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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre Governo, paternalismo, Deus, eu e você


Introdução

Os críticos do assistencialismo do Governo Lula/Dilma dirigem grande parte de suas análises ao mega programa assistencialista do Governo Federal. Com enxurradas de vídeos no Youtube mostrando o próprio ex-presidente Lula discorrendo sobre o modo de cooptar o voto das massas por meio de doação de cestas básicas, alguns críticos ficaram no lugar-comum de classificar este modelo de governo como paternalista. No entanto, paternalista ele não é. Este modo de governar possui outro modelo. Vou tentar ser claro e direto na minha análise.

É paternalista este governo?

O Governo Lula/Dilma oferece bolsa-família, bolsa-cidadã, os governos estaduais seguindo a mesma lógica oferecem vale-leite, vale-pão, vale-gás, vale-energia elétrica, etc. A seguir vieram as outras bolsas: auxílio reclusão para os presos, bolsa-crack para tratamento de viciados em crack, bolsa-universitária entre outros auxílios. Fora estes auxílios em espécie, o governo ainda distribui gratuitamente durante o carnaval milhões de camisinhas e promove seu uso. Bom, tudo isso oficialmente. E o dinheiro doado extra-oficialmente nos mensalões, cuecas, malas; para os aloprados, os anões, os laranjas, os lobistas, os marqueteiros, os empreiteiros, os banqueiros, os políticos, os bicheiros, etc. Bom, ainda tem as emendas parlamentares, as emendas orçamentárias, os projetos individuais dos deputados e senadores, os cash a fundo perdido, os mil projeto disso e daquilo que paga 2 milhões pra construir um poste no meio do nada... O fato é que o Governo está com as burras cheias para distribuir dotes matrimoniais a todos os seus amantes. O Governo não é um pai. Por um lado se comporta como o arquétipo da grande mãe, por outro se comporta como uma grande prostituta!

Só para uma boa digressão, vou colocar aqui o texto do oráculo do profeta Oséias contra Israel (cf. Os 2,4-7) e volto em seguida.

Processai vossa mãe, processai, porque já não é minha mulher e já não sou seu marido. Afaste ela de sua face suas fornicações e seus adultérios de entre os seus seios, para que eu não a desnude como no dia de seu nascimento e não a torne como um deserto; para que eu não a reduza a uma terra seca e não a deixe perecer de sede. Não terei compaixão de seus filhos, porque são adulterinos. Sim, sua mãe cometeu o adultério, desonrou-se aquela que o concebeu. Ela disse consigo mesma: Seguirei os meus amantes, que me dão meu pão e minha água, minha lã e meu linho, meu óleo e minha bebida.

Um pouco de teoria não faz mal...

Na sua obra "A inaceitável ausência do pai", o psicanalista italiano Cláudio Risé contempla de vários ângulos o problema da ausência do pai do consciente coletivo. "O pai, diz Risé, ensina e testemunha que a vida não é apenas satisfação, confirmação, garantia, mas também é perda, falta, cansaço. [...] a sua primeira função psicológica e simbólica é organizar, dar um objetivo [...]. Por isso pai inflige a primeira ferida, afetiva e psicológica, interrompendo a simbiose com a mãe" (RISÉ, 2007, pg. 11-12). O pai personifica a ordem, a lei, o rumo, o objetivo. Como o pai está no início, está também no final. Como o pai causa a ferida, também possui o modo de superar esta ferida narcisista causada na separação simbiótica da mãe. Como o afirma o autor, é ele quem possui o dever de ensinar a criança a fazer a passagem para a idade propriamente adulta. A simbiose com a mãe vai sendo rompida aos poucos: primeiro com o nascimento, depois com o desaleitamento, depois com a articulação das palavras e a interação com o mundo, finalmente com o pai quando este arranca a criança do domínio da mãe ferindo seu desejo narcisista e onipotente de continuar a simbiose. No entanto, para a criança crescer saudável é preciso infligir esta ferida.

"A figura paterna dá à vida do homem uma direção, realizada mediante a renúncia ao caos, à desmedida, ao mal" (Idem, pg. 27). A relação com o pai liga o homem diretamente a Deus. O eclipse do pai terreno, da lei, da ordem, da justa medida, do rumo certo e do objetivo corresponde ao eclipse de Deus na sociedade contemporânea e realiza-se assim a derrocada do homem.

Sobre o eclipse de Deus, O Pai.

Segunda digressão. Parte da homilia do Santo Padre, o Papa Emérito Bento XVI na homilia de natal de 25/12/2012

Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua.Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros.


O Estado brasileiro como a Grande Mãe

Depois dessa digressão sobre Deus Pai e, tendo explicado o papel do pai terreno na família, vamos compreender como o Estado assume o papel não de pai que dá ordem ao caos, mas, de grande mãe (como vimos de lampejo no segundo parágrafo deste texto).

"Na fase oral (do desenvolvimento psicológico de um ser humano normal) o mundo se torna conhecido sendo comido e usufruído para obedecer ao princípio do prazer, vivido na sua modalidade "devorante" [...] a atual sociedade de consumo trata o indivíduo como consumidor que se satisfaz empanturrando-se de produtos e deliciando-se com os bens fabricados. [...] A atividade psicológica da Grande Mãe em seu aspecto devorante tende, justamente, a manter o indivíduo numa posição "oral", impedindo-o de evoluir até os mais desenvolvidos níveis de consciência. [...] Conserva-se o poder da Grande Mãe mantendo o indivíduo na dimensão infantil, de imediatez, e poupando a ele a fortificante experiência da privação" (RISÉ, 2007, pg. 85).
Esta sociedade sem pai, afirma Risé, é fortemente patológica. Ela desenvolve grande número de fobias, neuroses, psicoses, uma perversão grave, além de masoquismo, sadismo e as regressões a níveis infantis do desenvolvimento. A tudo isto junta-se o clima angustiante e ansioso gerado pela tensão provocada pela ausência da lei e da norma (RISÉ, 2007, pg. 24). No entanto, a sociedade "sem pai" "não desconhece essa tensão e ansiedade geradas pela falta de lei e de norma. A ansiedade se transforma em agressividade individual e coletiva caótica, assim, para se dar vazão à ansiedade geral criada pela falta de limites. Procura[-se] desviar essa agressividade com técnicas não-limitantes como [...] a desinibição erótica e sádica através do cinema e das publicações; álcool e tabaco com seus afeitos de atordoamento e/ou excitação; tranquilizantes [...]; alucinógenos; televisão; uso do carro [...]; terapia do sono [...]. O sentido de tais técnicas não limitantes é fornecer satisfações narcisistas fortemente regressivas e, por este caminho, atenuar a agressividade reativa de indivíduos, cuja imagem de si foi destruída" (Idem, pg. 94/5).

O Governo Grande-Mãe promove um certo tipo de educação com o suprimento destas necessidades narcisistas básicas e assim, mantém o populacho preso a si na dependência infantil, passiva, vivendo dats tetas da grande mãe. O Estado-Mãe transforma o sadismo em lei, libera entorpecentes para anestesiar a angústia e a ansiedade e aprova-se o aborto:
As vidas não funcionais para as lógicas do princípio do prazer e da produção-consumo, aquelas que absorveriam o precioso tempo dedicado às empresas como trabalho, ou aplicado na busca de diversões, são silenciosamente apagadas antes que possam protestar. [...] o despacho para a morte, de resto, não acontece somente por meio do aborto ou das múltiplas tragédias que a indústria do divórcio organiza. Acontece também, por exemplo, com a política de liberação das drogas, que, num número de anos não muito distante, permitirão ao biopoder livrar-se daqueles sujeitos sem condições de participar de seu desenvolvimento e de suas pompas, se não justamente na qualidade de ótimos consumidores de drogas (Ibidem, pg. 104-106).
Isto vemos no Brasil com as secretarias do Governo Federal para as minorias, os LGBT, as mulheres, os negros, os índios, as cotas das universidades, as diversas iniciativas para aprovar o aborto e a liberalização da maconha, dos jogos de azar e outras prática-fugas da realidade. Não precisamos de um governo Grande Mãe. Precisamos de um governo-Pai, não mãe. Um Governo que corrige rumos e desvios, aprova leis justas e coercitivas dos abusos, prende, julga e condena os criminosos; zela pelo crescimento de todo o tecido social conforme o que é reto e contrário ao erro. Precisa-se urgentemente de um Governo-Pai porque o Governo Grande-Mãe está afundando a nação.

