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terça-feira, 25 de maio de 2010

Um só esposo sobre a terra



Tenho um só esposo sobre a terra:
Jesus abandonado.
Não tenho outro Deus além dele.
Nele está todo o paraíso com a Trindade
e toda a terra com a humanidade.
Por isso, o seu é o meu e nada mais.
Sua é a dor universal e, portanto, minha.
Irei pelo mundo à sua procura
Em cada instante da minha vida.
O que lhe faz sofrer é meu.
Minha, a dor que perpassa no presente.
Minha, a dor de quem está ao meu lado.
Meu tudo aquilo que não é paz,
Gaudio,
Belo,
Sereno.
Numa palavra: tudo aquilo que não é Paraíso.
Pois eu também tenho o meu paraíso,
Mas ele está no coração do meu esposo.
Outros paraísos não conheço.
Assim será pelos dias que me restam:
Sedenta de dores,
De angústias,
De desesperos,
De melancolias,
De exílio,
De abandonos,
De dilacerações,
De tudo aquilo que não é Ele.
E Ele é o pecado, o inferno.
Assim, dessecarei a água da tribulação
Em muitos corações próximos e distantes,
Pela comunhão com meu esposo onipotente.
Passarei como fogo que devora tudo o que há de ruir
E deixa de pé só a Verdade.
Mas é preciso ser como ele,
Ser ele no momento presente da vida.

Chiara Lubich

O que eu penso dos recentes acontecimentos midiáticos?




O que está acontecendo é algo previsível pela própria coerência do Senhor da história e da Igreja. Ele não quer que sua Esposa seja maculada pelos pecados pessoais de ninguém. Porém, a isso junta-se o ódio do Inimigo contra a Igreja de Cristo. Obviamente que Jesus nunca iria ridicularizar os sacerdotes de sua Igreja. Mas, se isso acontece precisamos nos perguntar uma coisa: qual o propósito que há nisso tudo? Talvez não consigamos enxergar todo o propósito que há. Mas mesmo que não o consigamos ver, podemos seguramente nos lançar com maior confiança nas mãos daquele que tudo pode e que tudo conduz para o maior bem de sua própria Igreja. Eu não me assusto com isso. Me entristeço, outrossim, por que são irmãos no ministério sendo expostos; e ainda mais me entristeço ao ver a maldade por trás das ações que levaram estes fatos à mídia. Juntando-se todos eles, dá para perceber um certo linxamento da Igreja promovido pela mídia. Isso sim me entristece: a falta de respeito para com a Igreja que é tremenda. Mas também esta dor é providência. Tudo é graça! Tudo é Ele, crucificado e abandonado. Hoje, Ele, é cada sacerdote humilhado pela mídia. Hoje, Ele, é a Igreja humilhada e ridicularizada. Hoje, Ele, é a dor, o abandono, a separação, todo nada e toda chaga, toda angústia. É Ele. Abandonado e crucificado a clamar por amor. Lembro-me muito nestes dias de uma frase de São Francisco de Assis: "O amor não é amado!" Não é só uma frase. É uma constatação! E o ódio do Inimigo se dirige ao cerne do Amor na Igreja que é o próprio Cristo Cabeça em seus sacerdotes. Vigie e ore! Acalme seu coração e perceba: é como se você andasse numa floresta à noite. Ao seu lado existem árvores grandes, altas, ameaçadoras. Suas sombras fazem tremer quem passa perto. Seu coração fica apertado e pequeno ao pensar que logo ali na frente algo ruim baterá à sua frente e te atacará. Mas o caminho é assim mesmo, cheio de perigos. Você só vislumbrará a luz quando raiar a manhã. Por enquanto, é escuridão e fé.

domingo, 23 de maio de 2010

Veni Creator Spíritus


(Homilia - Maio/2009)

Nesta noite santa, caríssimos irmãos e irmãs, “quando nos ensina a clamar ‘Abba’, o Espírito Santo se comporta como a mãe que ensina o filhinho a dizer ‘papai’ e repete este nome com Ele, até que o leva ao hábito de chamar o Pai até dormindo”[1]. “Oh como é doce este Espírito, quão agradável, quão suave! Só o conhece aquele que o provou!”[2] Exclama assim o Papa Inocêncio III. Exclamamos assim também nós que tomados pelo clima celeste desta noite queremos unir nossas vozes militantes ao coro de vozes triunfantes e formar um único Corpo num único louvor ao Pai por meio Jesus Cristo, agradecendo pelo dom do Espírito à sua Igreja.

