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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Respondendo oito perguntas sobre a questão do aborto


Recebi no Facebook oito perguntas sobre a questão do aborto e as respondi. Coloco-as aqui e compartilho para que possam ajudar a quem precisa.

1- Por que mulheres engravidam mesmo com tantos métodos contraceptivos disponíveis (tanto no SUS quanto nas redes particulares)?
Porque engravidar é algo para o qual estão predispostas as mulheres em idade fértil. Porque engravidar é algo natural. Porque engravidar é inerente à natureza feminina. Engravidar não é doença. Engravidar não é anti-natural. Engravidar não é algo horrendo. Por fim, engravidar é uma decisão que se deve tomar quando há maturidade para assumir as consequências de educar e criar um filho. É uma decisão, portanto, para pessoas maduras e responsáveis.

 2- O que fazer para ajudar estas mulheres que, usando ou não os métodos contraceptivos, acabam engravidando e não se sentem seguras para assumir a responsabilidade que a maternidade traz? 
Vi certa vez uma mãe, dentro de um ônibus, bater em sua filha por que lhe pediu a chupeta. Vi o motorista do ônibus ser mais mãe que ela própria. A questão em foco não é ela estar ou não preparada para ser mãe. A questão é ter honestidade suficiente e retidão moral suficiente para arcar com as consequências de ser mãe e de ser pai. Para isso exige-se maturidade e capacidade de renúncia e abnegação que esta geração não tem. No mais, quando falta de todo a capacidade de assumir a gestação e o filho, a mulher precisa ser acompanhada espiritual e psicologicamente. Abortar não é solução para os conflitos psicológicos da mãe.

3- Em que condições esta mulher terá este filho? Este filho terá um pai/família que esteja presente em sua vida? Terá condições mínimas de moradia, alimentação, educação para que possa se desenvolver com qualidade de vida?
As condições para se ter um filho são: homem e mulher devem estar casados em santo matrimônio diante de Deus para assumir todos os deveres que lhe impõem a vida conjugal, incluindo aí os filhos. As demais coisas são consequências da assumpção desta responsabilidade. Quando se exclui do horizonte pessoal o compromisso do matrimônio, então desestabiliza-se a capacidade pessoal de assumir os demais compromissos que advém da maternidade ou paternidade. Ter filho não é direito de ninguém. Antes, é um grave dever dos que se comprometem no sacramento do matrimônio. Se não quer ter filho não se case. Solteiros não devem ter filhos, pois, não tem estrutura familiar que comporte a criação e educação de uma criança.

4- Por qual motivo uma criança deve nascer se não terá suas necessidades básicas atendidas?
Pelos mesmos motivos que nossos pais nos conceberam e nos acolheram tendo que trabalhar diuturnamente para nos dar comida, remédio, escola, roupa e calçado. A dignidade da vida humana não se assenta na capacidade material dos pais. A dignidade da vida humana estabelece-se por que o homem é imagem e semelhança de seu criador. Ninguém é obrigado a casar-se e, portanto, a ter um filho. No entanto, desde o momento em que se casa a paternidade e maternidade são inerentes ao matrimônio. Quando uma mulher solteira fica grávida não lhe é lícito abortar por não ter um esposo que lhe garanta as necessidades básicas. Deveria, antes, ter atentado para a necessidade de viver a castidade, resguardar-se, para não cair no perigo da gravidez indesejada. O prazer sexual não está dissociado de sua consequência que é a gravidez. Por esse motivo se a pessoa não quer a consequência não deve lançar-se a produzir as causas. O aborto não é solução para a falta de regra na vida das pessoas que, desregradamente, vivem uma vida sexual ativa.