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RISÉ, Cláudio. A inaceitável ausência do pai: paternidade e seus desafios na sociedade atual. Trad. Claudia Sheeren. Vargem Grande Paulista, SP: Editora Cidade Nova, 2007.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Santo Athanásio e a busca da Verdade


Introdução

Na liturgia desta quinta-feira da V semana da Páscoa, a Igreja celebra a memória de Santo Athanásio. Este insigne teólogo foi de fundamental importância no Concílio de Nicéia I (325 d.C) no qual se condenou o erro do Padre Ario. A doutrina do Padre Ario era subordinacionista, compreendendo o Verbo como criado pelo Pai, não co-eterno com o Pai, mas, a ele subordinado como criatura, tal qual o Espírito Santo. Da contribuição de Santo Athanásio com sua doutrina sobre a Trindade, os Padres Conciliares reunidos em Nicéia I puderam anatematizar a doutrina ariana, condenando-a perpetuamente.

A obediência à verdade como amor a Cristo

No evangelho desta quinta-feira supra-citada, densíssimo e riquíssimo, nosso Divino Salvador está no contexto de seu discurso de despedida, ainda no cenáculo, rodeado pelos Apóstolos. Judas o traidor já saiu para atraiçoar o mestre e entregá-lo na mão dos algozes. Os demais o ouvem com atenta devoção e Jesus enuncia o amor do Pai por ele (cf. Jo 15,9). O Pai o ama e Jesus sabe-se amado pelo Pai. Sua profunda unidade como o Pai-Deus é integrada em sua humanidade e resplendor de sua divindade. É o amor do Pai que o constitui como Filho. Assim o professamos no Credo Niceno-Constantinopolitano: "gerado, não criado. Consubstancial ao Pai". De fato, pelas Divinas Processões o Verbo é gerado eternamente do Pai; o logos prophorikós, Dabar, Palavra-Acontecimento do Pai no meio da humanidade porque Deus é amor (cf. 1Jo 4,8). O Filho é "a testemunha fiel" (cf. Ap 1,5) do amor do Pai e como tal amou os seus até o fim (cf. Jo 13,1). É desse modo que Ele ama os seus. Assim, ao amor do Pai corresponde o Filho, ao amor do Filho corresponde a Igreja e no amor do Filho nos amamos mutuamente. No entanto, este amor pode se tornar sentimento estéril. Tendo o cuidado pastoral para isto não acontecer, Jesus acrescenta: "Permanecei no meu amor" e emenda: "se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor" (cf. Jo 15,10). Portanto, não pode amar verdadeiramente a Cristo aqueles que não obedecem suas leis e mandamentos.

A Verdade de Cristo na Igreja

Sendo a Igreja coluna e sustentáculo da Verdade (cf. 1Tm 3,15). Esta Verdade que a ela foi consignada para ser guardada em frágeis vasos de barro, ou seja, por uma humanidade ainda em processo de aperfeiçoamento. Dado que a Igreja militante ainda não é totalmente purificada de seus pecados, mas, peregrina ao coração da Trindade intrepidamente para que Seu Senhor a purifique afim de torná-la pura, sem mancha nem ruga, mas, Igreja gloriosa, glorificada em seu Senhor (cf. Ef 5,27), é que os homens nela presentes, em todos os tempos conscientes de serem estes vasos de argila (cf. 2Cor 4,7), não arrogam a si serem eles mesmos o sustentáculo da Verdade, mas, é a Igreja toda: Militante, padecente e triunfante que é a Esposa do Cordeiro sem mancha, aquela que vela pela Verdade e a transmite fielmente pelos séculos. Tal feito só se dá pela assistência do Ressuscitado que está conosco ontem, hoje e sempre (cf. Mt 28,20).

A esta Igreja o Senhor Jesus, no dia da sua ressurreição, confiou o pastoreio de sua grei: Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros” (cf. Jo 19,15). As ovelhas são de Cristo, O Bom Pastor. Mas, quem as apascenta é Pedro a quem foi dado o poder das chaves. No Evangelho de Mateus Jesus ensina como repreender ao que erra. O último ato de misericórdia é dizer à Igreja. Se nem mesmo a Igreja conseguir corrigir o irmão, que ele seja considerado como um pária (cf. Mt 18,15-17). A seguir a estas instruções, Jesus dá à sua Igreja nascente o poder das chaves: Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, tudo o que desligardes na terra será desligado no céu (cf. Mt 18,18). Tais chaves de abrir e fechar, ligar e desligar, foram dadas por Jesus a Pedro no capítulo 16 quando o Senhor lhe confia a sua Igreja nascente: E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. 
Obedecer à Igreja de Cristo é obedecer o próprio Cristo: "Quem vos ouve a mim ouve, quem vos rejeita, rejeita não a mim, mas àquele que me enviou" (cf. Lc 10,16).

Por causa destas palavras de Jesus não podem haver nem dois guardiões da verdade, mas, somente um guardião de sua santa vontade. Se todos pudessem sê-lo e se Jesus assim o quisesse, bem poderia ter feito com os outros 11 o que fez a Pedro (pedra/cabeça) ou ter feito aos demais o que fez ao colégio dos doze. Mas, Jesus entende que entre os homens as coisas não funcionam horizontalmente, mas, a partir de uma determinada ordem. Nem Ele mesmo se iguala ao Pai. Embora seja Um com o Pai e o Espírito, embora seja da mesma substância do Pai, tudo o que o Filho faz é reputado ao Pai e não a si. Há uma ordem na Trindade que nunca é quebrada: O Pai envia o Filho e o Filho e o Pai enviam o Espírito Santo. Isto não faz o Filho menor, menos importante que o Pai. O Filho não tem síndrome de inferioridade com relação ao Pai. Ele compreende e aceita seu lugar proeminente de Filho. Ele não é o Pai nem é o Espírito. É Filho e como tal procede em tudo. Logo, não são todas as pessoas que possuem os mesmos dons e carismas na Igreja e quanto a isto São Lucas deixou muito claro nos Atos dos Apóstolos, quanto, no capítulo 13 enumera os diferentes carismas para a unidade da Igreja de Antioquia: lá havia mestres, doutores, profetas e anunciadores da Palavra. Igualmente São Paulo em 1Cor 12,8-11: O Corpo (a Igreja) é constituída de modo que cada um fazendo tudo aquilo e exatamente aquilo que deve fazer, contribui para o crescimento e a harmonia de todo o Corpo (a Igreja). Ademais, não são todos os que dizem "Senhor, Senhor" que possuem a Verdade sobre este mesmo Senhor. Apenas a Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja de Jesus  Cristo é quem guarda e vela, distribui largamente e defende o depósito integral da fé cristã. Para se receber toda a fé cristã com toda a sua riqueza o homem e a mulher devem procurar esta nossa amorosa Santa Mãe Católica que nos alimenta primeiramente com o leite da sã doutrina e quando já o podemos suportar, nos dá alimento sólido para a nossa salvação.