Sancte Spiritu: Ilumina, vivifica as mentes, nos corações infunde a vontade de amar, tu que és a Verdade! Unge nossos ouvidos para a verdade e coloque em nossos lábios o cântico novo que ressoa eternamente nas moradas celestes e que faz a terra tremer ante a justiça do Senhor, nosso Deus.

Dá-nos o dom da fé diante das solicitações do pecado e do mundo. Tu, enviado do Pai e do Filho, enche nossos corações de paz e alegria e faz-nos entender que somente tu moves-nos na direção segura. Faze que reconheçamos o Bom Pai do céu no rosto do Filho muito amado no qual também somos filhos e instrua nosso coração no caminho do divino mestre.

Espírito de discernimento e sabedoria concede-nos a visão para entender, assumir e redimir nossos pecados na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Tu Espírito da Verdade faze-nos ver a verdade de nossas vidas diante de Vós e diante do Onipotente que é louvado pelos séculos eternos.

Tu que pela obra criadora do Pai e pela obra redentora do Filho foste-nos enviado, ensina-nos o caminho de Jesus, revele-nos sua vontade, mostre-nos a Ele, revele-o a nós.

Assim como somos criaturas do Pai, amados pelo Filho e pelo Espírito, somos convidados nesta noite santa a fazer-nos dóceis à moção do Espírito que clama em nós, por nós e conosco ao Pai. Hoje o clamor do Espírito se estende a toda Igreja e clama por Unidade entre os cristãos, por concórdia entre as famílias, por verdade entre todos e para todos, por amor verdadeiro e recíproco. O Espírito clama hoje por almas dóceis ao projeto do Pai para a salvação do mundo. O Espírito clama por jovens servidores do altar que sejam corajosos e dispostos a entregar sua vida a favor do evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Espírito clama na Igreja e não podemos lhe calar a voz. Clama por verdade nos relacionamentos, por verdade na fé. Clama por justiça no mundo e denuncia o nosso pecado e o pecado do mundo. Façamos ressoar a voz do Espírito dentro de nós, suave como uma brisa mansa, feroz como um fogo abrasador. Veni Creator Spiritus, mentes tuorum visita, imple superna gratia. Quae tu creasti pectora: Ó Espírito que suscitas o criado, penetra os teus fiéis em profundidade. Derrama a plenitude da graça, nos corações que para ti criaste. Amem.

[1] CANTALAMESSA, R. O Canto do Espírito. Petrópolis; Vozes, 3ed. 1998, pp.24

[2] Idem, pp.23

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Carta da CNBB aos sacerdotes do Brasil



«Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração» (Jr 3, 15)


Nós, Bispos do Brasil, reunidos em Brasília, na 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), queremos saudar a todos os Presbíteros de nossas Dioceses e Eparquia, que mais diretamente compartilham conosco o amor a Jesus Cristo e à Igreja na tarefa de evangelizar o povo de Deus. Agradecemos a total dedicação e amor a Jesus Cristo e à missão da sua Igreja, na qual vocês vivem a vocação e dão seu testemunho sacerdotal. Conhecemos de perto seus sacrifícios que, por vezes, alcançam o heroísmo na busca cotidiana de fidelidade à missão evangelizadora, movidos pelo ardor missionário para animar comunidades e dialogar com os mais diversos ambientes.
Caminhamos para o final do Ano Sacerdotal, cujo tema é «Fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote» que está nos trazendo abundantes graças e uma renovada consciência da identidade dos Sacerdotes, como anunciadores da Palavra, dispensadores da graça e animadores da caridade, a serviço dos irmãos e irmãs. Vocês renovaram conosco, em diversos momentos, a disponibilidade em servir o povo de Deus em suas necessidades mais profundas, com especial atenção aos mais pobres, aos jovens e aos doentes.