5- O Estado é laico, preceitos religiosos não deveriam interferir nesta discussão, mas já que interferem, comecemos por: "o que é moral"? E o que é ética? Sobre quais pontos de vista estamos analisando a situação, sendo que a ética e a moral variam de acordo com a sociedade na qual estamos inseridos?
O Estado é laico, não ateu. Os preceitos religiosos devem ser levados em conta nesta discussão por que o Estado não legisla para um povo etéreo, que viva fora da órbita da vida humana. Ele legisla para o seu povo que, no caso do povo brasileiro, é majoritariamente cristão e contrário ao aborto. A pergunta sobre o que é moral vai receber duas respostas, uma resposta ateia e uma resposta cristã. A resposta ateia dirá - como Kant propôs - que a moral é a ética do puro dever pelo dever: "aja de tal forma que teu agir se transforme em um agir universal", ou seja, o agir sem nenhuma fundamentação metafísica ou sobrenatural. Já a moral materialista/pragmatista, também ateia, dirá que não se deve agir apenas pelo sentido do dever moral, mas, sobretudo por aquilo que é mais agradável ao indivíduo, que mais lhe apetece e lhe seja conforme à sua necessidade. Na resposta kantiana da ética do puro dever podemos afirmar que abortar é ético a tal ponto de se tornar um agir universal? No entanto, na resposta da ética pragmática podemos com certeza afirmar que abortar é uma ação que satisfaz o indivíduo em sua necessidade. Na resposta materialista exclui-se qualquer menção metafísica à questão moral e reduz-se o indivíduo a mero aglomerado de células jogado no caos indeterminado do destino cego. Nenhuma destas respostas satisfazem plenamente a pergunta: O que é moral? O que é ética? no tocante ao assunto do aborto. Moral é aquilo que é Bom. Moral é o Bem, mas, não o bem pragmático, pois, o bem pragmático causa o confronto de desejos e necessidades individuais, assim: um tem necessidade de pernas e outro tem necessidade de cortar pernas. Como equacionar os desejos e necessidades pessoais no tecido social? Para ambos isto é um bem. Nem no sentido materialista, por que a bondade que há no ser humano não se explica tão somente pela materialidade do seu ser, mas, encontra raiz e fundamento fora da própria pessoa. Tampouco a ética do puro dever, ainda que mais elevada que as duas primeiras, responde satisfatoriamente ao Bem que se deve procurar realizar para que a ação moral seja, de fato, ética. O Bem pretendido, no caso do aborto, é a satisfação da necessidade e do desejo da mãe ou do pai alcançado por um mal causado ao feto que é morto para satisfazer esta necessidade. Tal coisa não pode ser chamada de Bem, portanto, o aborto não é ético nem moral. Inversamente proporcional poderíamos dar o seguinte exemplo: Para um filho que odeia a mãe, assassiná-la é um bem moral a ser perseguido. Ao assassinar a mãe e alcançar o seu intento, o filho pensa ter realizado um bem. No entanto, isto não pode ser chamado de Bem, pois, a finalidade, o objeto da sua ação é mau em si mesmo, qual seja: a morte de outrem para alcançar satisfação dos desejos e necessidades pessoais. A única espécie de Bem que pode ser considerada moral e ética é o Bem que tem fundamento no próprio Deus e dele deriva suas consequências. Tal Bem é adequado ao homem que possui capacidade de compreendê-lo, assimilá-lo e praticá-lo como veremos mais adiante.

Vou colocar aqui um trecho da Carta Encíclica "Veritatis Splendor" (nro 8-10) de São João Paulo II que explica o que é o Bem Moral:

Do fundo do coração surge a pergunta que o jovem rico dirige a Jesus de Nazaré, uma pergunta essencial e irresistível na vida de cada homem: refere-se, de facto, ao bem moral a praticar e à vida eterna. O interlocutor de Jesus intui que existe um nexo entre o bem moral e a plena realização do próprio destino. Trata-se de um piedoso israelita que cresceu, por assim dizer, à sombra da Lei do Senhor. Podemos imaginar que, se faz esta pergunta a Jesus, não é por ignorar a resposta contida na Lei. É mais provável que o fascínio da pessoa de Jesus tenha feito surgir nele novas interrogações acerca do bem moral. Sente a exigência de se confrontar com Aquele que tinha começado a sua pregação com este novo e decisivo anúncio: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto: convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15).

Impõe-se que o homem de hoje se volte novamente para Cristo, a fim de obter d'Ele a resposta sobre o que é bem e o que é mal. Ele é o Mestre, o Ressuscitado que possui em Si a vida e que sempre está presente na sua Igreja e no mundo. É Ele que desvenda aos fiéis o livro das Escrituras e, revelando plenamente a vontade do Pai, ensina a verdade sobre o agir moral. Cristo, fonte e vértice da economia da salvação, Alfa e Ómega da história humana (cf. Ap 1, 8; 21, 6; 22, 13), revela a condição do homem e a sua vocação integral. Por isso, «o homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Deve, por assim dizer, entrar n'Ele com tudo o que é em si mesmo, deve "apropriar-se" e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio».