As verdades relativas

É comum nos nossos dias se ouvir algumas afirmações que é preciso serem desmentidas. A primeira mentira contada aos borbotões é que todo e qualquer lugar no qual se fala de Deus é bom. Em primeiro lugar para o "Bom" refere-se à bondade de Deus-Pai em relação a nós filhos-adotivos tornando-nos filhos no Filho Eterno. Só o Pai é Bom absolutamente (cf. Mc 10,18) e toda bondade relativa para ser verdadeira deve estar em consequência com a Bondade de Deus-Pai que nos enviou o Filho, como vimos acima. Analisemos as seitas pagãs afro-brasileiras: Elas não são boas, porque são pagãs. Seu exercício religioso nada tem a ver com a fé católica. Seus usos e costumes são pagãos, não são cristãos, não são adequados a nenhum cristão, mormente, católico. Logo, elas não são boas. Vejamos agora as seitas brasileiras neopentecostais, pentecostais e evangélicas: elas também não são boas porque não obedecem àquela verdade simples enunciada no tópico anterior sobre a Igreja. Ademais, estão em cisma e heresia de modo contumaz. Deus, porque é Bom e Verdadeiro, não pode inspirar o erro e a mentira, a maldade e a divisão. Deus só pode inspirar o que é Bom aos seus filhos. Logo, a divisão cismática advinda da Reforma Protestante não é algo bom, ainda que dentro dos templos protestantes, evangélicos, pentecostais e neopentecostais se fale de Deus. Ali há uma meia-verdade que não corresponde à Verdade integral da fé cristã, pois, fora mutilada e dilacerada pelos cortes realizados na Reforma. Não pode ser bom um cristão que mutila a Verdade de Cristo e promove a divisão do Corpo Místico de Cristo! Por último analisemos o espiritismo: Ali se reza, tem-se até uma versão do Evangelho segundo Allan Kardec, mas, ali não há a Verdade integral do Evangelho sobre Nosso Senhor Jesus Cristo, sua encarnação, paixão, morte e Ressurreição. Negando a Cristo negam a verdade sobre ele e negam, igualmente, sua doutrina. Portanto, quem nega a Verdade de Cristo nega-o e negando Cristo, nega-se o Pai que o enviou. Assim o espiritismo também não é Bom porque não está correlato com a Verdade e Bondade que se fundam no Pai e nos chegam pelo Filho. Logo, é mentira que todo o lugar no qual se fala de Deus é bom.

Uma segunda mentira muito difundida é que todo mundo tem a sua verdade. "Homo mensura", o homem é a medida de todas as coisas. Todas as coisas ou se adequam ao indivíduo ou não podem ser verdadeiras. A mentira aqui reside no fato de que há uma Verdade Universal e absoluta que prescinde de toda e qualquer verdade particular. Quando se nega Deus e a Verdade Absoluta que provém Dele, a primeira atitude do homem é eleger entre as verdades parciais aquela que mais lhe apetece (de apetite, comer, consumir, colocar na barriga e empanturrar-se) para servir a ela. As verdades relativas são passageiras e substituídas por outras. Vide o grande fluxo de uma seita neopentecostal para outra. Não havendo Verdade Absoluta, Bem Absoluto, Justiça Absoluta, Beleza Absoluta não há parâmetros universais para a ética e a moral e tais se tornam, também elas, amoldadas ao indivíduo e suas carências/fomes. Portanto, a negação da Verdade Absoluta escraviza, diminui e torna infeliz o homem que, não tendo um grande ideal pelo qual lutar vive uma vida indolente, sem princípio nem fim, sem ideal, projetos ou sonhos. Seu deus é sua barriga e onde a pessoa se "encher" é ali que ela procurará Deus. No entanto, esta mentira não corresponde à Verdade sobre Deus: "Em verdade vos digo: Vós me procurastes não porque vistes os sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pelo alimento que se perece, mas pelo que subsiste pela vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará" (cf. Jo 6,26-27). Os apetites e necessidades humanas, ainda que urgentes, perecem. Não são nossas necessidades pessoais maiores que Deus nem maiores que nós. Elas devem dobrar-se a Ele e à sua santa vontade. Assim, procurar Deus não se torna um ato de consumismo (consumismo religioso) no qual eu posso ir onde me parece mais agradável, apetecível, mas é antes, um ato e amor consciente a Deus: amar a Deus significa amá-lo também com a inteligência (cf. Mc 12,30)!

Conclusão

Santo Athanásio lutou contra os erros e heresias de seu tempo. Sua teologia condenou o Padre Ário, herege contumaz que não se arrependeu de seus erros e morreu no exílio arrastando atrás de si uma legião de seguidores. Hoje a luta é ainda ingente não só contra os hereges, mas, contra o próprio mundo que tenta sufocar a Verdade atrás do verniz do relativismo. Não há que transigir a Verdade de Cristo. Há que mostrá-la cristalina aos homens e mulheres do nosso tempo. Somente a Verdade pode nos libertar (cf. Jo 8,32) e a Verdade é Cristo (cf. Jo 14,6) presente em sua Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20).

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Papa Francisco, Nossa Senhora Aparecida e ativistas feministas

Três notícias desta semana chamam a atenção... eu postei as fotos e comento rapidamente uma a uma.


Um abraço cura. Cura carência de afeto humano, mas também dá uma certeza de que Deus, abscondido aos sentidos, é próximo de nós. O abraço ajuda curar as feridas da alma, mas também dá aos homens a certeza de que não são animais irracionais. Se o abraço carrega em si uma gama de sentidos tão vasta, não deveríamos nos furtar a abraçar com o amor de Cristo, a exemplo do Papa Francisco, aqueles que precisam de cura. Sim, o cristianismo é uma religião de cura. Porém, não como se propagandeia a "cura rápida" das seitas neopentecostais. É uma cura que envolve o homem todo: inteligência, vontade, liberdade, razão e sentimento.



De repente a pessoa viu o óbvio: a imagem é apensa de gesso. É como no Gênesis em que depois do pecado Adão e Eva vêem apenas o óbvio ululante: eles estavam nus. No entanto, a morte de que o Senhor lhes falara era de uma outra espécie, era a morte eterna da alma que se condena ao inferno. Do mesmo modo que esses jovens não puderam ver o que não era óbvio: Que este vilipêndio externa seu ódio interior, sua agressividade incontida, sua raiva desmedida contra a mãe de Deus, não contra aquela imagem em especial, mas, contra a Mãe do Salvador e isto é muito pior que destruir uma mera imagem de gesso.


No filme "O Senhor dos Anéis. As duas torres" há uma cena interessante. Rei Théoden pergunta a Aragorn: "O que podem os homens contra um ódio tão violento?" Em seguida, mostra a sanha dos orcs e uruk-hais (monstros) que queimam, pilham, destroem. O filme é belíssimo e mostra a feiura do mal. Como essas moças carregadas de ódio contra a Igreja. Os orcs continuam pilhando, queimando e destruindo que é belo e bom pelo simples prazer de destruir. Não é que queiram destruir para se colocar outra coisa melhor no lugar. Mas para que impere o nada, o vazio, o niilismo. É assim que é o mal: feio, violento, invasivo, intolerante, carregado de ódio.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Papa Francisco e o lava-pés


Tem causado estranheza em muitos no meio católico algumas atitudes do Papa Francisco. Seu jeito menos formal, suas opções por trajes, trajetos, moradia, etc. Tudo isso tem ocupado o coração palpitante de alguns que, à meia-boca, dizem que este Papa é no mínimo temerário. Por outro lado vemos esfuziantes reações à sua eleição e, mais ainda, às suas posturas e opções. Tudo isso faz parte do jogo de quem est;a de fora. Do lado de cá do balcão. Ninguém está do lado de lá, apenas ele. Apenas ele tem a férula Papal nas mãos. Apenas ele tem o anel do pescador e se este é de prata ou de ouro em nada diminui seu Ministério. Apenas ele possui o Ministério Petrino na Igreja.