Por outro lado, comportamentos abusivos de alguns irmãos Presbíteros atingiram recentemente a credibilidade dos Sacerdotes e a grandeza do dom que nos foi confiado. Amargura e sofrimento, confusão e, mesmo indignação, invadiram o íntimo de muitos cristãos e das pessoas que amam a justiça, a verdade e a coerência de vida. Com humildade, reconhecemos que estamos em tempo de purificação, recordando que, diante do pecado, nos são dados como remédios a conversão, o perdão e a reparação às vítimas; diante do crime, as penalidades da lei civil e canônica; e diante de patologias, adequadas terapias. Essas circunstâncias e acontecimentos são um apelo para nós, Bispos, e vocês, Presbíteros, vivermos de maneira profunda e integral nossa configuração com Jesus Cristo, o Bom Pastor, para que sejam mais facilmente reconhecíveis os traços de sua presença em nosso ser e em nosso agir cotidiano, especialmente porque agimos in persona Christi Capitis (PDV 12) ao cumprir as funções de mestres da Palavra, ministros dos Sacramentos, guias e pastores das comunidades. Um renovado empenho na busca da santidade poderá reavivar em nós e nos agentes de pastoral o entusiasmo para anunciar, testemunhar e celebrar Jesus Cristo. De fato, somente nele se encontram o significado da vida, a alegria e a paz, que não esmorecem, a esperança que não desilude e a caridade que aquece os corações.

O contato diuturno e direto com o povo de Deus faz crescer a integração da vida e a partilha solidária com as comunidades que lhes são confiadas entre mil desafios, fazendo-se tudo para todos para conquistar todos para Cristo, na labuta cotidiana. Queremos reafirmar nossa satisfação e confiança pela multidão de Presbíteros que, identificados com Cristo, compartilham as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias das comunidades que lhes são confiadas (cf. GS 1). Busquem sempre construir a comunhão fraterna, a exemplo das primeiras comunidades, nas quais «todos eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. (...) Todos os que abraçavam a fé viviam
unidos e colocavam tudo em comum» (At 2, 42-45).

Agradecemos as obras de caridade que vocês realizam, com significativa participação de leigos, para enfrentar carências e problemas concretos de suas comunidades. Admiramos os esforços para que todo o povo cresça na consciência de sua dignidade de filhos de Deus e de sua cidadania, em busca de uma libertação plena da pobreza e da fome, da exclusão social e das desigualdades.
Pedimos que zelem pela comunhão eclesial, alimentando-a com a celebração cotidiana da Eucaristia, com a oração fiel e generosa, de modo especial a Liturgia das Horas, com a busca frequente do Sacramento da Penitência e a orientação espiritual, com um estilo de vida sóbrio, que tome distância dos apelos do consumismo, da cultura da banalidade, da invasão do secularismo. Recomendamos, também, que tenham um zelo especial na administração dos bens que lhes são confiados, destinados, sobretudo, para o serviço dos mais pobres. Sobre todos vocês, estimados filhos e irmãos, invocamos a proteção de São João Maria Vianney e da Virgem Aparecida, Mãe dos Sacerdotes, para que Ela os console e fortaleça. Pedimos que Deus os abençoe e renove cada dia, em seus corações, as razões para viverem com entusiasmo e alegria sua total dedicação a Cristo e à Igreja».

Brasília, 11 de maio de 2010

Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana, Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira, Arcebispo de Manaus, Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, Secretário-Geral da CNBB

quinta-feira, 20 de maio de 2010

PNDH-3: Uma questão de fé!




BRASÍLIA - Quase cinco meses após lançar o Programa Nacional dos Direitos Humanos e sofrer críticas de vários setores da sociedade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuou e assinou decreto que altera nove pontos do plano e atende a reivindicações de militares, religiosos e ruralistas. Lula também fez mudanças defendidas pelos meios de comunicação. Para atender a Igreja Católica , ele excluiu o trecho que defendia a descriminalização do aborto e revogou o artigo que proibia presença de símbolos religiosos em locais públicos.

Fonte: O globo.