Jesus diz [ao jovem rico]: «Por que me interrogas sobre o que é bom? Um só é bom. Mas se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos» (Mt 19, 17). Na versão dos evangelistas Marcos e Lucas, a pergunta aparece assim formulada: «Por que Me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus» (Mc 10, 18; cf. Lc 18, 19).

Antes de responder à pergunta, Jesus quer que o jovem se esclareça a si próprio sobre o motivo por que O interroga. O «bom Mestre» indica ao seu interlocutor — e a todos nós — que a resposta à questão «que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?», apenas pode ser encontrada dirigindo a mente e o coração para Aquele que «só é bom»: «Ninguém é bom, senão só Deus» (Mc 10, 18; cf. Lc 18, 19). Só Deus pode responder à questão sobre o bem, porque Ele é o Bem.

Interrogar-se sobre o bem, com efeito, significa dirigir-se em última análise a Deus, plenitude da bondade. Jesus mostra que a pergunta do jovem é, na verdade, uma pergunta religiosa, e que a bondade que atrai e simultaneamente vincula o homem, tem a sua fonte em Deus, mais, é o próprio Deus, o único que é digno de ser amado «com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente» (Mt 22, 37), Aquele que é a fonte da felicidade do homem. Jesus reconduz a questão da acção moralmente boa às suas raízes religiosas, ao reconhecimento de Deus, única bondade, plenitude da vida, termo último do agir humano, felicidade perfeita.

A vida moral apresenta-se como a resposta devida às iniciativas gratuitas que o amor de Deus multiplica em favor do homem. É uma resposta de amor, segundo o enunciado que o Deuteronômio faz do mandamento fundamental: «Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho serão gravados no teu coração. Ensiná-los-ás aos teus filhos» (Dt 6, 4-7). Assim a vida moral, implicada na gratuidade do amor de Deus, é chamada a reflectir a Sua glória: «Para quem ama a Deus, basta-lhe agradar Àquele que ama, uma vez que não se deve procurar qualquer outra recompensa maior do que o próprio amor; a caridade, de facto, provém de Deus de modo tal que o próprio Deus é caridade».

6- Partindo do pressuposto religioso do livre arbítrio, pode Deus condenar alguém por abortar, sendo que este mesmo Deus permite que eu decida qual o melhor caminho que eu devo seguir? 
Aqui há um erro de princípio. O melhor caminho que eu devo seguir não é aquele que arbitra a minha vontade que pode se equivocar muitas vezes, mas, aquele que me mostra a minha razão e a minha consciência. Sim. Deus pode condenar alguém por abortar, pois, a liberdade dada ao ser humano não é absoluta, pois, o ser humano é racionalmente capaz de compreender a lei natural que lhe diz o que se deve evitar e o que se pode fazer. Este discernimento é feito pela luz natural da razão. Não se pode afirmar que todos os seres humanos são incapazes de compreender as leis dadas pelo Criador ou que estas leis lhes sejam absolutamente inacessíveis e incognoscíveis. As leis foram dadas pelo Criador para serem observadas. Assim, nenhuma criatura tem o direito de escolher o mal por conta própria. Eleger o mal é voltar-se contra a própria razão que tem a capacidade de alcançar, compreender e aderir ao Sumo Bem. Portanto, o mesmo Deus que dá a liberdade de escolha ao ser humano dá-lhe as leis que deve obedecer para ser feliz e livre verdadeiramente e a capacidade de reconhecê-las e segui-las. Não impõe ao homem um destino cego ao qual está condenado inexoravelmente, mas, dá-lhe razão dotada de capacidade cognitiva para compreender a extensão de suas próprias escolhas livres caso prescindam da lei dada por Ele. Por isso a condenação de alguém que opta pelo aborto é racionalmente compreensível uma vez que é uma opção anti-racional, contrária ao Bem e anti-natural.

7- Por que a decisão do aborto incomoda tanto se esta é uma decisão pessoal? E por que esta decisão acaba sendo jogada nas costas da mulher, sendo que o homem também participou da concepção?
O aborto incomoda tanto por que é o assassinato de um incapaz por motivo torpe. Esta decisão deve ser iluminada pela razão e pela busca do verdadeiro Bem moral. Caso um dos cônjuges não consiga compreendê-la é preciso ajudá-lo a ver com clarividência as razões de se escolher o Bem moral e rejeitar o Mal. O homem que impõe tal decisão à mulher é um covarde!