Neste dia de quinta-feira santa veiculou-se a imagem do Papa beijando o pé de um detento em Roma em uma missa celebrada em um centro de detenção. O Papa "inovou". Por conta desta palavra choveram-lhe crítica acerbas e acalorados aplausos. Mas, me entristece que tenham ficado no "inovou", na palavra, e tenham se esquecido de olhar o gesto em sua profundidade. Sua Santidade não está legitimando a anarquia, o crime, a bandidagem ao beijar o pé de um detento. Está, outrossim, tentando ser o bom samaritano da humanidade que deita azeite na ferida do homem caído no caminho para Jericó. O samaritano não perguntou ao homem caído se ele fora detento, um meliante qualquer ou um homem de bem. Deitou azeite em suas feridas e o levou consigo a uma estalagem. O gesto de Francisco fala para além da celeuma estéril criada em torno dele. Aquele detento nunca mais será o mesmo, porque Pedro beijou seus pés: "Se eu vosso mestre e Senhor vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros" e Pedro estava entre os que devem lavar os pés dos demais. Francisco está apenas obedecendo a Jesus, amando como Jesus amou. Podem objetar: "mas Jesus não quis dizer isso e mi-mi-mi...". "Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa que eu fiz". Sem mais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Papas que abdicaram da Sé Apostólica ao longo dos Séculos


O primeiro a fazê-lo foi o papa Ponciano no dia 28 de setembro do ano 235 sendo logo após preso pelo imperador romano e levado para uma pedreira onde morreu em consequência dos trabalhos forçados. A data da renúncia de Ponciano é o primeiro fato documentado com precisão de dia, mês e ano na História Eclesiástica.

O segundo a renunciar foi o papa Bento IX com um papado conturbado, foi expulso de Roma em setembro de 1044, retornou ao papado em 10 de março de 1045, abdicou novamente em 1° de maio de 1045, retornando no mesmo ano, mais uma vez deposto em 24 de dezembro de 1046, retomando novamente a Sé Petrina em 8 de novembro de 1047 até ser expulso definitivamente em 16 de julho de 1048. Era uma época em que as famílias da aristocracia romana disputavam o poder dos Estados Pontifícios e o nepotismo grassava na Santa Sé: Bento IX era sobrinho do seu antecessor, o papa João XIX, que por sua vez era o irmão caçula do seu antecessor o papa Bento VIII.

O terceiro papa a renunciar à Sé de Pedro foi São Celestino V, cujo nome de batismo era Pietro Del Morrone. Celestino era monge, considerado santo por todos e havia fundado uma ordem monástica dedicada a cuidar dos pobres e doentes. Foi eleito papa contra a sua vontade em 29 de agosto de 1294 e renunciou em 13 de dezembro do mesmo ano. Apesar de um homem de fé e vida ilibada, não se saiu bem no papado. Maxwell-Stuart, em sua obra Crónicas dos Papas (Ed. Verbo, 2004, p. 123), diz: "A santidade, tornava-se agora claro, não era suficiente. Justiça lhe seja feita, Celestino sabia-o, e cinco meses após a sua eleição abdicou." Após sua renúncia foi eleito Bonifácio VIII.

O último papa que renunciou antes de Bento XVI foi Gregório XII (1406 a 1415), que viveu o chamado grande Cisma do Ocidente: além de Gregório XII, o papa verdadeiro, que morava em Roma, havia ainda Bento XIII, anti-papa eleito pelos cardeais em Avignon, e o antipapa João XXIII, eleito no "Concílio" de Pisa. Convocado o Concílio de Constança, o imperador Sigismundo pediu que o papa e os dois anti-papas renunciassem, mas só Gregório XII renunciou e depois foi eleito o papa Martinho V.

Fonte: http://www.passeiaki.com/noticias/renuncia-papas

Nota: É de todo interessante que Bento XVI tenha feito uma visita ao túmulo do Papa São Celestino V e ali tenha deixado seu Pálio pontifício. Se ele declinou do Papado com motivações similares à de São Celestino V, só a história o dirá.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Deus violento e vingativo da Bíblia - A bíblia pinga sangue!



Sempre que converso com neo-ateus me deparo com a seguinte aporia (deles): Deus é violento e gosta de sangue e, portanto, não pode ser um Deus bom. Assim sendo, é impossível crer neste Deus. Seu deus não passa de um assassino, sanguinário, genocida, que mandou matar crianças, mulheres grávidas, mandou matar famílias inteiras, pessoas inocentes, animais! Como para corroborar, eis alguns textos mais ou menos usados por eles:

Dt 21, 18-21: Quando o filho se torna contumaz e rebelde, os pais devem levá-lo à porta da cidade para ser apedrejado pelos homens da cidade.
ÊXODO 21:20-21 Com a aprovação divina, um escravo pode ser surrado até a morte sem punição para o seu dono, desde que o escravo não morra imediatamente.
LEVÍTICO 26:29, DEUTERONOMIO 28:53, JEREMIAS 19:9, EZEQUIEL 5:8-10 Como punição, o Senhor fará com que as pessoas comam a carne de seus próprios filhos, filhas, pais e amigos (aqui nem pensam nisso com sentido figurado)
NUMEROS 15:32-36 Um homem que no Sábado estava pegando gravetos de lenha para uma simples fogueira é apedrejado até a morte segundo a ordem de Deus.
NUMEROS 16:49 Uma praga divina mata 14.700 pessoas.
NUMEROS 25:9 Mais outra praga divina mata 24.000 pessoas.
NUMEROS 21:35 Com o apoio divino os Israelitas matam Ogue, seus filhos e todo o seu povo até não haver sequer um sobrevivente.
NUMEROS 25:4 Disse Deus a Moisés: Toma todos os cabeças do povo e enforca-os ao Senhor diante do Sol, e o ardor da ira do Senhor se retirará de Israel.
DEUTERONOMIO 20:16 “Das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida”.
JOSUÉ 6:21-27 Com aprovação divina, Josué passa ao fio da espada todos os homens, mulheres e crianças da cidade de Jericó.
JOSUÉ 8:22-25 Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Ai, matando 12.000 homens e mulheres, sem que nenhum escapasse.
JOSUÉ 10:10-27 Com aprovação divina, Josué destrói todo os Gibeonitas.
JOSUÉ 10:28 Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Maqueda.
JOSUÉ 10:40 Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis. Nada deixou de resto; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o Senhor Deus de Israel.
JOSUÉ 11:6 O senhor ordena o mutilamento (corte dos tendões das pernas) dos cavalos.
Sl 137:9 Feliz o homem que arrebentar os seus filhinhos de encontro às rochas.
ISAIAS 14:21-22 Preparai a matança para os filhos por causa da maldade de seus pais.
EZEQUIEL 9:4-6 Ordem do Senhor: “sem compaixão… matai velhos, mancebos, e virgens, e meninos, e mulheres, até exterminá-los….”
EZEQUIEL 21:3-4 O Senhor diz que exterminará tanto o justo quanto o ímpio, ferindo-lhes a carne com sua espada.


A questão aqui não é refutar cada uma das citações como numa frenética necessidade de escusar Deus dessas acusações infamantes. A questão é ir entendendo, ponto por ponto, como e porquê tais textos foram escritos e por fim, a plenitude da revelação em Cristo. Aqui começo minha argumentação. Em primeiro lugar, o que os ateus não sabem ou preferem omitir é que sua abordagem de Deus é extremamente unilateral. Partem de textos estanques para tentar montar um quebra-cabeças que custou cerca de 14 séculos para ser montado. Logo de início depara-se com a dificuldade de se reconstruir historicamente os fatos de cada texto destes supra-citados. Em segundo lugar, o ateu ou neo-ateu, toma por base que a Bíblia foi escrita tendo sido ditada por Deus no ouvido do escritor sagrado como uma espécie de crônica. Não levam em consideração nenhum aspecto antropológico na construção do texto bíblico, tampouco ambiental ou cultural. Aqui já se percebe a pobreza da argumentação atéia sem tocar - o que logo faremos - no processo revelatório de Deus desde o Antigo até o Novo Testamento culminando em Jesus Cristo. Porém, para enfrentar mais amiúdo este tema, vamos usar o bom e velho método cartesiano: separar as partes diminutas, compreendê-las e depois juntá-las para compreender o todo.