Isso já é um passo, porém, neste exato momento está acontecendo o VII Seminário LGBT em Brasília sobre políticas públicas para as minorias LGBT. Leia-se: "compromisso com os pontos acordados com o presidente Lula nas conferências anteriores e já consagrados no PNDH-3" (citação livre da fala de uma militante do movimento LGBT na Tv Câmara às 13h15 de hoje 18/05/2009). Portanto, o deputado federal Iran Barbosa (PT-SE) afirmou neste seminário transmitido ao vivo pela Tv Câmara que os movimentos LGBT do país não pararão suas "lutas" em vista a viabilizar os tais "pontos acordados". Vou lista-los a seguir e deixar à apreciação de todos. Mas, antes de o fazer cito a fala de Dom Dimas Lara Barbosa no encerramento do Simpósio de Bioética que aconteceu durante o XVI CEN: "É preciso capilarizar nossas ações a fim de que tenhamos êxito na luta pela vida. A CNBB faz seu papel de cobrar das autoridades competentes, porém, a mudança vem da base". Dom Dimas foi mto aplaudido no auditório do C.C. Ulysses Guimarães e, se nós precisamos nos organizar em nossas paróquias e dioceses, os demais setores da sociedade que tem a agenda LGBT também se organizarão, como afirmou o deputado.

Isso é para entendermos onde se pretende chegar. Porém, alguns pontos me chamam muito a atenção: Primeiro que os ditos "direitos" neste caso precisem ser chamados de humanos. Porquê? A diferença anatômica macho/fêmea não é suficiente para resguardar os direitos fundamentais da pessoa? A capacidade intelectiva também não? Segundo a ideologia de gênero, não. Segundo esta ideologia ninguém nasce homem ou mulher. A pessoa se constrói. Mas a ideologia de gênero não diz que o fulano A ou B do gênero X ou Y não é humano. Todo animal racional nascido de um humano é igualmente humano. Todo homo sapien sapiens é humano e não pode não sê-lo. Logo, afirmar que as tais políticas supra citadas são direitos humanos denigre a população LGBT (sic!) reduzindo-a a não-humana com necessidade de garantir-lhes os direitos dos que são humanos. A questão "gênero" é outra discussão. É uma questão subjetiva como tem demonstrado as inúmeras falas em defesa desta ideologia. Ora, se o Estado legisla para a subjetividade de minorias, como entender a objetividade da Lei? No Estado o poder deve ser exercido visando o Bem Comum. Vemos no Brasil a quase ausência de uma consciência moral objetiva tanto no Estado quanto na população, pois, se é verdade que a Lei deriva dos costumes e da moral, no Brasil o caminho usual tem sido o inverso: costumes impostos sob sanções da Lei.

Num país onde a moral não tem a força de garantir o cumprimento da Lei, esta já nasce morta porquê não educa a consciência, apenas condiciona atitudes mecânicas. Se o Estado se degenera legislando para a subjetividade, o vício do Estado transparece como legal à população e não havendo valor moral objetivo suficientemente forte, toda a nação se vicia como num contágio endêmico. Um ato moralmente mal abre precedente para vários outros. O bem comum deve ser moralmente bom, porém, a maioria pode se decidir por algo moralmente mal como o assassinato de seres humanos na fase embrionária do desenvolvimento, o conhecido aborto, ou no caso que estou argumentando, as questões ligadas à subjetividade dos "pontos acordados" entre Governo Federal e entidades LGBT (sic!). O Estado tem o dever de, nas suas atribuições, conforme a reta razão, estabelecer o que é bom para todos conforme a norma moral objetiva. Não de forma casuística ou subjetiva. O Estado deve ser responsável nas suas atitudes sabendo que cada ato produz conseqüências para o bem ou para o mal e que é seu dever resguardar a sociedade da decrepitude. Porém, num Estado como o nosso no qual a matriz marxiana e a agenda das ONG's anti-católicas entrou, é difícil se falar num dado concreto e objetivo. Neste modelo de Estado vale o poder do dinheiro e não o valor objetivo e imaterial do homem.

O texto do PNDH-3 no qual me baseei para escrever o presente texto está neste link. A quem interessar, é só clicar.

Homilia 2º Dom Páscoa - Sobre os escândalos na Igreja


Não vou postar a homilia toda aqui pq inviabiliza o blog. No entanto, nela trato dos temas que a Igreja tem enfrentado na grande mídia acerca dos escândalos envolvendo os sacerdotes. Vou linkar aqui para você ler o texto no Google Docs. Os coments podem ser deixados aqui mesmo. Obrigado.

