você discorda, ou aquela pessoa que você não ama mesmo que sabia da necessidade de amar? Pois bem, tudo isso tem um nome. Tem um norte e um sentido. O Evangelho é Vida! A Lei é Vida e o outro, é Vida! Comece acreditando no Evangelho que você lê e ouve como você crê em bula de remédio e no médico que te receita Dimeticona! Ele é real, é verdadeiro. Funciona e você pode começar experimentando... faça a experiência de viver uma frase. Só uma e depois comunique sua experiência a outros... Depois, viva outra, e outra e mais outra... logo você verá como eu que o Evangelho é Ele, que no outro está Ele escondido, que a Eucaristia é Ele vivo. Ele por toda parte! Como será que um jovem deixa a Igreja Evangélica e se torna Católico? Atraído por Ele! Vamos viver assim?! Viver com Ele em meio a nós seria o céu! Veja: se você e eu vivemos nele e por Ele, nos esvaziamos de nós e nos preenchemos dele em nós, no outro, na Palavra e na Eucaristia. Assim, "já não sou eu quem vivo. É Cristo que vive em mim". Jesus em meio a nós é o céu porque o céu é a trindade e onde está Jesus está toda a Trindade. Tenho vivido esta experiência nos últimos tempos. Tenho visto e contemplado o céu. Ele é belo, formoso e tem o rosto de cada um porque Deus é Imenso. Não necessito de paraísos terrestres, pois na terra mesmo já me preenche a mera pregustação do Paraíso. Obrigado, Senhor. Obrigado porque existem fevereiros e novembros!