1. O contexto do texto
O que é inspiração bíblica?
Todos os livros da bíblia são inspirados por Deus. Os escritores da bíblia foram muitos, às vezes com intervalo de centenas de anos de um livro para o outro. Porém, em todos eles, era Deus quem os inspirava a escrever. Quem escrevia (com a caneta) era o autor humano, mas quem colocava as idéias na cabeça do autor era Deus. A inspiração define-se assim: um influxo sobrenatural sobre o autor humano para escrever o que Deus quer. “Toda escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3,16; 1,21).

O que não é inspiração bíblica?
Inspiração é diferente de ditado mecânico. É iluminação que um escritor pode ter, de Deus, para escrever. Não descarta o linguajar humano e a cultura humana. A inspiração é diferentemente das ciências históricas que pretendem ser uma crônica dos acontecimentos. Ela é, outrossim, o influxo da graça no autor humano para escrever aquilo que é vontade de Deus, no tempo, mas com um alcance atemporal.

Onde entra Deus e onde entra o autor humano?
Deus inspira ao autor humano escrever. Porém, como se disse acima, Deus nada dispensa do autor humano na escrita: sua cultura pessoal, seu conhecimento pessoal da língua, da geografia e da política de seu tempo, seus laços pessoais e familiares, suas experiências profissionais (carpinteiro, agricultor, pastor de ovelhas, etc). Tudo isto está presente no texto bíblico como pano de fundo a ressaltar a importância da mensagem nele contida.

2. Como interpretar corretamente um texto biblico?
Parte-se do contexto do autor, depois, da intenção do autor, depois da intenção de Deus ao inspirar aquele texto, depois do próprio texto que nunca deve ser lido estanque, mas sempre dialogado com outros textos similares. Assim, pode-se chegar a ter alguma visão mais ampla do texto o que ajuda a fugir da leitura literal e da interpretação unilateral do texto sagrado. A bíblia é toda sagrada e inspirada por Deus, porém, isto não dispensa o trabalho humano de compreendê-la em seu contexto vital (sitz in leben), ao contrário, exige-o para não falar asneiras como estas dos ateus/neo-ateus.

3.Deus mandou ou não matar pessoas?
A resposta é obviamente não. Ainda que um texto ou outro se pareça a uma crônica, ele não é uma crônica histórica no sentido moderno do termo. Pode se tratar de uma novela, uma saga, uma etiologia, um oráculo de salvação, uma lenda, um mito, um relato de vocação, uma ação simbólica, um vaticínio apocalíptico, etc. As formas e gêneros literários do Antigo Testamento são a fôrma dentro da qual o texto foi composto e como tal possuem características suas, próprias, o que as diferenciam umas das outras, óbvio! "Ah, então a Palavra de Deus não é histórica" ou "Ah, tudo o que está escrito no Antigo Testamento (e por correspondência no Novo) é mentira?". Calma! Tudo o que está escrito na Bíblia é a mais pura verdade. Porém, uma verdade que não é necessariamente uma verdade histórica, factível, porque o autor sagrado não é preocupado em escrever uma crônica (estou aqui me referindo exclusivamente ao Antigo Testamento). A bíblia é, sobretudo em seu Antigo Testamento, uma memória da fé de Israel que enxerga em seus portentos nacionais os mesmos portentos de Deus em favor de seu povo (relativo à segunda e terceira etapa da revelação: teologia da prosperidade e da retribuição). Todavia, esta leitura de fé dos eventos nacionais não exclui que estes tenham acontecido de fato, como a própria arqueologia bíblica hoje aponta. A pouca compreensão de todo este contexto não permite compreender os textos supra-citados como fruto do tempo, da cultura e da experiência do povo de Deus, pois, Deus é o mesmo e não pode mudar. Ele não pode mandar matar num dia e parar depois. Portanto, a falha está no homem (escritor sagrado, povo de Israel, leitor e intérprete da bíblia hoje) e não em Deus.

4. O processo revelatório
"Deus dá-se a conhecer, revela-se, entra na história, agindo por meio de mediadores, como Moisés, os Juízes, os Profetas, que comunicam ao seu povo a Sua vontade. Esta revelação alcança a sua plenitude em Jesus Cristo. N’Ele, Deus vem visitar a humanidade, de um modo que excede tudo o que se podia esperar: fazendo-Se homem" (Papa Bento XVI).

"Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), mediante o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso no Espírito Santo ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4). Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1 ,15; 1Tm 1,17), no seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão" (Dei Verbum, n.2)

"Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas" (Hb 1,1-2).

Estes três textos que coloquei o fiz de modo intencional para compreender que de fato houve uma revelação de Deus na história do homem que aconteceu de modo processual, gradual, levando em consideração a condição do homem em acolher e compreender esta mesma revelação. Deus não chegaria, por exemplo, a se revelar em mandarim ao povo brasileiro, ninguém o entenderia. Também não chegaria falando de elevadores, escadas rolantes e aviões a um jeca como Pedro ou um colérico como Jeremias. Cada homem de cada tempo compreende Deus e sua revelação à sua maneira, com suas categorias de conhecimento, de cultura e ambiente. Isto posto, porque básico, vamos às etapas sucessivas da revelação. Inicialmente eu poderia seguir o esquema do Catecismo da Igreja Católica para explicar a revelação. Ele (o Catecismo) usa a sequência: criação e alianças com Noé, os patriarcas e os profetas. Assim, o Catecismo quer ensinar que Deus começa a se revelar à humanidade na criação mesma e depois nas sucessivas alianças que fez com Noé, com Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué e os profetas, Davi, Josias, Esdras e Judas Macabeu. Mas creio que esta explicação é por demais causal e teológica para o neófito a quem, espero, este texto possa iluminar. Por isso vou seguir outra via de explicação das etapas da revelação começando por aquela primeira experiência de Deus que teve o povo santo ao pé do monte Sinai. Uma primeira experiência de Deus terrificante e ao mesmo tempo fascinante. A percepção da onipotência divina, da absoluta alteridade e transcendência de Deus sobre seu povo. Assim se expressa o livro do Êxodo: "Moisés levou o povo para fora do acampamento ao encontro de Deus, e pararam ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas; o fumo que subia do monte era como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia com violência. O som da trombeta soava ainda mais forte; Moisés falava e os trovões divinos respondiam-lhe. O Senhor desceu sobre o cume do monte Sinai; e chamou Moisés ao cume do monte. Moisés subiu, e o Senhor lhe disse: “Desce e proíbe expressamente o povo de precipitar-se para ver o Senhor, para que não morra um grande número deles" (cf. Ex 19,17-21). Esta primeira etapa se dá no primeiro contato do povo com seu Deus. É de fato no deserto que o Senhor forma seu povo: “Foi num deserto que o Senhor achou seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e carinhos, e o guardou como a pupila de seus olhos” (Dt 32,10). Catecismo n. 62: "Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e juiz justo, e para que esperasse o Salvador prometido". Esta experiência do deserto é fundante para Israel e a ciência exegética a identifica como a experiência-raiz da fundação e estabelecimento da identidade e eleição do povo como povo de Deus. Esta primeira etapa da compreensão da revelação comporta os limites que lhe são próprios: Deus ainda é visto como um Deus distante, terrível e ao mesmo tempo fascinante, um Deus de força e poder capazes de fazer tremer todo o mundo (Salmo 28/9):

3 Eis a voz do Senhor sobre as águas, *
sua voz sobre as águas imensas!
= 4 Eis a voz do Senhor com poder! †
Eis a voz do Senhor majestosa, *
sua voz no trovão reboando!