8- Que diferença faz o aborto ser legalizado se você não concorda com o mesmo? No que isto realmente afeta a SUA vida?
Para nós cristãos existe uma coisa que os pagãos desconhecem. Um escritor pagão do II século, Luciano de Samósata, escrevera que as duas coisas cristãs que mais impressionava os pagãos eram a caridade e o desprezo da morte. Por que somos obrigados a amar até os inimigos, por que se não amarmos não somos nada, é que nos importamos com vidas que não são as nossas. É por caridade que nos importamos que a alma da mãe e do pai abortista, do médico abortista, da enfermeira abortista e do Ministro abortista do STF vá para o inferno condenada pelo hediondo pecado do aborto; é por caridade que queremos que viva aquele que, indefeso, pode ser morto na barriga de sua mãe; é por caridade que queremos que todos vão para o céu por que lá é muito melhor que o inferno que aguarda os pecadores contumazes. Simplesmente por caridade ardente por aqueles que não nasceram e por aqueles que podem se condenar ao inferno que nos importamos com as mães e pais, médicos, enfermeiros, Ministros de Tribunal, moribundos, mendigos, órfãos, mães solteiras, adicctos, doentes de toda ordem e você que lê esta resposta. Por pura e simples caridade.



 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Considerações sobre a celebração da Palavra de Deus com distribuição da comunhão



O que dizem os documentos da Igreja?

O Catecismo da Igreja Católica (doravante CIC) diz que os batizados gozam do direito de receber os sacramentos na Igreja (CIC n. 1269). A Eucaristia, todavia, constitui um dom que supera infinitamente o próprio homem por que contém em si mesma "todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o Cristo nossa Páscoa" (CIC n. 1324).

Os fiéis, gozando do direito de receber a Eucaristia, são convocados pela Igreja a se reunir em Santa Assembleia no dia do Senhor, o dia da Ressurreição, o oitavo dia que é sinal do dia sem ocaso que é o próprio Cristo (CIC n. 2174), para celebrar a Eucaristia em honra do Senhor. "Já muito cedo, o Império romano proibiu a reunião dos cristãos. Assim, eles passaram a realizar a celebração da Eucaristia no primeiro dia da semana de madrugada, antes da aurora. Vinham todos os que eram cristãos os da cidade e os do campo. Ninguém faltava, pois era dia de festa em honra do Senhor. Não era feriado: era dia de trabalho, mas ninguém faltava!" (CIC n. 1345).

A Igreja, Mãe e Mestra, para honrar o dia do Senhor com a reunião dos batizados então decidiu que:
"Por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, se a participação na celebração eucarística se tornar impossível, recomenda-se vivamente que os fiéis participem da liturgia da Palavra, se houver, na igreja paroquial ou em outro lugar sagrado, celebrada segundo as prescrições do Bispo diocesano, ou então se dediquem à oração durante um tempo conveniente, a sós ou em família, ou em grupos de famílias, de acordo com a oportunidade." (CIC n. 2183. Código de Direito Canônico, cânon 1248, 2).

Todavia, em muitos lugares deu-se uma prática desordenada e abusiva deste indulto e permissão para que se celebre a Palavra. Tanto o Catecismo quanto a instrução Redemptionis Sacramentum e as Orientações para a celebração da Palavra de Deus da CNBB (doc. n. 52) são claros: "o povo cristão tem o direito que a Eucaristia seja celebrada em seu favor no domingo, em festas de preceito, nos outros dias principais de festa e, quanto possível, também diariamente" (RS, n. 162). Mais: O documento da CNBB pede que os fiéis sejam instruídos quanto ao significado da assembleia dominical (n. 38) e sobre o verdadeiro sentido das celebrações da Palavra de Deus  (n. 39).

No número 38 do mesmo documento da CNBB, os Bispos do Brasil consoantes com a Igreja Universal determinaram que: "Onde não for possível a celebração eucarística, possibilitem às comunidades eclesiais a celebração da Palavra de Deus". A celebração da Palavra de Deus, porém, não cumpre o preceito de assistência à Eucaristia dominical. Mais: "A celebração da Palavra, mesmo com distribuição da comunhão, não deve levar o povo a pensar que se trata do sacrifício da Missa" (CNBB, Doc. 52, n. 38).