Link: http://docs.google.com/document/pub?id=1tInhEcYe_iqQRVlmp2OU8aPsLS9qwA6ep8hrBX___kA

Elegia a um fim de mundo - Tolkien










Encontrei um belo texto na internet que é uma interpretação de O Senhor dos Anéis realmente mto bem feita. Convido-os a ler... quem o quiser ler na íntegra, colocarei o link abaixo. Paz e bem. Pe. Luis Fernando

Através de seus encontros pela Terra-Média que Frodo e o leitor se depara com uma galeria memorável: além de Gandalf, temos Aragorn, Boromir, Sam, Legolas, Galadriel, Éowyn, Théoden, e até mesmo Bill o Pônei. O mal também tem sua força com Saruman, o bruxo que deseja o anel para trair Sauron - e só por aí, temos a noção de que acontecerá uma guerra extraordinária. Porque O Senhor dos Anéis é, em resumo, a crônica de uma guerra - mais precisamente, a Guerra do Anel, evento histórico, segundo a mitologia de Tolkien, que será o ponto derradeiro da Terra-média.
Mas é na visão peculiar que Tolkien tem do problema do Mal que ele agarra os leitores pelo pescoço. Talvez junto com Doutor Fausto, de Thomas Mann, O Senhor dos Anéis é o livro que retrata, com maior claridade, como o Mal se dissemina no coração das pessoas. Sauron nunca aparece fisicamente; porém, ele está sempre presente, seja através dos cavaleiros de Nazgûl, das nuvens escuras que dominam a paisagem da Terra-média ou na visão do próprio olho quando Frodo toma sua decisão solitária no Trono da Visão. No entanto, Sauron não é o Mal encarnado. Temos também Gollum, Saruman, os monstros Balrog e Laracna - e, obviamente, o próprio Anel que é um personagem com vida própria, e tenta os inocentes com suas promessas falsas de poder absoluto. Pouco a pouco, o que deveria ser uma história para crianças na mente do leitor desavisado, se torna uma saga sobre o Poder. E onde estará a ordem, o Bem que tudo move? É aqui que entra a visão católica de Tolkien. No momento em que se menos se espera, do lugar mais improvável, da pessoa menos preparada, vem a luz. Quem, em sã consciência, pode imaginar que será um anão peludo que carregará tamanho fardo?
Isso lembra uma outra história, quando disseram de um sujeito que pregava sobre um outro reino - O que vem de bom de Nazaré? O Mal é onipresente, mas não é onipotente. No decorrer da história, vemos fiapos de luz entre as trevas, traços de esperança quando tudo parecia estar perdido, decisões certas quando tudo caminhava para o lado errado. O Bem sempre aparece do modo mais insólito, mais ilógico, mais alucinante - e mais dolorido. Não são decisões feitas com simples mágica ou fugas da realidade. Gandalf, por exemplo, é mais um sábio que entende a lógica do mundo do que propriamente um mago super-poderoso: na hora em que enfrenta o demônio Balrog, ele não usa um truque sequer. Frodo, ao perceber que o seu mundo acabará de qualquer maneira mesmo se cumprir sua missão, decide realizá-la sozinho para que as coisas não tenham um fim trágico, e a única coisa que torna a resolução mais suportável é a ousadia de Sam em acompanhá-lo até a Terra de Mordor. Tolkien trata, em seu livro de fantasia, da busca de um sentido, da restauração de uma ordem. A vida se trata de uma interminável peregrinação, de uma aventura única em que todos têm uma missão, e ela deve ser cumprida, não importa o quão impossível. Assim, o que se tem nas mãos é uma dessas experiências-limites da literatura em que o prazer da leitura transforma O Senhor dos Anéis numa obra única no século XX pela capacidade de prender o leitor a cada página que passa, esperando que essa jornada termine de alguma maneira - mesmo sentindo a implacável tristeza de que tudo que estamos lendo é, no fundo, uma elegia ao fim de um mundo.

Autor: Martin Vasques da Cunha

Link para o texto completo aqui.