– 5 Eis que a voz do Senhor quebra os cedros, *
o Senhor quebra os cedros do Líbano.
– 6 Faz o Líbano saltar qual novilho *
e o Sarion como um touro selvagem!

= 7 Eis que a voz do Senhor lança raios, †
8 voz de Deus faz tremer o deserto, *
faz tremer o deserto de Cades.
= 9 Voz de Deus que contorce os carvalhos, †
voz de Deus que devasta as florestas! *

A segunda etapa identificada pela exegese já dá um passo a mais na compreensão da revelação de Deus. É a teologia da prosperidade. Nesta etapa Deus é aquele que caminha com seu povo, é um Deus guerreiro que dá os despojos das guerras e entrega reinos e terras a Israel. A base desta teologia/compreensão de Deus é que Deus premia os bons com riquezas. Tais "bons" são os cumpridores estrictos da Lei, abençoados por Deus. a bênção do Senhor passou a ser objeto de distinção social via teologia da prosperidade que funcionava assim: Os abençoados por Deus eram os bons cumpridores da Lei e dos costumes de Israel; os desafortunados e desfavorecidos eram os amaldiçoados por causa de sua má conduta (Dt 30,15ss) ou - no extremo - por causa de um pecado de seus pais (cf. Jo 9,2). Assim, o documento javista do Pentateuco, que é responsável por boa parte do livro do Gênesis, situa a figura de Abraão dentro do contexto da bênção: "Abençoarei os que te abençoarem e amadiçoarei os que te amaldiçoarem" (cf. Gn 12,1-3). A bênção de Deus era, portanto, algo precioso sem o qual o homem ficaria desprotegido contra os intempéries da vida. Dada a precariedade da vida na antiguidade - escassez de comida, doenças, invasões de exércitos inimigos, etc - podemos supor que a busca da bênção de Deus que fazia o homem prosperar se tornava imprescindível.

No entanto, esta teologia começou a entrar em crise com a constatação de que o ímpio prospera enquanto o justo passa fome. "Porque o caminho do ímpio prospera" (Jr 12,1) se Deus abençoa e faz prosperar apenas os bons? Por que Deus não impede que as mazelas que acometem aos que não O amam caiam também sobre os que procuram viver do lado dEle? Esta foi a grande dúvida que inspirou Asafe a escrever o Salmo 73 (Sl 73,3-5): "porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens". Aqui é também compreendido o sucesso e o insucesso militar. Deus, nesta etapa, caminha com o povo para o campo de batalha através da arca da aliança que acompanha o exército. É aqui que se compreende os textos que causam espanto e furor logo no topo deste texto: são resquícios da segunta etapa da revelação, quando esta ainda não estava concluída, mas, parcialmente concretizada. Nesta etapa também se torna presente a exclusão dos não prósperos entendidos como amaldiçoados por Deus.

Com a crise da prosperidade, veio a terceira etapa: a teologia da retribuição. Nesta teologia fica mais explícito que Deus premia os bons e castiga os maus. Esta teologia é uma reelaboração da teologia anterior (properidade) e um anelo para a solução do problema: "porque o justo sofre e o ímpio prospera?". Manifesta confiança em Deus e demonstra uma compreensão de Deus pela via da barganha. Nesta etapa da compreensão de Deus, ele é visto como aquele que pode ser comprado pelas atitudes puras, retas e justas do homem, sendo assim obrigado a dar-lhe o shalon: paz, prosperidade finaceira e saúde nesta vida. Mas logo esta terceira etapa entra em crise.

A crise da retribuição/prosperidade é captada pelos livros sapienciais: "A vida do homem é ilusão e correr atrás do vento" (Qohélet). O livro que mais agudamente apresenta o problema é a novela Jó, ou o livro de Jó. Um escrito do tempo sapiencial para meditar sobre a prosperidade para o justo sendo este justo um homem não próspero, Jó. Aqui volta a pergunta: porque o justo sofre? Nesta etapa do conhecimento de Deus, o homem compreende que a retribuição intra-terrena (Deus premia os bons e castiga os maus) não resolve o problema do mau e da injustiça. Quanto ao livro de Jó se encontra um excelente e breve resumo aqui. A teologia judaica ainda não é capaz de dar esta resposta e a quarta etapa, do período Macabeu/Asmoneu vai relegar para a vida eterna a retribuição que, anteriormente, era intraterrena.

Perceba o leitor que nesta suscinta e pobre apresentação das primeiras quatro etapas da revelação não toquei no tema "compaixão" que, embora seja presente no Antigo Testamento (duas vezes) vai ser revelada totalmente em Cristo Jesus (29 vezes no novo testamento). "Misericórdia" aparece 166 vezes com inúmeras referências no antigo testamento. Bondade (de Deus) aparece 29 vezes (no N.T. apenas 5 vezes). O verbo grego ágapa (amor ao próximo, caridade) aparece 38 vezes com inúmeras referências no A.T. Isto posto uma pergunta se impõe: Será que Deus inspirou errado o povo que escreveu o antigo testamento? Claro que não! Ele inspirou certíssimo! Porém, como você pode perceber com sua razão, a consciência e o conhecimento a respeito de Deus foi crescendo com o passar do tempo. É como na nossa vida. Ninguém nasce adulto ou velho. Nascemos bebê e vamos crescendo, adquirindo consciência e conhecimento das coisas, da vida, etc. E isto é porque somos humanos!!! Exatamente por isso que a Revelação se fez tão pausada, respeitando os tempos e processos humanos, os avanços e retrocessos que o povo de Deus fazia durante a aliança com Deus. É do mesmo modo que Ele age hoje: Ele não invade nem exclui nossa liberdade. Espera nossos tempos e momentos, nossos avanços e retrocessos no seguimento D'Ele.

Mas, vamos à quinta etapa. Aqui colocarei um excerto da minha monografia de teologia:
Foi vontade do Pai revelar-se bondoso e misericordioso em seu filho Jesus. Mateus diz no capítulo 1, versículo 21 o nome do Messias. Com isso diz que a missão do Filho de Deus é salvar o povo de seus pecados. Jesus, Yehoshú’a, quer dizer Deus salva (Yehoshú’a). O nome e a missão do Filho de Deus estão ligados não como simples etiqueta, mas com sua identidade mesma. Seu nome é expressão de seu ser. Em consonância com a Revelação veterotestamentária, Jesus salva porque é Deus Conosco, o Emanuel (cf. Is 7,14; 8,8). A mesma presença salvífica de Deus a podemos encontrar em Ex 3,7-8. Deus que vê a opressão pela qual passa seu povo escolhido e não fica indiferente: decide libertá-lo. A libertação temporal no Egito prefigura a libertação essencial realizada por Jesus. Jesus é a resposta de Deus aos clamores do pobre que anseia pela libertação plena de seu ser. Deus se revelou para que o homem o pudesse conhecer e assim conhecendo-o pudesse praticar o bem, a justiça, o ágape. Tivesse fé e esperança para viver na honradez de uma vida íntegra (cf. Fl 3,7-9). Jesus, cume desta revelação, a plenifica dando-lhe seu sentido último (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 592), consumando a obra trinitária da salvação (cf. DV n. 4) em continuidade com a intenção primeira de Deus ao criar: para que tudo fosse bom (cf. Gn 1,31a).