"Por falta de ministro sagrado ou por outra grave causa, - diz a Redemptionis Sacramentum - se a participação na celebração eucarística se tornar impossível, o povo cristão tem o direito de que o bispo diocesano providencie, segundo as possibilidades, para que seja realizada uma celebração para tal comunidade no domingo, sob sua autoridade e segundo as normas estabelecidas pela Igreja" (n, 164). Fica a critério do Bispo, porém, a autorização para distribuição da comunhão nestas celebrações.

As celebrações dominicais da Palavra de Deus

Em muitas Paróquias no Brasil é comum a celebração dominical da Palavra de Deus por ministros leigos ou mesmo por diáconos com a distribuição da comunhão. Este tipo de celebração só é lícito se atender às exigências de reunir o povo de Deus para a oração comum e a comunhão Eucarística fora da missa em locais e circunstâncias especificadas nos documentos supra citados e nas quais não haja possibilidade do povo batizado ir à Celebração do Santo Sacrifício da Missa.

Todavia, o que se vê em muitos lugares é um abuso desta faculdade. Nas cidades onde há mais de um Padre residente ou mais de uma Paróquia instalada e há a possibilidade do povo de Deus ir à Celebração do Santo Sacrifício em outro horário ou mesmo em outra Paróquia não se justifica a celebração da Palavra, pois, esta prática leva o povo de Deus a deduzir que participando destas celebrações está a cumprir o preceito dominical de participar do Santo Sacrifício propiciatório.

Se a finalidade do povo de Deus ir à Missa Dominical fosse apenas para reunir o povo em torno da Palavra, então não haveria problema de um católico se tornar evangélico, posto que é esta a finalidade do culto evangélico. No entanto, a finalidade não é apenas esta como é apontado no Catecismo.

Se a celebração da Palavra de Deus satisfizesse o cumprimento do preceito da missa dominical, os documentos da CNBB e da Igreja Universal não ordenariam que se fizesse adequada catequese e distinção de ambos para que os leigos não sejam induzidos à confusão e ao erro.

A melhor pastoral para dar ao povo de Deus o seu direito à eucaristia dominical é uma pastoral vocacional que promova, sem medo do discurso politicamente correto, as vocações sacerdotais.

Outra questão candente a ser trata em futura publicação é a que se refere aos ritos usados na celebração da Palavra de Deus. Muitos se parecem com uma missa mal disfarçada celebrada por um leigo ou uma leiga. Maneira muito sutil de burlar a lei da Igreja no que se refere ao sacerdócio, de promover inadequadamente a mulher dentro da Igreja e de fazer confusão na cabeça do povo de Deus.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Os Santos e a Igreja no Mistério de Cristo


Os salmos das Laudes desta quinta-feira da 27ª semana comum - Salmo 86 (87), cântico de Isaías 46,10-17 e salmo 98 (99) - , nos ensinam muito claramente de que espécie é a Igreja de Cristo, sua esposa, que diariamente a ele se une pela oração vocal, mental e pela Eucaristia. Jesus Cristo é o centro da Revelação do Pai. "Mostra-nos o Pai e isto nos basta, pediu Filipe. Jesus lhe disse: 'Há quanto tempo estou convosco e ainda não me conheces, Filipe. Quem me vê, vê o Pai. Como é que podes dizer mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?'" (Jo 14,8-10). Jesus nos revelou o "rosto da misericórdia do Pai" como nos ensinou o Papa Francisco na Encíclica Misericordiae Vultus, portanto, ele é o centro da Revelação. Por isso, ele também é o critério da interpretação das Sagradas Escrituras, da vida e da oração da Igreja. Cristo é o centro de todas as coisas, inclusive, da Ave-Maria que recitamos no Rosário: "O baricentro da Ave Maria, uma espécie de charneira entre a primeira parte e a segunda, é o nome de Jesus. Às vezes, na recitação precipitada, perde-se tal baricentro e, com ele, também a ligação ao mistério de Jesus que se está a contemplar. Ora, é precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário" (Rosarium Virginis Mariae, n. 33). Assim, é por causa de Cristo, o esposo, que a Igreja torna-se ela também a esposa como está descrito no livro do Apocalipse: "Vi então um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido" (Ap 21,1-2). A Igreja, portanto, é a Nova Jerusalém, a esposa do Cordeiro que é o Centro da Revelação e da interpretação das escrituras. Isto posto a título de introdução, vamos aos salmos que me referi.