Desde o início de seu ministério, Jesus se apresenta como o “hoje” da libertação proclamada pelo profeta para os tempos messiânicos (Lc 4,16-21 com Is 61,1-2). Os milagres realizados são os “sinais” desse cumprimento (Lc 7,18-23) e dessa libertação, que concerne em primeiro lugar ao pecado, mas diz respeito também a todo o homem, alma e corpo (Lc 5,17-26). O evangelho que Cristo proclama aos homens é o evangelho da libertação e da liberdade dos filhos de Deus (Jo 8,31-36; cf. também Hb 3,5-6). A expressão suprema da libertação de Cristo é constituída pelo mistério da cruz e da ressurreição da morte. Aquilo que se realiza no mistério pascal de Jesus é o acontecimento decisivo da história do mundo. Nada terá maior importância para a humanidade do que a libertação que se realiza naquele acontecimento. A existência finalmente é resgatada de sua condição de pecado e morte sendo “lavada” no sangue de Cristo para constituir a existência redimida, a existência de graça: “Não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, como cordeiro sem defeito e sem mácula” (1Pd 1,18-19) (ROCCHETTA, 1991, p. 101-102).

5. Quem é Deus? (Lc 15)
As atitudes de Jesus estavam levantando suspeitas e com isso ele estava se tornando incômodo (cf. Mc 1,40-42; Mt 15,3-9; Lc 13,15-16; 14,3-4; Jo 8,2-11) para aqueles que praticavam uma religião legalista, que dividiam a vida entre o puro e o impuro e os homens entre bons, cumpridores da Lei, e ímpios - todos os outros. Jesus de fato viveu num tempo em que crer em Deus e, sobretudo, trabalhar para Ele era um lucrativo negócio (cf. Lc 19,45-46). Como revelar a face misericordiosa de Deus a homens inteligentes, religiosos e convictos de suas verdades? Jesus ensina lições como um Rabi, um mestre.

Primeiro mostra quem é Deus. Compara-o a um extremoso pai de família com dois filhos (cf. Lc 15,11). Depois mostra o pecador como aquele que tem tudo na casa paterna, mas livremente prefere outra vida, outro caminho distante desta mesma casa (cf. v. 12-13). Depois mostra os filhos de Israel, os herdeiros da promessa (cf. Jo 1,11), os escribas e fariseus do versículo 2 do nosso texto, identificados com as atitudes do filho mais velho, mais ranzinza, mais amargo e que não entende o amor do Pai nem a queda do irmão (cf. v. 30).

As atitudes do Pai, de imediato, contrastam com as atitudes dos filhos: da liberalidade do Pai a dissolução de um filho. Da compaixão do Pai ao fechamento e falta de amor do outro filho. Da alegria do Pai à tristeza do filho mais velho e à vergonha do filho mais moço. Jesus pinta Deus com cores vivas: um Deus que se compadece dos mais fracos, sejam eles os fracos por causa dos pecados ou os fracos na compreensão do amor. O Rabi ensina quem é Deus, como Ele age, como Ele nos vê. Como Ele espera a resposta humana e o quanto ainda o homem carece de conhecê-lo. Ele ensina que a alegria no céu é por um pecador que se converte e não porque se condenou alguém em flagrante. Ensina que o Pai sabe esperar o tempo de cada filho voltar a casa e quando este volta, o que passou já não é mais lembrado. O Pai sabe entender o limite de cada filho sem julgar ou condenar a cada um por suas debilidades. O Pai sabe abraçar e beijar, ou seja, sabe demonstrar seu amor ao filho que volta. Amor-compaixão que restitui a humanidade e a filiação perdidas nas ondas da poeira do tempo. Por fim, Jesus ensina que o Pai não sabe fazer contas a respeito dos pecados cometidos quando o filho sinceramente se arrepende. Esse Pai que Jesus revela é simples: abraça, ama, perdoa e faz festa. Não anda com listas de deveres e obrigações, com listas de chamadas ou coisa semelhante. Anda somente com o coração aberto para amar e ser amado porque Ele é amor (cf. 1Jo 4,8; Ap 3,20).

É desta humanidade salva e resgatada com o abraço do amor que o Papa João Paulo II fala no número 6 da Dives in Misericordia. Comentado Lc 15,20 o Papa diz que é por ser fiel a si que Deus resgata a humanidade decaída, faz o homem reencontrar o sentido mais profundo de sua existência e reconhecer que o que se perde com o pecado não é somente uma lei transgredida, mas algo mais profundo e fundamental: perde-se a própria essência de homem e de filho. Como vimos, Cristo inaugurou o tempo da nova aliança em seu sangue (cf. Lc 22,20). Ele trouxe a libertação radical revelando um Pai que ama a todos. Em Cristo, o amor-compaixão de Deus se mostra capaz de salvar o homem através da celebração de um novo pacto. A encarnação do Verbo eterno do Pai representa o fundamento da nova e eterna aliança: em Jesus, é o próprio Deus que une irrevogavelmente a si a natureza humana. E nada mais poderá desfazer essa união, realizada “uma vez por todas”. Cristo é, em si mesmo, a aliança nova e eterna. Graças a Moisés, fora dada a lei aos pés do Sinai; graças a Jesus foram-nos dadas “a graça e a verdade” (Jo 1,17). Com efeito, a encarnação direciona-se inteiramente para o mistério da morte e ressurreição, que constitui o mistério fundamental da salvação, adquirida definitivamente para toda a humanidade (ROCCHETTA, 1991, p.111).

Pronto. Explicadas as 5 etapas da revelação, o processo lento e contínuo de aprendizagem de "Quem é Deus?" espero que algumas dúvidas tenham sido sanadas. Ao mesmo tempo espero ter ficado claro a inconsistência da dúvida/pergunta dos ateus e neoateus quanto à suposta maldade em Deus. Sem entrar no mérito lógico da questão (Deus é bom e nele não há nenhum mal - princípio de não-contradição) e permanecendo apenas no campo escriturístico e racional, é possível compreender a revelação de Deus, o processo de conhecimento humano e como estes dois mundos se uniram em Cristo Jesus.

"Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade" (cf. Ef 2,13-16)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Patologias religiosas

 
Ouve-se por aí no universo religioso do momento frases do tipo: "Eu quero mais de Deus", "venha buscar o seu milagre", "venha buscar a realização da Promessa", "eu tenho a marca da promessa", "venha determinar a vitória da sua vida finaceira", "o melhor de Deus ainda está por vir", etc. A esta sequência de balela neopentecostal se juntam testemunhos do tipo: eu pedi carro e Deus me deu; eu pedi dinheiro e Deus pagou as minhas contas; eu pedi emprego e Deus me deu; eu pedi cura e Deus me curou; etc. Nada mais contrário à efetiva fé cristã! Para refutar estas idéias estapafúrdias bastaria citar os argumentos do Novo Testamento, como citarei a seguir.

A) Seguir Jesus é decisão de renunciar a si mesmo todos os dias e tomar sobre si a cruz (sinal da própria existência): "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (cf. Mt 16,24);

B) Jesus não faz a sua vontade, nem reza para o Pai fazer a vontade dele, mas a sua vontade é fazer a vontade do Pai: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e fazer a sua vontade" (cf. Jo 4,34);

C) Jesus nada possuía de seu e nem por isso se achava um derrotado: "As rapozas tem tocas, as aves do céu tem ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20);

D) Jesus não veio para fazer o que ele queria. Veio para fazer em tudo a vontade do Pai ainda que isto significasse a morte: "Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e vigiai comigo. E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" (cf. Mt 26,38-39).

Seguir Jesus como aparece nos evangelhor, contudo, é para pessoas adultas na fé, muito diferente das infantilidades que norteiam grande parte do discurso e da prática religiosa dos nossos dias marcados fortemente pelo subjetivismo religioso. O relacionamento com Deus típico do nosso tempo é narcísico cujo conteúdo é fortemente subjetivista e antropocêntrico. Com a autonomia do sujeito na modernidade emerge um homem senhor de si, livre do mundo, das leis naturais, religiosas e sociais. Na contemporaneidade passa-se à recusa da Lei, das instituições e, consequentemente, da Igreja como mediadora do encontro do homem com Deus. Este ser contemporâneo não quer aceitar uma instituição que esteja entre ele e a divindade. Veremos como estas duas posturas estão diretamente vinculadas à estrutura mental da contemporaneidade.

A pessoa profundamente religiosa do tempo atual está à procura da satisfação de suas necessidades imediatas. Basta olhar as inúmeras seitas neopentecostais que abrem as portas dia-a-dia. Isto se depreende do frenético ritmo com que se muda de "igreja", sobretudo, entre os evangélicos. O utilitarismo pragmático enforma (coloca dentro de uma fôrma) algumas propostas religiosas para o tipo consumista, sobretudo no meio evangélico neopentecostal ainda que resquícios deste pensamento venha também penetrar uma certa espiritualidade narcisista dentro da Igreja Católica. Nesta postura predomina o uso/consumo do fato "religião". O crente não vê mais a religião ou a Igreja como mediador entre ele e Deus. Ele quer ir diretamente a Deus escolhendo dentro do grande supermercado religioso os produtos que melhor satisfaz sua necessidade psicológica sem obedecer a qualquer Lei ou Instituição heterônoma.

Usando aqui um pouco do material que a psicanálise nos fornece, apontamos para as duas primeiras fases do desenvolvimento psíquico humano e transportaremos este resultado para a relação com Deus. Em tal análise acompanhamos o estudo do Padre Alfonso García Rubio.

A relação infantil com Deus projeta nele a figura da mãe que dá mamadeira, peito, faz carinho e proteje do mundo. Relação única e fechada. Relação de dependência total e absoluta, fechada, na qual não há responsabilidade do indivíduo. Note aqui o leitor o conteúdo das letras das músicas neopentecostais e que também tocam em algumas de nossas Paróquias, infelizmente! Neste tipo de relação a criança experimenta a onipotência face a mãe: chora e a mãe dá comida, faz birra e a mãe mima. Aqui aparece o desejo de fusão com a mãe. Este é o primeiro estágio do nosso amadurecimento como pessoas e tal é, em muitos casos como apontados acima, projetado na relação com Deus. Deus na melhor das hipóteses, é visto como aquele que está à disposição da pessoa para dar-lhe o que quiser: "um Deus providente cujo poder estaria sempre a serviço do crente, para defender seus interesses  satisfazer os seus desejos, alimentando, destarte, o narcisismo infantil. Cabe aqui acenar para a realidade do enorme egoísmo vivido e expressado em forma de orações" (Alfonso García Rubio).

No segundo nível do amadurecimento humano aparece a figura do pai que constitui para a criança um mixto de sentimentos e experiências ambivalentes: a criança experimenta o amor porque o pai é apoio e segurança, ao mesmo tempo experimenta ódio porque o pai representa a lei que lhe impõe limite e lhe toma a mãe - sempre na perspectiva psicanalítica -, a repressão, ele é tudo, é forte e a criança frágil e obediente. Esta ambivalência faz a criança experimentar o sentimento de culpa em relação ao pai. A criança amadurece nesta etapa crescendo na aceitação dos seus limites e garantindo, pari passu, a independência, autonomia e liberdade interior na relação com o pai e a mãe. Este conflito não resolvido na infância e transportado para a relação com Deus faz o homem nosso contemporâneo culpabilizar Deus por todas as suas mazelas: porque me tirou isto ou aquilo (como o pai me tirou o mamá da mãe); porque Deus me infringiu uma Lei me proibindo isto e aquilo (como o pai se tornou limite em minha infância); porque Deus me fez pecador sabendo que eu iria pecar? (culpabilizar Deus e a si mesmo - drama do ateu). Esta imagem de Deus é ambivalente como a segunda fase do amadurecimento humano: Deus aparece como carrasco, juiz implacável, ao mesmo tempo bom e mantenedor da vida. É uma imagem de Deus que acaba incindindo na vida religiosa da pessoa e gera culpa patológica onde a pessoa não se vê como sujeito de seus atos, não percebe a própria responsabilidade sobre a vida e quer reputar tudo a Deus. É uma retro-alimentação do ego (Alfonso García Rubio).

Como transpor estes limites próprios do homem e sua psiquê?

A psicanálise afirma que ainda que estas fases sejam superadas na fase seguinte, ainda permanecem latentes. Da primeira fase permanece, por exemplo, a abertura ao infinito, à capacidade de abertura mística ao mistério de Deus e o desejo de ser Um com Ele como, por exemplo, em São João da Cruz. Somente um amadurecimento gradual da própria personaliddade ou o auto-conhecimento, um amadurecimento do contato pessoal e comunitário com Deus pode levar a uma prática sadia e realista da religião.

O problema destes tipos de "religião"

Ao mesmo tempo que estas seitas apresentam solução dos problemas imediatos dos indivíduos, geram um grupo de dependentes bem aos moldes da dependência química. O problema inicialmente insolúvel encontrará alívio parcial e isto manterá a pessoa presa ali naquela seita. Este processo retro-alimentado fará com que a pessoa necessite voltar cada vez e a fará dependente deste processo sem que isto lhe faça assumir um compromisso concreto de fé. O cristão lê e interpreta o Antigo Testamento a partir de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo o que lá está escrito precisa ser filtrado pela plenitude da revelação (cf. Gl 4,4). Por isto a teologia que sustenta este discurso, além de já ter sido superada pela vinda de Cristo é, ademais, desmascarada por sua flagrante má intenção: não se intenciona dar libertação, saúde ou prosperidade financeira a ninguém. A intenção clara é manter a pessoa presa a este esquema retro-alimentador dos bolsos de quem o mantém funcionando. Para concluir, vou lançar, alhures, alguns textos significativos para a elucidação definitiva acerca da morte da teologia da prosperidade:

2Cor 8,9: "Já conheceis a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós"
FL 2,5: "Tende em vós o mesmo sentimento de Nosso Senhor Jesus Cristo"
Fl 2,6-7: "Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo"

Nestes três textos da cristologia paulina São Paulo deixa translúcido a realidade da encarnação: Jesus era divino - sua riqueza - e se fazendo homem assumiu nossa humanidade esvaziando-se de si mesmo - de sua divindade/riqueza - fazendo-se pobre. É este o primeiro sentimento que deve ter o cristão: um severo imitador de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Senhor, o Kyrios estabelecido por Deus(cf. At 2,36), por meio de quem nos vem unicamente a salvação (1Tm 2,5). Ele é o princípio (alfa) eo fim (ômega) da história humana (cf. Ap 1,8; 21,6; 22,13), ou seja, nele é que TODA a história humana encontra a sua plenitude, como está escrito: "tendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés" (cf. Hb 10,2-13). "Deus que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo, pois, pela graça sois salvos" (cf. Ef 2,4-5). Assim, este Senhor e Cristo constituído pontífice, mediador da salvação dos homens, que se fez pobre e plenamente obediente, nos salva na Graça e por graça (que é ele mesmo) e por misericórdia. Portanto, a lei da graça abroga a teologia da prosperidade que funciona sem a graça divina. Já não se compra Deus nem se barganha com Deus. Ele é livre de nós e justamente, nos deu de sua liberdade. Se há de acontecer um milagre é por pura gratuidade de Deus e não por conta do tamanho da sua fé ou do tanto que você reze. Podemos encher o Maracanã com padres rezando por um milagre, cheios de fé, se não for da vontade gratuita de Deus, este milagre não acontece porque Ele não é um pai para atender nossas necessidades infantis, mas um Pai que nos quer dar o melhor presente: a salvação. E se para nos dar este presente for necessário que você sofra um câncer, então que este câncer seja bem-vindo, "pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?" (cf. Mt 16,26). "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (cf. Mt 10,28). "Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la" (cf. Mt 10,38-39). "Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?’ Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo" (cf. Mt 6,31-33).

Depois destas palavras do próprio evangelho, duvido que subsista ainda alguma teologia da prosperidade infantilizando as pessoas por aí!