O Senhor ama a sua cidade, por ele fundada, no monte santo - Salmo 86,1
Em Sião, cidade do Senhor, nasceu todo homem - Salmo 86, 5
Os que nela nascem são inscritos no Livro da Vida - Salmo 86,6
"E por isso todos juntos a cantar se alegrarão; e, dançando, exclamarão: estão em ti as nossas fontes!" (Sl 86,7)

A Igreja é a morada de Deus entre os homens. Nela nascem os Filhos de Deus por adoção mediante o Batismo, que são livres e inscritos no Livro da Vida. Por isso o Senhor a ama: por que sua esposa lhe gera filhos para a vida!

Isaías 46,10: "Olhai e vede: o nosso Deus vem com poder, dominará todas as coisas com seu braço. Eis que o preço da vitória vem com ele, e o precedem os troféus que conquistou". O que seria este troféu, esta conquista e esta vitória? No contexto de Isaías, fala-se certamente de uma vitória bélica contra os inimigos do povo eleito. Mas, a partir de Cristo que é o centro da interpretação das escrituras, quais são os troféus que Deus conquista para si? Por acaso não são os filhos seus que são justificados em Cristo Jesus e, por Ele mesmo, santificados? "Justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus" (1Cor 6,11), "santificados... chamados a ser santos" , os cristãos se tornaram "templo do Espírito Santo" (1Cor 6,19) (Catecismo da Igreja Católica, n. 1695). Os santos são os seus troféus, eles demonstram a força e o poder de Deus e testemunham sua vitória sobre o pecado, a carne, o mundo e o tentador! Os santos e os mártires professam com sua vida e com sua morte que Deus é O Senhor e que se assemelham a seu Ungido por uma vida de identificação, imitação e testemunho. Os santos estão na Jerusalém celeste louvando O Senhor dia e noite sem cessar, vivos, em pé, como o Cordeiro que venceu o demônio, o pecado e a cruz. Eles são a coroa de glória do Senhor e da Igreja. Se São Paulo pôde chamar aos filipenses de sua alegria e sua coroa em virtude do bom testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo, também o Senhor assim qualifica os que Ele mesmo santificou pelo seu sangue derramado na cruz (cf. Hb 13,12; Ap 12,1; Fl 4,1). A coroa de glória do Senhor, que são os santos,  estão diante do Trono de Deus e do Cordeiro na Jerusalém Celeste louvando-o dia e noite sem cessar: Sl 98 (99) 1-2: "Deus é Rei: diante dele estremeçam os povos! Ele reina entre os anjos: que a terra se abale! Porque grande é o Senhor em Sião!"  

A Liturgia na Jerusalém Celeste é o perene louvor de Deus pelos seus justos e santos, por Ele justificados e santificados através do sacrifício propiciatório do Unigênito: Sl 98 (99),5 "Exaltai o Senhor nosso Deus, e prostrai-vos perante seus pés, pois é santo o Senhor nosso Deus!". "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: A salvação é obra de nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro e todos os Anjos estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Animais; prostravam-se de face em terra diante do trono e adoravam a Deus, dizendo: Amém, louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém. " (Ap 7,9-12).

O versículo 9 do Salmo 98 ainda convida a adorar o Senhor prostrando-se diante de seu Monte, o Monte Sião. A partir de Jesus Cristo, podemos dizer que a Igreja é verdadeiramente o lugar da Adoração ao Senhor em "espírito e verdade" e só nela é que ocorre tal adoração por que "tais são os adoradores que Deus procura" (cf. Jo 4,23). Esta verdadeira e única adoração inicia-se aqui em cada Celebração Eucarística que é "penhor da glória futura": "A Igreja sabe que, desde agora, o Senhor vem em sua Eucaristia, e que ali Ele está, no meio de nós. Contudo, esta presença é velada. Por isso, celebramos a Eucaristia "expectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Jesu Christi - aguardando a bem-aventurada esperança e a vinda de nosso Salvador Jesus Cristo", pedindo "saciar-nos eternamente da vossa glória, quando enxugardes toda lágrima dos nossos olhos. Então, contemplando-vos como sois, seremos para sempre semelhantes a vós e cantaremos sem cessar os vossos louvores, por Cristo, Senhor nosso" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1404).


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Homilia da missa de Aniversário de Ordenação



Prostratio. Ordenação Presbiteral em 04/10/2008

 Caro irmão no ministério sacerdotal Padre Emerson, minha família aqui presente, caros irmãos e irmãs. “Toda vocação Sacerdotal é um grande mistério, um dom que supera infinitamente o homem” por que o sacerdote se torna ontologicamente outro Cristo. Na ordenação sacerdotal muda-se o seu ser. O homem adotado por Deus como filho mediante o batismo se torna, mediante a escolha divina, um ministro de Cristo, o continuador de sua obra de salvação sobre esta terra. Consciente de que vivo os dois extremos, sei que por um lado a graça divina me foi dada sem mérito algum de minha parte e é Deus quem realiza tudo. Por outro lado, sei que sou um vaso de barro no qual foi derramada a misericórdia do Senhor. Ainda que o pecado seja como uma rachadura nas paredes desse vaso que muitas vezes faz a graça de Deus escorrer, as palavras de São Paulo ilustram muito como Deus sustenta o nosso sacerdócio: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados”, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações. Por isso, hoje esta santa missa é uma grande ação de graças, um grande louvor a Deus, um grande “obrigado”. Deus não se cansa de perdoar, disse o Papa Francisco, e não se cansa mesmo por que Deus é amor. “Ele não se cansa de perdoar, simplesmente porque Deus não é pelagiano. Ele volta novamente a semear a sua misericórdia e o seu perdão” e é esta experiência diária da sua misericórdia que vai construindo o ministério sacerdotal que exerço há oito anos. “Eu creio”, por isso estou pregando a convicção mais profunda da nossa fé: que há um Deus, que é Trindade-Amor e que nos ama imensamente e que este amor é a salvação dos homens. Fora dele há apenas perdição, sofrimento e suplício. Eu creio, por isso caminho junto dos meus irmãos presbíteros. Eu creio, por isso caminho junto da comunidade que me foi confiada. Eu creio, por isso estou unido ao Bispo. Eu creio, por isso sou sacerdote! Eu creio, mas não creio só! Nós cremos e por isso vivemos a comunhão na fé, no amor a Deus; a unidade de espírito e a missão dada pelo Senhor. Nós, caríssimos, somos um! Tenho aprendido a olhar para Cristo, a estar com Ele, a beber e saciar Nele a fome a sede de eternidade que há em mim. Venho a Ele todos os dias, como um mendigo que estende sua mão pedindo um pedaço de pão como esmola e Ele vem a mim com “palavras de vida eterna” que saciam toda sede e matam toda fome.
A tentação forte do ativismo que eu tenho e todos nós padres temos, de pensar que seremos grandes pelo número grande de coisas que fizermos, aos poucos vai cedendo espaço e vou entendendo que mais importante do que fazer coisas correndo de lá para cá como Marta é estar com Jesus como Maria, aos seus pés ouvindo-o e depois, estar com as pessoas. Um simples abraço e um singelo sorriso podem ser muito mais eficazes do que uma longa e cansativa pregação, por que o amor é muito mais eloquente do que muitas palavras. Estas experiências venho fazendo ao longo do meu sacerdócio. Abandonando aos poucos o desejo de ser grande, de ser importante, para ser simplesmente “sacerdos alter Christus” outro Cristo, um sacerdote. Importante não pelo grande número de coisas que posso fazer – por que não é nisto que reside a grandeza do sacerdócio – mas, pelo muito amor com que faço cada pequena coisa. Neste sentido me inspiro muito em Chiara Lubich e suas palavras me enchem de alegria e esperança quando me lançam para amar a todos indistintamente, para amar cada um, cada próximo, cada pessoa, momento por momento, um a um, de modo que ninguém, absolutamente ninguém, saia da minha presença sem ser amado assim desse modo. É por querer amar assim e querer fazer bem cada coisa por amor a Jesus que o sacerdócio tem sentido para mim.
Celebrar a Eucaristia é exercício desse amor, desse zelo por Jesus presente em cada irmão e também nas espécies consagradas. Rezar não é um fardo, mas a alegria de um encontro diário com o amado da minha alma. Servir não é pesado por que é Jesus que vejo em cada rosto, é Jesus que sirvo em cada pessoa. O celibato é uma renúncia silenciosa também por amor e vou entendendo cada vez mais qual é a espécie desse amor: um amor universal, capaz de abraçar a todos e amar a todos como Jesus o fez, conformando-me a ele a cada dia para dar aos outros não eu, mas, Jesus em mim. Abraço o celibato como dom total de mim mesmo a Deus e aos outros, como forma sublime de viver a vocação ao amor à qual todos são chamados. O dom esponsal do corpo de um homem consagrado a Deus pela promessa de celibato é sinal daquele amor virginal da Igreja para com seu divino esposo, Jesus Crucificado, e sinaliza para os homens e mulheres do nosso tempo que há um amor que supera o tempo, o corpo, os desejos e a natural inclinação do homem para o matrimônio. Ah, como é belo o solene beijo na toalha branca do altar. Inclinado sob o altar do sacrifício o sacerdote o beija todo dia. É Cristo que beija sua esposa vestida da brancura da santidade divina. É o homem-sacerdote que beija o porquê de sua consagração. É a Igreja que beija o seu amado esposo sacrificado por amor. É o ósculo santo que traz a paz ao mundo por causa da imolação do Cordeiro Santo e de cada sacerdote na face da terra.


Desde meu primeiro ano de sacerdócio que peço a Jesus: “faça-me um sacerdote segundo o vosso sagrado coração” e parece que ele tem atendido o meu pedido. Tenho convicção de que o Senhor que me chamou é fiel e que me conhece desde o ventre de minha mãe, por isso eu louvo e dou graças, bendigo e agradeço por sua fidelidade e amor. Por este motivo nada temo nem em mim, nem no mundo, nem nas pessoas ou no próprio tentador, por que sei que assim como Ele é fiel ao chamar, é fiel ao sustentar o chamado.
Assim, digo aos jovens: não tenham medo de entregar suas vidas a Jesus. Não tenham medo de ser padres. A atração do nosso tempo é a do entretenimento, dos jogos, da alegria estridente a toda hora e isto ganha a atenção de vocês jovens. Mas, pode ser que entre vocês existem aqueles que anseiem por algo mais, que não se contentem com essa parcela pequena de entretenimento e alegria passageira e queiram aquela alegria genuína da alma; pode ser que existam jovens que queiram ser generosos, que queiram mais doar a vida do que receber algo em troca, que queiram mais amar que ser amados, mais servir que ser servidos, mais compreender que ser compreendidos. Pode ser que existam jovens que queiram ser eficazes instrumentos de Deus na vida do ser humano para fazer a real diferença no mundo. Ainda acredito que haja jovens capazes de olhar para fora e enxergar que, no mundo, as pessoas andam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor. É para estes jovens que se dirige o convite de Jesus: “Segue-me e eu vos farei pescadores de homens”. Eu os provoco a deixar Jesus interpelar o seu coração, deixar Jesus falar lá dentro da sua alma, a permitir ouvir a voz do Senhor. O sacerdócio é uma belíssima vocação, para mim a mais bela. Sejam capazes, meus caros jovens, de abandonar tudo por causa de Cristo. Sejam capazes de abandonar o mundo com suas alegrias fugazes e, muitas vezes, mentirosas; sejam capazes de abandonar as vaidades dessa vida, as ninharias desta terra por algo grande, maior, sublime e eterno. Permitam ser lápis de Deus nas mãos do Eterno com o qual Ele escreverá alguns traços da sua história de salvação nesse mundo. Sejam capazes de deixar tudo para serem felizes junto a outros irmãos doando a vida pelo reino de Deus. Corram atrás desta felicidade crucificada, deste amor desolado, cuja companhia segura é Maria Santíssima que nunca nos abandona. A ela que me trouxe para esta Paróquia, que intercede por mim e que me tem feito Padre conforme o desígnio de Deus o meu louvor e ação de graças. A vocês que me acompanham nestes 8 anos asseguro minha intercessão. Que o bom Deus nos ajude a todos em nossa caminhada rumo ao céu e que nunca nos falte sua graça e seu amor. PNSJC.